Paternidade

À meia-noite mamarei sua alma

No terceiro capítulo do 'Diário de um pai recém-nascido', um guia informal de amamentação para pais e adjacências

Rodolfo Borges

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Você deve agir como um prático, manobrando um transatlântico minúsculo em direção ao encaixe perfeito no porto, no peito. A boa execução da sua tarefa depende do reconhecimento de que você é um acessório, um opcional, e se essa lição for bem apreendida, valerá para as outras tantas funções que você exercerá em relação a sua família — e por que não incluir o seu país ou o mundo inteiro nisso? Como seu bebê recém-nascido não enxerga direito e, ao contrário de boa parte dos mamíferos, não consegue sequer se locomover sozinho nos primeiros meses de vida, você deverá atuar como seus olhos e pernas e nariz, e terapeuta. Os youtubes e spotifys da vida estão repletos de sons do útero para executar terapia de regressão, até a semana passada — alguns dos sons oferecidos se assemelham mais a uma correnteza, mas o importante é que o bebê cai no truque. A tática do charuto, em que você enrola seu bebê em panos como se fosse um escravo, ou melhor, um satisfeito, saudável, bem alimentado e livre cubano formado em medicina, também o ajuda a relaxar — como eles não controlam as mãos e as pernas, sempre que estão com os membros soltos sentem-se em queda livre, porque perderam a referência do útero, comenta-se. O mais relevante, contudo, é obedecer à mãe do seu filho. Faça tudo o que ela quiser: alcance um copo d’água, mude o canal da televisão, massageie seus pés, vá comprar pão, ponha a mesa do café da manhã, tire a mesa do café da manhã, ponha a mesa do almoço, tire a mesa do almoço, cozinhe (antes disso, é aconselhável aprender a cozinhar), peça comida pelo aplicativo, cante uma música para acalmar o bebê, componha uma música para acalmar o bebê, sapateie para acalmar o bebê, recite Shakespeare para acalmar o bebê, encene Les Misérables para acalmar o bebê, ganhe um Prêmio Tony por acalmar o bebê. Para além disso, você não terá muito o que fazer. A não ser que a mãe esteja enfrentando algum problema para amamentar. Nesse caso, você não terá de lidar apenas com a irritação do bebê, mas com a decepção da mãe. Você precisará lembrá-la do óbvio: a culpa não é dela, nem do seu filho, nem de ninguém. Não se trata de culpa, mas da alimentação do bebê, que, quando feita de mamadeira, é mais fácil, apesar de oferecer menos do que o leite materno e o contato com a pele da mãe têm para dar. Difícil é ajudar a mãe a lidar com a frustração de suas expectativas. É por isso que você tem de ser perfeito ao lado dela. Não é agora que você vai virar um problema, certo? Ela já vai estar cansada o bastante por não poder revezar a amamentação com o marido ou a mãe dela ou qualquer outra pessoa no mundo inteiro, então você pode trocar as fraldas do bebê, e oferecer-se para embalá-lo à espera do arroto — sempre se ofereça para segurá-lo à espera do arroto. E esteja ao lado dos dois sempre que possível, para fins de apoio moral. Principalmente quando à meia-noite ou às 2h ou 4h da madrugada ele acordar verde de fome e esticar a boquinha para mamar suas almas. Se o peito não for o bastante para aplacar a ira do pequeno Hulk, não é hora para heroísmos. A famigerada chupeta é uma espécie de kriptonita para o Hulk ou algo assim — papai nunca foi muito bom de super-herói. Uma arma de acalmação em massa. Os anglo-saxões não a chamam de pacifier (pacificadora) por acaso. Mas o melhor de tudo é que, fora uma conversa ou outra com amigos que tiveram filhos, as dicas das enfermeiras da maternidade, os palpites dos parentes e algumas centenas de buscas por instruções de conduta na Internet, você vai se dar conta de tudo isso que eu falei por conta própria. Foi assim comigo. Escreva seu próprio manual. Mas, pelo amor de Deus, não pare de cantar. I dreamed a dream in time gone by / When hopes were high and life worth living / I dreamed that love would never die / I dreamed that God would be forgiving. Desce o pano (ou a fralda, o que estiver mais à mão — rápido)!