O fogo amigo que já atingiu Kim agora alveja Tabata

O humor de apoiadores e de militantes virtuais no Brasil tem se mexido mais do que biruta em dia de ventania

Deputado Kim Kataguiri, durante audiência pública na Câmara.
Deputado Kim Kataguiri, durante audiência pública na Câmara.Vinicius Loures (Câmara dos Deputados)

Mais informações

Há quase dois meses, o Movimento Brasil Livre e seu principal representante da Câmara dos Deputados, Kim Kataguiri (DEM-SP), de 23 anos, eram alvos de fogo amigo. Os eleitores conservadores que o apoiavam e o elegeram teceram duras críticas porque o jovem líder de direita, que ajudou a inflar os protestos contra a gestão Dilma Rousseff (PT), abdicou de apoiar uma manifestação pró-governo Jair Bolsonaro (PSL). Os críticos foram além. Nas redes sociais e nos grupos de WhatsApp, reclamaram de uma foto em que Kataguiri conversava com o deputado federal fluminense Marcelo Freixo, do esquerdista PSOL. Chamaram-no de traidor, comunista e pediram até a cassação de seu mandato. Em uma semana, o líder do MBL perdeu 74.280 seguidores em seus perfis nas redes.

A nova onda de revolta se voltou para outra neófita na política, a deputada Tabata Amaral (PDT-SP), de 25 anos. Identificada como a nova esquerda brasileira e que confrontou um despreparado (ex-) ministro da Educação, Ricardo Vélez, a primeira pedrada que a atingiu foi dada pelo seu próprio partido. O PDT anunciou a abertura de um processo de expulsão contra ela e os outros sete deputados que votaram a favor da reforma previdenciária. Segundo a direção nacional dos pedetistas, eles traíram as orientações partidárias. Seguiu-se, então, uma série de xingamentos em seus perfis. Vários deles, impublicáveis. Nem a justificativa que ela deu em seu Twitter acalmou os ânimos dos haters. O resultado imediato para a parlamentar foi a perda de 28.387 seguidores nos seus perfis. O cálculo dessas baixas nas redes foi feito pela consultoria Bites.

O humor da população em momentos de polarização política parece cada vez mais com uma biruta de aeroporto em dia de ventania. Muda de lado com uma facilidade incrível. Um exemplo dessa volubilidade do Brasil atual ficou claro dentro de uma agência do Instituto Nacional de Seguro Social em Brasília na semana passada. Havia uma enorme fila com 62 beneficiários que aguardavam para serem chamados.

Foram até seis horas de espera para que as pessoas que haviam agendado horário fossem atendidas, o que foi elevando a irritação no local. Uma das inconformadas com a demora era uma senhora de quase 70 anos que foi à agência com a filha e a neta. Primeiro, ela disse que deveria ter participado das manifestações pró-governo que também tinham como pauta a reforma da Previdência. “Se tivesse ido, o atendimento seria melhor. Temos de protestar pelo Bolsonaro e pelo Brasil”, gritou a um público, que em sua maioria a ignorou. Um jovem a alertou. “Mas esse Governo cortou os concursos públicos. Não nos atendem aqui porque não tem servidor. Veja, lá tem 20 mesas de atendimento e só três têm funcionários”.

A mulher resmungou algo incompreensível e se calou. Foi atendida meia hora depois. Não teve seu problema resolvido. Saiu de lá cuspindo ódio e aos berros anunciou: “Mudei de ideia. Eu deveria ter ido no outro protesto, contra o Governo. Aqui ninguém presta. Tomara que esse Governo acabe logo e que todos esses funcionários daqui morram”. Foi aplaudida.