Rebelião em presídio do Pará deixa ao menos 57 mortos

Para Governo, disputa entre facções é raiz do massacre. Aos menos 16 vítimas foram decapitadas, no maior matança do ano em cadeias. Grupo de detentos será transferido

Os presos atearam fogo em colchões durante a rebelião.
Os presos atearam fogo em colchões durante a rebelião.Reprodução

Ao menos 57 presos morreram nesta segunda-feira durante rebelião no Centro de Recuperação Regional de Altamira, a cerca de 800 quilômetros de distância de Belém (Pará). De acordo com a Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará (Susipe), ao menos 16 deles foram decapitados durante o conflito entre facções rivais, a maior matança do ano nas cadeias do país. Os detentos chegaram a fazer agentes penitenciários como reféns, mas eles foram liberados após negociações com as autoridades. Parte das vítimas foi asfixiada depois que os presos atearam fogo a colchões dentro das celas, de acordo com as autoridades. A Susipe informou que a confusão começou por volta das 7h, durante o café da manhã. O Centro tem capacidade para 208 internos, mas contava com 311 pessoas presas no local.

Na tarde desta segunda-feira, o Ministério da Justiça e Segurança Pública ofereceu ao Governo do Pará vagas em presídios federais para a transferência dos líderes da rebelião. "O ministro Sergio Moro lamentou as mortes e determinou a intensificação das ações de inteligência e que a Força Nacional fique de prontidão", informou o ministério em nota. Na mesma mensagem, Moro ressalta acompanhar a situação de perto e diz que conversou com o governador Hélder Barbalho "ainda na manhã desta segunda". No início da tarde foi realizada uma reunião de emergência para tratar do assunto com o secretário Nacional de Segurança Pública Adjunto, Freibergue Rubem do Nascimento, entre outras autoridades. Segundo as autoridades paraenses, 46 presos vão ser transferidos, incluindo 16 detentos apontados como líderes das facções criminosas.

Mais informações

O secretário do Sistema Penitenciário, Jarbas Vasconcelos Carmo, afirmou após o ocorrido que a unidade abriga duas facções, o Comando Vermelho, originário no Rio, e o Comando Classe A, um grupo local, que segundo Ponte Jornalismo é aliado da facção paulista PCC. Segundo ele, este último "rompeu seu pavilhão e rompeu o do Comando Vermelho, foi um ataque rápido e dirigido com o objetivo de exterminar os rivais". Carmo lamentou o ocorrido, e chamou o ataque de "inesperado": "Nós não tínhamos relatório da nossa inteligência aportando um possível ataque, desta magnitude", completou o secretário.

Relatos iniciais dão conta de que a maioria das vítimas seria integrantes da facção fluminense. O secretário disse ainda que foram encontrados "corpos decapitados e também outros mortos por asfixia". "Não tiramos todos [os cadáveres] porque o local ainda está quente. É uma unidade antiga, em formato de contêiner", informou. Por fim, ele afirmou que uma vistoria preliminar na unidade realizada após o massacre não encontrou armas de fogo no local, apenas "estoques".

Nos últimos anos a região Norte se tornou uma das principais linhas de frente de embate entre facções rivais, como o Primeiro Comando da Capital, criado em São Paulo, o Comando Vermelho, originário do Rio, e a Família do Norte, manauara. Como consequência, a disputa pelo domínio de rotas de tráfico e o recrutamento de novos filiados dentro dos presídios acabam levando a confrontos atrás das grades, que envolvem também grupos menores, como o Comando Classe A, do Pará. Há pouco mais de dois meses outro massacre prisional deixou 55 mortos no Amazonas em quatro unidades distintas. Não foi a primeira vez que o Estado viu um banho de sangue em seus presídios: em janeiro de 2017 foram assassinados 56 detentos no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus.

A violência atrás das grades contrasta com a queda dos índices de letalidade fora delas. Nas ruas, acordos de paz firmados entre estes grupos criminosos na maioria dos Estados levaram à redução dos índices de homicídio no país, algo que já era verificado em São Paulo, onde o PCC tomou para si o papel de regular os assassinatos nas periferias do Estado. De acordo com dados do Monitor da Violência, a letalidade violenta no Brasil caiu 10% já em 2018, ano em que foram registrados 57.117 homicídios.