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“A África é o Vale do Silício do ritmo”

Uma horta, gargalhada de criança e um álbum mantêm o rapper tranquilo e na luta

Emicida no escritório da sua gravadora, a Laboratório Fantasma, na zona norte de São Paulo. Ampliar foto
Emicida no escritório da sua gravadora, a Laboratório Fantasma, na zona norte de São Paulo.

Um jovem rapper dando seus primeiros passos mercado fonográfico adentro chega a uma das casas de alto padrão da região de Pinheiros, em São Paulo. Vai gravar em um estúdio, mas não sabe o que esperar daquele ambiente que nada tem a ver com o metrô Santa Cruz, onde ele disputava batalhas de rima. Acanhado, logo se dá conta que é o único negro do lugar e se fecha mais. A missão é gravar o mais rápido possível e voltar para a quebrada, onde negro faz música sem precisar mandar nela. “Mano, passou de um determinado ponto, os preto não estão mais na cidade”, diz Emicida, recordando a experiência que escancarou aos seus olhos, aos 19 anos, o mapa social da cidade, que ele só passou a entender quando o rap lhe permitiu cruzar as fronteiras. “Tava feito um bichinho, de canto”.

Hoje, com 30 anos recém-completos e colocando na rua um novíssimo álbum cuja grande ambição é reconectar o Brasil com sua ancestralidade africana, o bichinho virou homem – músico completo que experimenta sem abandonar o rap, nem a quebrada, e que aprendeu a fazer das viagens ao Alto de Pinheiros e ao resto do mundo uma fonte inesgotável de ideias para cantar, com verdade e poesia, a vida como ela é. Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, o segundo disco oficial de Emicida, comemora uma década de carreira em que Leandro Roque de Oliveira se tornou um dos maiores nomes do rap no Brasil. Com faixas como Boa Esperança, pé-na-porta do racismo que chega com a escravidão e persiste até hoje (como mostra seu belo clipe, retrato contemporâneo de uma revolução de empregados domésticos), e Passarinhos, um reggae rapeado feito em parceria com Vanessa da Mata, de melodia doce e mensagem social, o disco é reflexão em alta voltagem.

“Não tenho mais essa expectativa de ser um Superhomem, de ser o Messias”, diz Emicida, citando Nelson Mandela para defender quem luta depondo as armas e abrindo caminho pelo diálogo. Com as respostas na ponta da língua, o rapper que faz questão de falar bonito (sem cortar as gírias que são a marca da periferia) está dando corda para os sonhos. Tranquilão, deixa escapar o sorriso de quando era moleque quando se vê desarmado e quer mais é saber da horta que planta em casa, da gargalhada da filha de cinco anos e de livros, muitos livros. Mas que não se confundam os que confundem sonho com alienação: “Pra esses bunda mole aí, que acha que nós dormindo, um aviso: não é porque nós sonhando que nós dormindo, viu?”, alerta o pai da Estela.

Pergunta. Que balanço você faz de uma década de carreira?

Resposta. Estourei no norte, né? bacana, se for ver. Eu tinha uma expectativa muito baixa. Fazia música por hobby. Faço rap vindo de uma geração que não ansiava se tornar tão popular. Por um lado, é triste o quão distante isso estava da nossa realidade. Por outro lado, acho foda, isso preparou a gente para fazer umas reflexões que em geral os artistas que já anseiam a fama pela imagem não se preocupam tanto. O hip hop preparou a gente para se preocupar mais com o nosso discurso. Eu tenho orgulho da cor da minha pele, do meu cabelo crespo, porque em 93 eu escutei os Racionais, sabe? Tinha isso como uma missão, de tocar essa molecada de outra geração e compartilhar toda aquela autoestima que me fizeram ter e que me fez conhecer o mundo. O balanço é esse.

P. Mas junto com essa história veio também trabalho e sucesso.

R. Claro, fico muito feliz com tudo isso. Mas para mim nada é mais mágico do que ver os moleque entrando na faculdade e me mandando carta. Tem um livro que fala que você tem que guardar seus aplausos numa gaveta. Eu recebo essas mensagens e guardo lá, na gaveta. Cada vez que eu acredito que o mundo está para acabar, eu abro. É mágico você estar em tanta oração diferente. É importante para o ser humano fazer alguma coisa em que está apontando um caminho bacana para uma pessoa. Não no sentido de colonizar, de forçá-la a concordar comigo, mas de sugestão. Dizem que eu repito muito essa palavra, “sugestão”, mas eu acho que a coisa mais forte que a gente pode fazer, a mais importante, é isso aí, sugerir. Se você vai fazer ou não... Já fui muito radical nas minhas posições. E agora eu acredito que só falo livremente sobre elas.

