Paternidade

Quando seu filho nascer sem respirar

Este é o primeiro capítulo do 'Diário de um pai recém-nascido'. Convido você, seu pai, sua mãe, seus avós, o papagaio, o cachorro, o gato, o segundo gato, o terceiro gato, a dar os primeiros passos comigo rumo à minha estreia no Dia dos Pais

Rodolfo Borges

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Quando seu filho nascer sem respirar, você terá poucos pontos onde sustentar os próprios olhos. O mais relevante será o corpinho dele, para o qual você vai olhar em busca de um movimento que compense a falta do choro, um espasmo, um sinal de vida qualquer. Caso o débil fechar de seu olhinho esquerdo ao ser colocado sobre uma mesa para reanimação não seja o bastante para te consolar, será preciso buscar os olhos do pediatra enquanto você desliga a câmera do telefone. Você provavelmente também vai procurar consolo nos olhos do médico que tirou o bebê de dentro da sua mulher, mas os olhares de esguelha do doutor para o pequeno, entre um ponto e outro aplicado na barriga da recém-nascida mãe, terão o efeito contrário: a sensação do imprevisto, do imponderável, a incerteza e a insegurança se dispersarão pela silenciosa sala de cirurgia. E mesmo sem ter onde se agarrar, mesmo flutuando pelo quarto frio, você precisará sustentar os olhos da sua mulher, que, enquanto o bebê é reanimado, só tem você, que está na cabeceira da mesa de cirurgia, para se apoiar. Você dirá a ela que está tudo bem enquanto toca sua testa, simplesmente porque, ainda que o bebê não esteja respirando, o pior é impensável. Essa possibilidade não existe, nem se pronuncia, o trabalho de parto ia bem demais até aquele ponto, até o bebê exigir força demais da mãe, por estar cruzado, e a cesariana, o procedimento mais controlado possível, entrar em cena. Depois de assegurar a ela que está tudo bem, você voltará a olhar para o pediatra, que estará convocando alguma superior — ou pelo menos soará como uma superior — enquanto introduz e puxa sondas pelo nariz do seu filho, de onde sai líquido vermelho. O pediatra pegará um tubo maior, transparente, e bombeará ar pelas narinas do seu filho. Por sete minutos, você será informado depois. Seu filho terá ficado sem respirar por um minuto eterno e terá respirado com ajuda de aparelhos pelos sete minutos seguintes. Ele só vai começar a chorar no oitavo minuto de vida. Mas o bracinho esquerdo se mexerá antes, e você responderá mais uma vez a sua mulher que está tudo bem, que ele já mexeu o bracinho, que ela precisa relaxar depois de nove horas de trabalho de parto. Talvez porque a situação já esteja controlada, porque o pior já passou, o pediatra vai se dispor a preocupar-se com os pais, e os encarará pela primeira vez para dizer que está tudo bem, que ele já vai explicar o que acabou de acontecer. É quando tudo parecer bem que você enfim se permitirá duvidar. Só então você pensará na possibilidade de o pior ou de pelo menos algo de ruim acontecer. O pediatra já terá trocado o tubo de respiração mais agressivo por um nebulizador e dirá que o bebê respira bem, mas que ainda está muito agitado. De fato a barriguinha estará ofegante, porque vive, quer viver. Seu filho não chorará mais, foi muito rápido, mal dará para pegar o celular para gravar o som, atendendo ao pedido da sua mulher. Seu filho será transferido para uma incubadora e você dirá à mãe dele que vai acompanhá-lo, e ela obviamente concordará. Você é uma rocha, inabalável, resiliente — o que poderia fazer senão manter a calma? Você só vai chorar quando estiver tentando descrever o que aconteceu, ao escrever, para se organizar, para se entender, para se reconstruir, três dias depois. No caminho para a UTI, você vai tentar retirar alguma garantia da equipe médica. Aquilo foi um susto, ele já está respirando, certo? Mas os médicos não poderão garantir nada; eles vão precisar fazer exames, investigar seu bebê por pelo menos 48 horas. Qual seria o maior risco? Neurológico. Ele pode ter ficado sem respirar dentro da barriga. Você dará uma última olhada no seu filho e enxergará o próprio reflexo sombrio e impotente na incubadora. Sem o auxílio da equipe médica, tentará se encontrar pelos corredores do hospital para dizer a sua mulher, assustada, sem informação, já entregue às lágrimas, que foi tudo um susto, que está tudo bem pelo que você pôde sentir. Vai ficar tudo bem. É o que você disparará para todos os seus contatos telefônicos, para a família e os amigos que acompanhavam o processo quase em tempo real até as 19h35 do dia 8 de julho de 2019, quando parou tudo e faltou fôlego. Depois de tranquilizar todo mundo, você retornará à UTI neonatal e ouvirá que o teste do sangue retirado da placenta afastou o primeiro risco: não há sinal de que o bebê deixou de respirar dentro da barriga. Só então você vai tirar a primeira foto dele, para mostrar a sua mulher. Ela só vai poder vê-lo pessoalmente depois que retirar a sonda urinária, por conta das normas da UTI. Depois de se instalar no quarto com ela, você voltará mais uma vez à UTI, onde enfim olhará em volta e começará a perceber que os outros bebês são bem menores do que o seu. Isso só pode ser bom para seu filho. Melhor ainda: a pediatra de plantão dirá na segunda ou terceira visita (quem estará contando?) que os eletrodos não identificaram nenhuma sequela neurológica. Isso vai acontecer por volta de 0h30, próximo da marca das primeiras seis horas de vida do seu filho, o período-chave para a manifestação de algum problema. Você já estará deitado, tentando dormir no sofá de uma suíte do melhor hospital da cidade, do Brasil, da América Latina (o que poderia dar errado?), quando o telefone fixo tocará. Será exatamente à 1h35 de uma terça-feira. A pediatra da UTI neonatal perguntará se você é o pai e dirá que foram feitos todos os testes, lentamente (por que tão lentamente?) descreverá o que foi investigado para só então dizer que está tudo bem. Aliás, que parece estar tudo bem. Não se pode garantir nada — ninguém nunca poderá garantir nada. Ele seguirá por lá sob observação. O dia seguinte, que será o mesmo dia interminável da véspera, começará cedo, com mais uma visita à UTI e mais notícias boas. O bebê seguirá evoluindo em meio a prematuros de aspecto muito mais debilitado do que o dele. É como se seu filho não devesse estar ali. Terá quase o dobro do tamanho de sua cabeluda vizinha de incubadora. Provavelmente receberá alta em 24 horas, e não nas 48 estipuladas inicialmente. Você disparará mais mensagens, acalmando todo mundo, e, ao fazê-lo, se acalmará também. Na primeira chance, você tirará uma foto de seu filho sem respiradores ou eletrodos na cabeça, para mostrar ao mundo que ele existe, que é o bebê mais lindo que você já viu. Será apenas na tarde daquele dia que a mãe o pegará no colo pela primeira vez e para sempre, e que o pai vai recear pela primeira e última vez segurá-lo nos braços. Ao fim desse dia seu filho receberá alta e irá para a suíte do hospital com os pais. E toda a família suspirará enfim, junto com o bebê. Se você tiver sorte. Eu tenho muita sorte.

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