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Battisti admite participação em assassinatos, mas se recusa a delatar

"Por anos denunciei a proteção dada ao terrorista", celebrou Bolsonaro no Twitter

Cessar Battisti, no aeroporto de Ciampino, em janeiro.
Cessar Battisti, no aeroporto de Ciampino, em janeiro. AFP

O ex-terrorista italiano de extrema esquerda Cesare Battisti, que em janeiro foi extraditado da Bolívia após 37 anos como fugitivo, boa parte deles no Brasil, confessou pela primeira vez perante a Justiça ter sido o responsável por quatro homicídios, cometidos na década de 1970, pelos quais foi condenado in absentia à prisão perpétua. Até o fim de semana passado, ele sempre havia declarado que não matara ninguém, reconhecendo apenas sua participação na luta armada e em alguns roubos. Agora, interrogado pelo promotor antiterrorismo Alberto Nobili, admitiu ter participado de dois homicídios como executor e em outros dois como mandante, além de ter deixado três feridos graves.

O procurador-chefe de Milão, Francesco Greco, mencionou em entrevista coletiva uma das confissões expressas feitas pelo ex-integrante do grupo terrorista Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), uma ala das Brigadas Vermelhas: “Percebo o mal que fiz e peço perdão aos familiares das vítimas”, disse, segundo Greco. O procurador afirmou ainda que “com esta admissão ele esclarece tantas polêmicas, presta homenagem às forças da ordem e à magistratura de Milão e reconhece ter agido de maneira brutal”. Nobili informou que, apesar da confissão, Battisti se negou a colaborar com a Justiça e a dar os nomes de outras pessoas que participaram dos delitos, por isso tecnicamente “não pode ser considerado um delator”.

Para os familiares das vítimas, como Maurizio Campagna, irmão de Andrea Campagna, motorista da polícia assassinado em 1979 aos 24 anos, e Adriano Sabbadin, filho de Lino Sabbadin, açougueiro de extrema direita morto em seu açougue no mesmo ano, a confissão de Battisti é apenas uma estratagema para obter benefícios penitenciários e uma redução na pena.

Battisti nunca viveu escondido. Abrigou-se na França em 1990, onde viveu por 10 anos como refugiado político graças a uma lei do Governo de François Mitterrand que concedia esse benefício a ex-terroristas de esquerda que tivessem renunciado às armas. Em 2004 fugiu para o Brasil, onde foi detido pela primeira vez em 2007. Naquele momento, o presidente Luis Inácio Lula da Silva lhe garantiu o status de refugiado político, e em 2010, no último dia de seu segundo mandato, rejeitou sua extradição para a Itália. Durante o Governo de Michel Temer, sua situação começou a se complicar. O então presidente brasileiro revogou a decisão anterior e, em dezembro passado, assinou um decreto que permitia sua detenção e extradição, a pedido da procuradora-geral Raquel Dodge. Então Battisti fugiu para a Bolívia, onde foi detido, e solicitou asilo através de uma carta em que se declarava inocente dos homicídios pelos quais foi condenado.

Sua entrega à Itália foi o ápice de um longo e complexo trabalho da Justiça e da diplomacia, mas, durante a última campanha eleitoral, o agora presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, começou a utilizar a extradição como um aceno diplomático ao seu aliado ideológico Matteo Salvini, o poderoso vice-premiê da Itália, que tinha pedido publicamente a entrega do ex-terrorista ao seu país. O caso serviu ao brasileiro para estreitar os laços com a Itália e em particular para reforçar sua sintonia com Salvini. Quando Battisti voltou a pisar em solo italiano, quase quatro décadas depois de ser condenado, os dois trocaram felicitações e cumprimentos pelo Twitter.

Nesta segunda-feira, Bolsonaro voltou a abordar o assunto na rede social: "Battisti, 'herói' da esquerda, que vivia colônia de férias no Brasil proporcionada e apoiada pelo governo do PT e suas linhas auxiliares (PSOL, PCdoB, MST), confessou pela 1ª vez participação em 4 assassinatos quando integrou o grupo terrorista Proletários Armados pelo Comunismo. Por anos denunciei a proteção dada ao terrorista, aqui tratado como exilado político. Nas eleições, firmei o compromisso de mandá-lo de volta à Itália para que pagasse por seus crimes. A nova posição do Brasil é um recado ao mundo: não seremos mais o paraíso de bandidos!"

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