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P. O que fez você mudar?

R. Conheci mais coisas. Saí do meu bairro, vi mais gente, mais ideias, conheci o mundo, viajei. Antes eu era um moleque de 19 anos, há 10 anos, que mal tinha saído do seu bairro. Estava indo para um estúdio no Alto de Pinheiros e bati uma sujeira, porque foi a primeira vez que eu cheguei num lugar, com exceção de alguns lugares onde eu tinha trabalhado, em que todo mundo era branco. Tipo, pensando, “mano, passou de um determinado ponto, os preto não estão mais na cidade”. Eu estava lá no Alto de Pinheiros, numa casa bacana, falando de música, só que na parte técnica, já não tinha nenhum preto, ligado? Os pretos estavam fazendo música, mas os caras que cuidavam do bagulho não eram eles. Isso acontece até hoje, e eu vinha desse universo, feito um bichinho grilo mesmo, de canto. De repente, eu comecei a girar, a conhecer o mundo, a conhecer pessoas e ler. Sempre fui um cara que buscou um milhão de referências. Eu lia quadrinho japonês pra caralho. Eu tinha esse bagulho de ir me apropriando de uma série de culturas, era um cara nerd na favela, sabe? Trampava de pedreiro para comprar quadrinhos. Era aquilo que me fortalecia. Aquilo me fez músico, me fez chegar nos livros.

P. Você se sente um veterano hoje em relação ao pessoal que está começando no rap?

R. Não. A minha competição é com eles. Eu tenho que provar para mim todos os dias que eu ainda estou jovem.

P. Sem dúvida, você ainda está jovem.

R. Estou jovem, mas quando passa um tempo desses... Se você for pegar o primeiro dia que eu fui a uma batalha, há uns 15 anos. Que eu fui mesmo para um evento de rap, até começar a fazer música sério, e aquela parada começar a virar, parece que é tempo pra caramba. A meninada que chegou hoje é completamente diferente. Dois anos para eles é muito tempo. Para mim, não é nada. É a concepção imediatista de quem faz música hoje. “Nossa, a gente lançou um clipe e não está virando... Só tem 2.000 views”. Sabe quando 2.000 pessoas ouviam a minha música em 2005? Nunca.

P. A internet fez isso com as pessoas?

R. Sim. Quando o Nelson Mandela foi para a cadeia, a maneira que ele achou de manter a sanidade foi plantar uma horta. E tem uma coisa muito bonita ali que é o seguinte: quando você começa a dar atenção para as plantas de novo, você começa a respeitar o tempo. Porque embora tenha e-mail, bluetooth e wi-fi, e embora a gente compartilhe muito mais informação por muito mais redes, se você colocar uma semente na terra e regar, o tempo é o mesmo. Entendeu? Eu comecei a entrar nessa mesma reflexão e plantar parte da minha comida. Meus alfaces, meus morangos... Essas ferramentas que a gente usa são foda, mas precisa de uma educação para saber usar, que a gente não recebeu. Vi uma pesquisa que diz que quando você recebe um curtir, ele libera o mesmo efeito no cérebro que quando você fuma um cigarro. É a mesma substância: dopamina. Você recebe aquele prazer instantâneo. Todo mundo se move por isso, mas virou uma frustração muito grande também. Porque parece que a vida de todo mundo está acontecendo, menos a sua. Mas fica calmo, o tempo é o mesmo. Vencedor é o que consegue tapar os barulhos de fora e ouvir os barulhos de dentro, em todos os tempos, entendeu? Se vai ver, toda aquela maré de informação, você vai ter que se agarrar num galhinho fininho, que parece que não dá sustentação nenhuma, mas é a única coisa que você tem, e é bom que você se agarre naquilo. E a partir dali vai entender o mundo da sua maneira. Eu penso isso. Ansiedade é bom, mas se passar do limite, é só uma porta de entrada gigante para frustração, porque nada acontece no tempo que você queria.

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P. Para o Antonio Abujamra, no programa Provocações, você disse que viver é voltar para um momento bacana e passar a vida inteira correndo atrás dele. Que momento é esse para você?

