FLIP 2019

Rincon Sapiência: “Entramos tanto na pauta política e social, que esquecemos que é direito nosso ser frágil”

Na Flip, rapper defende diálogo com as periferias como um caminho para a crise na cultura

O rapper Rincon Sapiência.
O rapper Rincon Sapiência.André Santos (Divulgação)

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As rimas sagazes, a mistura do beat com batuque, funk, ciranda e samba e a contestação política são marcas registradas do rap de Rincon Sapiência (nome artístico de Danilo Albert Ambrosio), de 32 anos. Nesta quinta-feira, no entanto, o rapper deixou os versos de lado para dedicar-se a outra de suas coisas favoritas: conversar. Rincon participou de um bate-papo com MC Marechal e Pelé do Manifesto dentro da programação paralela e gratuita da Festa Literária Internacional de Paraty promovida pelo SESC. "Aprendo muito da troca com os outros. Acho muito importante conversar, não só fazer música", diz o rapper em entrevista ao EL PAÍS.

É precisamente na agenda alternativa da Flip 2019 que se encontra mais diversidade, a palavra de ordem da produção do evento, que, apesar das boas intenções e do discurso, ainda tem seu auditório principal lotado por convidados e público maioritariamente branco e maior de 40 anos. "Acho que tem pessoas interessantes de outros recortes que poderiam participar. Pode ser ainda mais plural, ainda mais diversa essa ideia da Flip", avalia Rincon. A chave não só para mudar esse panorama, mas também para enfrentar a crise à que a cultura tem sido submetida —com cortes de orçamento e ameaças sobre a extinção de programas de patrocínio, por exemplo—, de acordo com o rapper, passa por estabelecer um contato "real e profundo" com a periferia.

"Muito do que está acontecendo hoje nas políticas sociais e culturais é por essa falta de contato, tanto na arte quanto na política. Se a conversa com a periferia estivesse mais presente e se fosse mais forte, a população, em geral, não teria caído na situação que caiu", critica o rapper, sem mencionar diretamente o Governo Bolsonaro. "Eu penso em retomar formas de atuar mais na quebrada e de dialogar mais com ela. Buscar só o respaldo intelectual de quem consegue acessar as informações não basta". Até, porque, lembra Rincon, a "quebrada" tem experiência em enfrentar situações de crise.

"Toda música periférica e preta passou por esse processo de perseguição. O samba tem hoje o respeito como patrimônio da música brasileira, mas há anos atrás era hostilizado, a polícia batia nas rodas de samba, o que não é diferente do que acontece no fluxo de São Paulo, nos rolês de funk no Rio, nas festas de brega-funk em Recife ou nas aparelhagens em Belém.

Ele, que nasceu na Cohab I em Itaquera, zona leste de São Paulo e que para o último álbum (Galanga Livre, de 2017) buscou referências da cultura africana, pretende voltar-se agora para a realidade na qual cresceu. "Eu vejo a quebrada curtindo outros rolês, dançando outras coisas, vestindo outras roupas, divertindo-se em outros lugares, onde, muitas vezes, não estou. Então estou tentando, sem desvirtuar meu trabalho, alcançar esses lugares", diz. E quando fala de periferia, ele refere-se a todas as periferias do mundo. Quando fala em periferia, refere-se a todas as periferias do mundo. "Vejo características similares em muitas delas. Todas respiram essa cultura lado B. Vejo o grimme muito parecido com o funk, e o funk muito parecido com o kuduro, o brega-funk muito parecido com o reggaeton e com o dancehall, é tudo muito semelhante. Estou pensando em trabalhar com uma música que consiga atender a todas essas periferias. A ideia é fazer algo menos cabeçudo e ter um papo mais franco, aberto e conectado com meus iguais", explica.

Conhecido por um rap de cunho extremamente político, Rincon Sapiência pretende "desamarrar-se" da atualidade do país para os trabalhos futuros. "Tenho digerido, a cada hora, o cenário atual, em que muita coisa ruim tem acontecido muito rápido, mas não posso abrir mão da minha linha de raciocínio artística. Já venho de um disco em que pautei muitas questões políticas, mas agora estou disposto a traçar novas narrativas na minha música. Estou artisticamente muito livre, porque, se não for assim, perco a instiga de fazer arte".

Para o rapper, a arte também serve para dar voz ao direito de relaxar. "Às vezes nos adentramos tanto na pauta política e social, que esquecemos que é direito nosso ser frágil, não ter que lutar toda hora. É nosso direito amar", lembra.