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Entenda que já não resta nada. Só um ódio que não é culpa de ninguém

Depois de tantos dias cinzentos, da angústia se retorcendo sobre o piso como um morcego mutilado, sinta crescer dentro de você um rizoma de alegria

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Desperte. Depois de tantos dias cinzentos, da angústia se retorcendo sobre o piso como um morcego mutilado, sinta crescer dentro de você um rizoma de alegria, como se uma caverna de paredes cinzentas deixasse a descoberto um resplandecente tecido de fios de seda. A casa está sozinha. Diga a você mesma que trabalhará pela manhã e, depois, cozinhará algo surpreendente. Trabalhe, faça compras, cozinhe sem se fazer perguntas. Sinta que toda a bruma se dissolveu. Avance até o final do dia surpresa por como afinal é fácil deixar atrás a indiferença soterrada. Ponha a mesa. Contemple tudo como se acabasse de declarar a paz. Então, sinta o primeiro ponto de alarme. Pense: “Não pode ser tão fácil”. Diga-se que pôr um vestido a ajudará a reviver o entusiasmo agonizante. Ponha-o. Enquanto se contempla no espelho, sinta uma pontada de desânimo, como se tivesse começado a desmontar um castelo de cartas. Ouça o ruído da porta. Caminhe até lá. Veja como ele entra em casa com a expressão de sempre. Diga-lhe: “Oi, amor, fiz ossobuco ao vinho tinto”. Ouça como ele diz: “Que delícia”. Sirva os pratos, sente-se à mesa. Quando ele a olha, não diz “Faz tempo que você não põe esse vestido”, nem “Como você está linda”, mas sim “E esse vestido?”, com uma entonação que soa a “O que você vestiu?”, e que a faz se sentir humilhada e ridícula. Diga: “Faz um tempão que não visto isso. Você gosta?”. Ele diz: “Gosto. Mas você vai se manchar”. Sinta uma irritação palpitante, descontrolada. Diga: “Tem razão. Vou me trocar. Pode ir comendo”. Escute como ele diz: “Tá bom”. No dia seguinte, ao se despedir quando sai para o trabalho, ele lhe dá um beijo na bochecha. Veja como, imediatamente, se corrige e tenta beijá-la na boca. Esquive-o com um sorriso tímido. Entenda que já não resta nada. Só um ódio que não é culpa de ninguém.

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