R. É a gargalhada da minha filha. Tem uma coisa do rap, da cultura hip hop em geral, que é a obrigação de ser invulnerável. A Beyoncé tem que ser a Mulher Maravilha. Sabe essa coisa de força mesmo, que os preto têm que se mostrar forte? Só que isso também gera uma coisa... Desde pequeno a gente ouve na nossa casa: “Você vai ter que fazer o dobro para ser reconhecido pela metade”, porque o barato vai ser louco quando você chegar lá no asfalto. A gente cresce com isso. Só que, quando você consegue fazer o dobro, ok, teoricamente você passou uma linha. Agora, quando você não consegue, e não conseguir é muito comum, a sua frustração também é dobrada. Dar o seu melhor e não receber o que você considerava adequado é horrível. Acho que tem uma coisa saudável, que é se mostrar vulnerável, baixar a guarda. Chorar também, em alguns momentos. Saber que você é um ser humano. Não tenho mais essa expectativa de ser um Superhomem, de ser o Messias. Quando eu cheguei aqui, no começo, eu achava que era a verdade absoluta. Lógico! Eu convivia com meia dúzia de pessoas que concordavam comigo... Quando eu fui para o conflito, saí dessa bolha, comecei a ver o outro lado da moeda também, conversando, com força para falar e para ouvir. Aí já era uma coisa minha se eu ia refletir ou achar que era a verdade na terra. Optei por baixar a guarda. Cuido das minhas plantinhas, planto meus alfaces, quero ver minha filha dar risada. Porque, no final das contas, é o que vai ficar. Você viver com uma criança lava seus olhos. Você vê o mundo de verdade.

Você viver com uma criança lava seus olhos. Você vê o mundo de verdade"

P. Seu novo álbum é fruto de uma viagem a Cabo Verde e Angola e nasceu em solo africano. O que deu em você para ir agora, neste momento, à África?

R. Rolou! Era um sonho antigo. A gente é muito romântico nesse negócio de falar da África, tipo “ai, que vontade que eu tenho de conhecer minhas raízes”, porque nossas raízes foram cortadas aqui no Brasil. A gente abraça o continente inteiro, porque é a única maneira da gente abraçar nossa origem. Não dá para falar “eu tenho uma origem senegalesa, angolana”... É muito difícil saber disso. Chegando lá, a gente tem uma expectativa tipo “meu Deus do céu, os caras vão olhar pra gente e dizer ‘vocês voltaram!’” [risos], mas não é essa parada também... Passaram-se mais de cinco séculos. Eu tinha o desejo de ir lá me conectar com essa coisa ancestral, que é muito forte. O hip hop é fruto disso. A nossa contação de história é fruto disso.

P. No disco, você continua investindo forte nas colaborações. Tem Vanessa da Mata, Caetano Veloso... Por que já experimentou tanto nesse sentido?

R. Na minha cabeça, nós só estamos fazendo música. Acho que a gente não pode entrar nessa reflexão: “Esse canta funk, esse samba, esse é frentista, esse cantor...”. Não quero pensar música desse jeito. Quem faz isso é o mercado. Procura rótulo para colocar numa determinada prateleira. Eu estou pouco me fodendo se o Guimê faz funk ou se ele acha que faz samba ou o que for. Respeito a arte dele e acho que tem verdade naquilo. Quero trazer ele aqui para perto, se ele também se identificar comigo. A gente faz essas fusões, porque a gente tem um país que é plural pra caramba na vida real, mas quando vai pros meio de comunicação, ele vira uma coisa só. A [escritora] Chimamanda Adichie fala disso, que é muito perigoso você ser refém de uma história única. As pessoas vão criando uma história única sobre o outro, e de repente você vê que aquilo é um estereótipo horrível. Quando eu chego num lugar, e as pessoas dizem “ô, lê!” [risos], eu e meu parceiro Renan zoamos... “Nos dia bom, nóiz até escreve!”. As pessoas constroem uma ideia, e eu evito entrar nesse tema com profundidade para não constranger – o quão primitiva é a visão deles sobre nós. Mas eu faço questão de enfatizar, tipo: “Sua cabeça está em 1800, e lá em 1800 vocês já estavam errados”.

P. Com quem você ainda não gravou, mas gostaria de gravar?

R. Djavan. Eu queria ter gravado com o Djavan nesse disco, mas estavam corridas as coisas. Acho que quando eu fizer uma música com ele, tem que ser com calma. Com todos os artistas que amo eu gostaria de fazer música. Chico Buarque. Caras com quem eu cresci, com a minha mãe escutando. Acho que ela ia ficar orgulhosa.

P. Existe uma visão comum, quanto mais a pessoa está distante do rap, mais ela acha que é um estilo de música que serve para reclamar, falar de problemas, como faz a faixa Boa Esperança. O que você acha disso?

