José Padilha: “Não me arrependo da forma como retratei Sérgio Moro”

Diretor de 'O Mecanismo' fala sobre a segunda temporada: "Quando a torcida do Flamengo aplaudia os pênaltis defendidos pelo goleiro Bruno, ela estava aplaudindo um sujeito condenado por assassinato?"

O cineasta José Padilha.
O cineasta José Padilha.Jaimie Trueblood (Netflix/Divulgação)

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O cineasta José Padilha escreveu em artigo publicado em abril em que admite que avaliou mal o personagem Sérgio Moro, o juiz responsável pela Operação Jato durante quatro anos. Para o diretor da série O Mecanismo, o pacote anticorrupção do hoje ministro da Justiça do Governo Jair Bolsonaro seria um "pacote pró-máfia", por beneficiar milícias. Desde a publicação do artigo, Padilha, que promove a segunda temporada do seriado inspirado na Lava Jato, não perde oportunidade de criticar o homem que ele já elogiou como um "samurai ronin", mas ressalva, na entrevista por e-mail que segue, que não se arrepende da forma como retratou Moro na série. "Quando a torcida do Flamengo aplaudia os pênaltis defendidos pelo goleiro Bruno, ela estava aplaudindo um sujeito condenado por assassinato?"

Pergunta. Quais são as principais novidades desta segunda temporada?

Resposta. Não quero ser um spoiler da minha própria série, mas diria que a dramaturgia está superior à da primeira temporada. Acho que a abertura em si já vale uma conferida. É a abertura que tínhamos feito para a primeira temporada, mas que não usamos por considerações jurídicas [em referência à compra de direitos para usar imagens reais]. Mas com o avanço da Lava Jato, estas considerações se tornaram menos relevantes. Ressalto ainda o personagem Ricardo Brecht [o correspondente ao empresário Marcelo Odebrecht].

P. O que você quer transmitir para o público brasileiro com essa série? E para o público internacional?

R. A série é inspirada em acontecimentos históricos, e interpreta esses acontecimentos à luz do conceito de mecanismo, que eu já tinha desenvolvido em uma série de artigos de jornal. Basicamente, defendo a tese de que o funcionamento democrático brasileiro, desde a sua origem com [José] Sarney e depois [o hoje senador Fernando] Collor, pressupõe a corrupção, a troca de quinhões de recursos públicos por recursos de campanha, e o enriquecimento ilícito de grandes fornecedores do governo, empreiteiras e grandes bancos comerciais, e de políticos de PMDB, PSDB e PT. Ou seja: a tese de que a nossa roubalheira é sistêmica, acontece a despeito do partido que toma o poder, e não tem ideologia. Acontece na esquerda e na direita.

P. Quais são as dificuldades de se trabalhar com um caso judicial que está aberto e com tantos efeitos na política e nos negócios no Brasil, no Peru e em outros países?

R. A Lava Jato vai ficar aberta por muito tempo. Sobretudo os casos brasileiros que foram parar no STF [Supremo Tribunal Federal], a corte mais lenta do mundo para julgar políticos e pessoas com foro privilegiado acusadas de corrupção… De modo que não havia a possibilidade de esperar a conclusão das investigações. Dito isso, nos baseamos em livro já publicado.

P. O seu jeito de retratar o caso Lava Jato mudou desde a primeira temporada?

R. Não. O que mudou foi o período retratado. As posições que a série toma, quando toma, estão de acordo com os artigos que escrevi ao longo deste tempo. Sempre defendi, por exemplo, a punição da liderança de PT e PMDB, que obviamente formaram uma quadrilha com grandes empreiteiros. Ao mesmo tempo, sempre disse que o impedimento de Dilma foi um golpe… e por ai vai. Quem leu meus artigos vai ver que não há mudança de posição.

P. Você se arrepende de como retratou o juiz Sérgio Moro na primeira temporada ou sua decepção com ele está limitada ao seu escasso interesse em perseguir as milícias?

R. Quando a torcida do Flamengo aplaudia os pênaltis defendidos pelo goleiro Bruno, ela estava aplaudindo um sujeito condenado por assassinato? Certamente que não, posto que o crime ainda não tinha acontecido. Estamos retratando Moro no período em que a serie aborda as atividades de Moro. Durante a Lava Jato, Moro não trabalhava para o governo de Bolsonaro. Outro exemplo: quem votou no Lula sindicalista votou no sujeito que governou com Temer e participou do mensalão e do petrolão? Certamente que não. Lula ainda não havia cometido crimes àquela altura. De modo que não me arrependo da forma como retratei Moro. Moro foi retratado de forma fiel ao que Moro fez na época em que foi retratado.