Greve de mulheres na redação do EL PAÍS

As jornalistas da redação do Brasil se somam à paralisação das mulheres do EL PAÍS da Espanha num ato solidário a todas as brasileiras que precisam se sentir reconhecidas em suas diferenças por viver a condição feminina

Parte da equipe feminina que forma o EL PAÍS Brasil, na redação em São Paulo.
Parte da equipe feminina que forma o EL PAÍS Brasil, na redação em São Paulo.

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As mulheres da redação do EL PAÍS pelo mundo cruzam os braços neste dia 8 de março. A iniciativa surgiu na Espanha, onde coletivos feministas incentivam uma greve geral de mulheres no país todo, a exemplo do que aconteceu no ano passado, quando as ruas foram tomadas por espanholas. Motivos para a paralisação não faltam. Assédio moral, sexual, feminicídios, diferenças salariais nas empresas, desestímulo à maternidade, ao mesmo tempo em que se inibe o debate sobre o aborto.

Pelo segundo ano, as redações do Brasil e do México se juntam à mesma iniciativa. O jornal continua, tocado pelos jornalistas homens, que assumem sozinhos a tarefa de colocar as notícias no ar. Paramos neste dia 8 em solidariedade à proposta de nossas colegas que também é nossa, ainda que com adaptações. Aqui no Brasil, somos uma redação chefiada por quatro mulheres e fortalecemos uma das bandeiras do jornal, que é exatamente a valorização feminina na sociedade. Ainda falta muito para sermos um espelho do país. Só temos uma jornalista negra em nossa redação, Regiane Oliveira, um quadro que um dia esperamos ver mudar com mais candidatas negras.

Mulheres na redação de Madri.
Mulheres na redação de Madri.

Hoje, porém, o time de mulheres do EL PAÍS Brasil decidiu se solidarizar com todas as brasileiras que precisam se sentir reconhecidas em suas diferenças por viver a condição feminina. Há diferença sim e os dados do IBGE estão aí para mostrar como o Brasil paga menos para mulheres brancas e ainda menos para mulheres negras. O ódio misógino tira vidas femininas todos os dias, e quem sobrevive tem as marcas tatuadas, como contou a paisagista Elaine Caparroz à jornalista Patricia Zaidan, que colabora nesta edição especial do dia 8. Mulheres correm risco desde a mais tenra idade. Basta ver os dados levantados pela GloboNews no final de fevereiro. Em São Paulo, 42% das vítimas de estupro tinham entre zero e 11 anos. Outras 24% tinham entre 12 e 17 anos.

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Nos empenhamos desde o início deste jornal a falar do assunto com a gravidade que merece. Do estupro nosso de cada dia, das campanhas de coletivos feministas, dos eventos sobre mulheres e para mulheres, independentemente das bandeiras políticas, como o encontro das candidatas a vice-presidência em 2018. Buscamos vozes diversas que ressaltem o quanto é importante focar nas mudanças que o mundo exige para acolher mais quem se identifica como mulher. Não se trata de colaborar com discursos maniqueístas. Há mulheres machistas e homens feministas, ainda que em muito menor proporção.

Sou diretora desta unidade desde o ano passado. Avancei na carreira pela sorte de ter esbarrado em empresas e chefias que falavam mais com mulheres – O EL PAÍS em Madri é dirigido por Soledad Gallego-Díaz, nomeada depois do 8 de março de 2018 –. Mas tenho as mesmas cicatrizes de milhões de mulheres no mundo. Já fui demitida em licença maternidade em outra redação de grande porte. Já fui abusada sexualmente quando criança. Agredida fisicamente na vida adulta. Nestes dois últimos casos, mulheres me desestimularam a denunciar os algozes. À época, não alcançava que era possível ser diferente.

As mulheres da redação do México.
As mulheres da redação do México.

O tempo passou e a primavera feminista nos ajudou a enxergar que podemos ser diferentes e que não devemos nos calar diante de abusos. Mas o desestímulo é diário. Ainda há redações no Brasil onde mulheres não se sentem à vontade para ter filhos com medo de serem demitidas. Marchas femininas são ridicularizadas por outras mulheres – no ano passado, até a advogada Rosangela Moro, casada com o atual ministro Sergio Moro, ajudou a partilhar imagens que distorceram a realidade da marcha do #EleNão. Há muitas armadilhas da cultura machista que precisam ser desconstruídas para que o barco avance. E muito tempo pela frente para tirar as amarras. Somos uma gota no oceano, uma pequena brisa. Se ajudarmos a inspirar é vitória. Um dia a maré muda para que o mundo respire melhor.

Mulheres na redação de Barcelona.
Mulheres na redação de Barcelona.