R. Quanto mais a pessoa está distante da rua, da favela, dos preto e dos frutos disso, que é o rap, que é o funk... É o perigo da história única. É a pessoa que consumiu uma história criada por um tipo de pessoa, e partir daquilo ali, ela saiu reproduzindo aquilo. Então ela acha que na África as pessoas têm uma saia de onça e um ossinho preso no cabelo crespo. Não sabe que é um continente rico pra caralho, que tem rico, pobre, reis, rainhas. Em alguns lugares, uma puta estrutura. Em outros, uma pá de buracos também, que nem no Brasil, sabe?

P. Nesse novo disco, você faz música mais leve também, como Passarinhos, e não só “rap para reclamar”.

R. Queria muito fugir do estereótipo, do óbvio. As pessoas atribuem à África uma imagem arcaica, e eu queria muito desenhar uma África futurista, que faz justiça a isso, sim. Tem um físico que fala uma parada interessante, Neil deGrasse. Ele diz que os mais céticos do mundo são os cientistas, que querem uma prova cabal de que Deus existe. Não acreditam no sobrenatural, nos alienígenas, mas a partir do momento que você fala que as pirâmides foram feitas no continente africano e que aquilo é um feito de engenharia que antecede qualquer lampejo de grandeza da Europa, a justificativa deles é “não, isso aí é coisa dos alienígenas, dos fantasmas, de Deus”. Essa é a força do racismo, sabe? Você recorre a algo que não acredita só para não reconhecer que uma outra etnia tem capacidade de ser inteligente e de construir uma coisa que você não tem. As pirâmides são isso. Até hoje, a gente tem que falar que elas são um feito maravilhoso da engenharia e que estão no continente africano.

Essa é a força do racismo, sabe? Você recorre a algo que não acredita só para não reconhecer que uma outra etnia tem capacidade de ser inteligente e de construir uma coisa que você não tem"

P. E com a sonoridade do disco, você quis construir essas ideias.

R. Quis muito mais desconstruir. Porque as pessoas olham para o hip hop e não ligam ele à África, mas pensam nos Estados Unidos, no Jay Z. Mas aquilo é um fruto da diáspora também. Veio da Jamaica, com os Toasters, foi parar em Nova York, e os americanos usaram aquilo, fundiu com o mercado e virou uma parada fantástica. O tambor e a contação de história: a base desse disco foi isso. O rap é ritmo e poesia. A África é o Vale do Silício do ritmo. E a poesia também. Quando você vai para lá, encontra um continente que tem isso ainda na oralidade. Criou-se essa ideia de que a África é um lugar que precisa ser salvo. E o disco vai na contramão disso. A África não precisa ser salva, os preto não precisam ser salvos. Precisam, sim, que as barreiras em volta deles sejam derrubadas para que vejam com os olhos limpos quem eles são. Que tenham oportunidades de florescer como qualquer um.

P. Na Virada Cultural, você falou sobre redução da maioridade penal e outros temas em pauta nesse momento de conservadorismo em alta no país. O que acontece, a seu ver?

R. Você tem umas construções que forçam as pessoas a tomar decisão pelo pior dos caminhos. Você tem os meios de comunicação – Datena, Rezende – vendendo medo pra caralho, a total falência do sistema de segurança – que é falido mesmo, mas por outros motivos, que não os moleques. Aí você tem o jornalismo, em grande escala, vendendo uma crise que existe, realmente, mas demonizando mil vezes mais, fazendo com que o Brasil se odeie. Você tem o Congresso, que é o pior dos últimos tempos. A gente está falando de redução de maioridade penal num campo em que as pessoas têm cometido um erro delicadíssimo, que é confundir o ódio pelo PT com amor ao Brasil. Nesse buraco aí, não vai dar nada que preste. Você tem esse abismo social que a gente já vivia antes do PT entrar no poder, entendeu? Aí vem uma solução de imediatismo: “vamos reduzir a maioridade penal”. A cadeia do Brasil não funciona para os adultos. E aí, quase que emendado, você coloca em pauta a conversa sobre a privatização das cadeias. E ninguém vê nada! Ninguém associa nada. Cadeia cheia dá dinheiro e vira um negócio.

P. Você se refere ao impeachment de Dilma Rousseff também? Acha que ele vai acontecer, como a mídia em parte vende?

R. Vira uma coisa de insegurança, né, tipo “já não tenho certeza”. Eu não leio jornal, então o mundo é melhor para mim. Teve uma época que eu estava lendo demais e ficando triste. Não sei falar sobre essa estrutura do impeachment, da outra vez que aconteceu eu era muito pequeno. Agora, eu posso falar de golpe. Eu achava que a redução da maioridade penal tinha sido rejeitada, e no dia seguinte o Eduardo Cunha aprovou, então a gente está vendo um golpe. Agora eu quero ver, dentro dessa realidade aí, como a coisa vai acontecer. Eu acho que clima para golpe tem.

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