Funcionário terceirizado pela Lucas Corp.

No quarto capítulo do 'Diário de um pai recém-nascido', pego o caminho para Wigan Pier com George Orwell e, em nome do meu filho, extraio carvão com um sorriso lunático estampado no rosto

Rodolfo Borges

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Retorno ao trabalho após a primeira semana de pai e, apesar do cansaço, me deparo com um intrigante sentimento de empolgação. Quero abraçar todo mundo. Quero ajudar todo mundo, consolar todo mundo, divertir, entreter, mais do que o normal, mais do que nunca, e meu receio é exagerar, atrapalhar, me tornar impertinente. Quero celebrar. Tenho vontade de fumar um charuto, tossir por causa do charuto, me arrepender por ter fumado o charuto, ser obrigado pela mulher a tirar o cheiro de charuto da roupa do bebê, botar a caixa de charutos pra vender no Mercado Livre e, após dias de insucesso, acabar jogando os charutos na lata do lixo. É que eu estou sob nova direção, funcionário terceirizado pela Lucas Corp, uma start-up criada há pouco mais de uma semana que está revolucionando o meu mercado. Sigo com as mesmas competências, mas muito mais vontade, muito mais responsabilidade. E olha que, modéstia às favas, como diria um ministro supremo, (informe publicitário:) disciplina e disposição nunca foram um problema para mim. Mas o CEO da nova start-up deve estar colocando algum tipo de energético na água da empresa, porque de repente eu senti vontade de pegar o caminho para Wigan Pier ao lado de George Orwell e extrair carvão por 30 dias seguidos — sem direito a hora extra ou intervalo para o almoço — com um sorriso lunático estampado no rosto enquanto o misericordioso escritor, que lamenta as dores nas suas juntas e limpa as mãos sujas de manteiga no carrinho de transporte do carvão, tenta me convencer de que o problema do socialismo é o socialista. Eu concordo, respondo a Georgie, mas digo que ele pega pesado com os socialistas, porque o problema do socialismo é maior, mais amplo, é o próprio homem, mesquinho, individualista, medroso, desconfiado, irascível, indomável, imprevisível, agressivo, rebelde, potente, independente, inventivo, criativo, surpreendente, livre, maravilhoso, fascinante, apaixonante. Ao deixarmos as minas de carvão da Inglaterra do início do século 20, cruzamos com Hayek numa encruzilhada e, no meio do redemoinho, pegamos a contramão do caminho da servidão, rumo a 2084, sem duplipensar; aliás, com um pensamento só: trabalhar para pagar o leitinho da criança. Será esse o verdadeiro motor do sistema? Minúsculos burgueses nos fazendo levantar da cama todos os dias com um propósito que obriga (ou permite) encontrar sentido em qualquer serviço, do mais burocrático apertar de um parafuso ao mais empolgante carimbar de duas vias com firma reconhecida? Ah, Engels já fez muita manha sobre isso, esperneou um livro inteiro sobre a origem da família, da propriedade privada (e do penico) e do Estado. Convenhamos, quem gosta de comer brócolis? Quem gosta de ter hora para dormir, tempo contado para jogar videogame? Michelzinho Foucault giraria seu fidget spinner eternamente se não houvesse alguém para vigiar e puni-lo. Mas é para o seu bem, Michelzinho, larga essa chupeta. Ouvi de uma amiga que minha satisfação — e a euforia de meus pais e sogros — com a chegada do meu filho se deve à perspectiva da descendência, da permanência, o cumprimento do destino natural, evolutivo. Concordo. Tenho andado muito naturalista, darwineio o dia inteiro sobre os mistérios da evolução. Enxergo origens ancestrais em tudo e todos e me acalmo. As coisas não são do jeito que são porque algumas pessoas más ou boas assim o determinaram, mas porque, por pior que seja, é o melhor que conseguimos fazer. Nessa perspectiva histórica, me percebo no meio de um caminho muito longo, que eu não teria tempo de percorrer sozinho, porque me faltariam anos, décadas, séculos, milênios — será por isso que as questões políticas se tornaram tão urgentes, só porque passamos a ter menos filhos? Dei mais um passo, portanto, e, por isso, não posso me permitir dar sequer mais um passo em falso, até que a descendência possa andar com as próprias pernas. É por isso que agora me preocupo mais com a minha saúde e fiz até um seguro de vida. Por isso também que passei a atravessar a rua apenas com o sinal fechado, mesmo sem ter carro passando. Não há seguro de vida que compense meu tipo ou tempo de serviço na Lucas Corp. É por isso que eu falo nisso todo dia. A herança, a segurança, a garantia, pra mulher, para o filhinho, pra família, eu falo nisso todo dia.

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