‘O verão tardio’, de Luiz Ruffato, é alegoria de uma surdez coletiva

A desesperança presente no novo livro do escritor ecoa um estado de apatia do país: escaparemos quando voltarmos a ouvir

Moradores de rua descansam em frente a um grafite representando Bolsonaro e Trump.
Moradores de rua descansam em frente a um grafite representando Bolsonaro e Trump.NACHO DOCE (REUTERS)

Entre a avalanche de más notícias de 2019, os lançamentos literários da primeira metade do ano, em sua diversidade de autorias e formas, reafirmam o potencial da literatura brasileira de fazer do absurdo matéria narrativa. Como de fato é extensa a lista de temas que assombram este ano, sejam relacionados ao meio ambiente, à caçada às políticas de gênero ou ao empobrecimento da população, falar sobre apatia e memória talvez deem conta de capturar o tempo sombrio. É o que faz de O verão tardio (Companhia das Letras, 2019), de Luiz Ruffato, um bom exemplar do que pode a literatura, nos confrontar com nossos próprios fantasmas.

O autor, um dos mais importantes escritores de sua geração desde a publicação do premiado Eles eram muitos cavalos (2001), mantém no novo livro alguns procedimentos estilísticos já conhecidos, porém desta vez embalados por algo que lhe escapa, é externo, mas que parece combinar com o momento do país, com o narrador Oséias e, suponho, com muitos leitores também. Trata-se de uma espécie de desesperança que vaza para a leitura da obra e cujas raízes talvez estejam nos primeiros solavancos de 2013.

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O verão tardio condensa uma série de sentimentos que aparecem espalhados em outros livros dessa safra de um período do Brasil de rumo extremamente perigoso. 2013 não é em vão. Daquele ano em diante, ficou mais evidente a perda em passos largos da nossa capacidade de dialogar, de ouvir o outro e de conviver com a qualquer diferença de classe social, gênero, raça, etnia ou religião. Em um raio de ação adaptado, na narrativa de Ruffato, não ser ouvido também é um ponto de estrangulamento das relações e gerador de apatia. É como se Oséias fosse um cidadão qualquer, com quem cruzamos por aí, ou quem sabe nós mesmos, ora em nossa necessidade de sermos ouvidos ora na nossa inabilidade adquirida para ouvirmos o outro.

A literatura, neste caso, funciona como uma caixa de ressonância e nos arremessa em looping para a pergunta: por que perdemos o que também nos faz humanos, a troca das experiências por meio do diálogo? Ofensas nas redes sociais, bloqueios de Twitter, bate-boca nas sessões de comissões especiais no Congresso Nacional são alguns exemplares disso. Quando não se saber ouvir, perde-se o tom do debate, da argumentação, o caminho até a zona em que opiniões divergentes, mas sensatas movem as engrenagens da democracia.

No romance de Ruffato, o que aparece ao fundo é um país borrado, onde o narrador, representante de vendas de uma empresa de produtos agropecuários no Estado de São Paulo, volta a sua cidade após quase vinte anos afastado atrás de sua própria memória. Em seis dias, como se dividem os capítulos, ele revisita os irmãos Isabela, Rosana, João Lúcio e a memória de Lígia, a irmã de 15 anos que havia se suicidado há quarenta anos. A última vez que Oséias botou os pés na cidade foi antes da morte da mãe, em 1995. Em texto sobre os bastidores da obra, publicado pelo Suplemento Pernambuco, Ruffato conta que é na figura de Lígia que toda a trama nasceu, muitos anos antes do novo livro ser escrito. “Há uma passagem em Eles eram muitos cavalos, uma passagem sutil, quase imperceptível, que, por sua força dramática, me persegue desde sempre (...)Trata-se do fluxo de consciência de um personagem que, a certa altura lembra: “morreu no beira-rio, tiro no ouvido, uma menina, quinze anos, ouviu? É tiro!”, diz o trecho.

Assim, Ruffato admite ter convivido com a sombra dessa primeira remissão à personagem Lígia, que reaparece quase 20 anos depois em O verão tardio e que, em termos narrativos, opera como uma personagem ausente, espécie de Godot, a quem se deve a força-motriz do texto, mas que não está propriamente presente na ficção, a não ser na memória de Oséias. O irmão, um ano mais novo, é quem acende a lembrança da irmã para os demais; Rosana, Isinha e João Lúcio, deixando a sensação de que aquela morte mudaria para sempre os rumos da família, mesmo que o assunto não seja tocado. É que com os anos, Lígia não passa de uma lembrança longínqua, enquanto os outros vivem suas vidas precárias, seja no plano físico, na luta pela sobrevivência da família de Isinha, ou emocional, por meio da medicalização de Oséias ou dos tratamentos estéticos que prometem a juventude eterna de Rosana. De fato, os personagens tocaram suas vidas, porém o núcleo central onde todos gravitavam se desfez, restando a cada um girar em sua própria órbita em uma batalha entre lembrança e esquecimento daquele ano de 1975, governado pelo general Ernesto Geisel.

A partir do narrador, no esforço inútil de aproximação do seu passado, surgem as marcas da autoria repaginadas, desta vez pelo desencantamento não mais anônimo, mas materializado no olhar que Oséias lança a esses personagens; o colega da escola que virou prefeito, paparicado por uma meia dúzia de assessores parlamentares e que ele a todo custo tenta reencontrar, o garoto com tendências violentas que adulto tem um trabalho precário de atendente em uma lanchonete, o professor homossexual que vive isolado... A memória coletiva, acionada pela individual, como defende o sociólogo francês Maurice Halbwachs, é adensada pela escolha sempre presente de personagens de estratos sociais diferentes nos livros de Ruffato.

Entre quem sai e quem fica na cidade, as relações familiares desgastadas pela surdez não calculada fazem as vezes de câmara de ecos dos sentimentos do momento histórico atual. O narrador seria um personagem conhecido de Inferno provisório (2016) ou do próprio Eles eram muitos cavalos (2001), não fosse a envergadura própria que ganha pelo tempo presente. Não à toa, Oséias, homem comum, de origem humilde que migra para São Paulo e é soterrado pelo ambiente, vive a vida em atos repetitivos (muito bem calculados no plano textual de Ruffato), perdido e sem rumo em meio à multidão. Escaparemos quando voltarmos a ouvir: é este um dos principais chamados da literatura.

Edma de Góis, jornalista, doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutoranda em Estudo de Linguagens na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), onde pesquisa as relações entre literatura contemporânea, leitura e curadoria.