Wolfram Eilenberger: “É perigoso achar que a filosofia ajuda a conseguir a felicidade”

Em seu novo ensaio, lançado há pouco no Brasil, o escritor alemão entrelaça as obras de Benjamin, Wittgenstein, Heidegger e Cassirer

Eilenberger, em fevereiro passado, em Madri.
Eilenberger, em fevereiro passado, em Madri.SAMUEL SÁNCHEZ

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Como num desses romances em que todas as peças se encaixam, o ensaio Tempo de Mágicos, lançado há pouco no Brasil pela editora Todavia, situa as vidas cruzadas de quatro pensadores (Walter Benjamin, Ernst Cassirer, Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein) na deslumbrante constelação da Alemanha dos anos vinte. Ou seja, e segundo afirma o subtítulo, a grande década da filosofia, tempo que vai da proclamação em 1919 da República de Weimar até a crise de 1929. Ou, quanto à produção teórica, do Tratado Lógico-Filosófico, de Wittgenstein, até A Filosofia das Formas Simbólicas, de Cassirer.

O autor, Wolfram Eilenberger, de 46 anos, escolheu seus personagens pela vigência de seu pensamento, além de sua centralidade na história do século XX. “A filosofia contemporânea tem suas raízes naquela época”, explicou Eilenberger, recentemente, na sede da editora Taurus, em Madri, numa entrevista realizada em inglês com toques do espanhol que ele aprendeu enquanto morava em Jerez de la Frontera (Espanha). “Os quatro são os pais fundadores das escolas que ainda dominam a discussão: Heidegger, do existencialismo, da hermenêutica e da desconstrução; Benjamin, da teoria crítica e da Escola de Frankfurt; Wittgenstein, da filosofia analítica; e acredito que os estudos culturais não seriam os mesmos sem Cassirer”, afirma.

Na escolha do marco temporal, ele também levou em conta o presente. “Os anos vinte parecem com a nossa época na medida em que foram tempos acelerados, nos quais explodiu o mercado dos meios de comunicação, o que, somado ao descrédito das instituições, gerou um monte disso que agora chamaríamos de fake news", recorda o autor. “A globalização se intensificou, e as democracias cederam ante a investida das ameaças extremistas. Embora a cena se pareça bastante com a atual, eu me nego a estabelecer um paralelismo com o que veio depois. Isso cria uma expectativa, uma relação vinculante que implica o fascismo e a destruição da Europa. Aquilo aconteceu, mas não tinha por que ter acontecido. Proponho pensar nos anos vinte como quem se injeta uma vacina.”

A história de Tempo de Mágicos começa, na verdade, pelo final. Em Cambridge, em junho de 1929, com “aquela que talvez tenha sido a prova de doutorado mais peculiar da história”. Fazia 10 anos que Wittgenstein havia terminado o seu Tratado, que fez dele um pensador tão hermético quanto influente, mas que carecia do título necessário para poder trabalhar (apesar de tratar de sistemas de pensamentos abstratos, o livro não economiza no relato prosaico das privações que afligiram seus criadores). Aquele ano foi também o da “disputa de Davos” entre Cassirer (o judeu que acreditava no poder igualitário dos símbolos) e Heidegger (o antissemita e autor, dois anos antes, de Ser e Tempo). Aqueles eram dias em que a estação suíça de esqui não servia de ponto de reunião para os poderosos do mundo; em vez disso, abrigava seminários que reformulavam a pergunta kantiana “que é o homem?” à luz de Darwin e das teorias de Einstein. O encontro serviu para que ambos os pensadores se enfrentassem, assim como para certificar a crise da filosofia acadêmica e o desmembramento da consciência moderna e do sentido do tempo.

A partir da esquerda, Wittgenstein, Cassirer, Heidegger e Benjamin, vistos por Sciammarella.
A partir da esquerda, Wittgenstein, Cassirer, Heidegger e Benjamin, vistos por Sciammarella.

Eilenberger entrelaça relato vital e história das ideias com admirável fôlego narrativo, sem cair no biografismo, mastigando para o leitor pouco treinado algumas das cúpulas mais temíveis da filosofia do século XX. Ao mesmo tempo, outorga a cada um dos protagonistas sua dose justa de construção mítica: lá está Walter Benjamin, dotado de um extraordinário talento para tomar sempre as decisões vitais equivocadas (“Era uma Weimar de um homem só”); Wittgenstein, filhote da Viena mais abastada que abriu mão, após voltar da I Guerra Mundial, da riqueza familiar para se reinventar como professor rural; Heidegger, seu turbulento casamento e as ferozes tempestades, também de ideias, na célebre cabana da Floresta Negra; e Cassirer, o mais convencional (e mais velho) do quarteto, “o único a quem a sexualidade não alterou seriamente a existência, e o único que jamais sofreu uma crise nervosa”.

Futebol e ideias

Este livro é o ápice da carreira de sucesso do autor, filósofo de formação, que navega entre o jornalismo e o ensaio para conectar “as ideias acadêmicas com o grande público”, na tradição alemã dos suplementos culturais que não fogem da teoria e de divulgadores filosóficos como Rüdiger Safranski. Colunista de jornais, onde também escreve sobre futebol (chegou à interseção entre o esporte e a filosofia através do caminho aberto pelos “artigos de Javier Marías e as crônicas de futebol do EL PAÍS), Eilenberger foi diretor durante sete anos da versão alemã da revista Philosophie, com tiragem de 70.000 exemplares. “É inegável que há um interesse crescente no pensamento. Talvez se deva à situação política”, afirma o escritor. “Mas convém não confundir filosofia com autoajuda. A filosofia não ajuda a conseguir a felicidade. Também me preocupa sua banalização. Desconfio dos que dizem que é possível explicar Wittgenstein em 10 minutos. Também acredito que pedir a um pensador soluções reais é perigoso, e Heidegger [que simpatizou com o nazismo] é o exemplo perfeito.”

Apesar das modas, Eilenberger considera que vivemos numa época “pobre em termos de produção filosófica”. Sobretudo na Alemanha. “A década de vinte foi a última em que a língua da filosofia foi o alemão. Hoje é o inglês por motivos que têm mais a ver com o mercado do que com a potência das ideias. Na história da filosofia, há épocas-cume, como os anos vinte, e épocas-vale, e a nossa é do segundo tipo. Parte do problema tem a ver com a universidade, onde ensinam a filosofia como uma ciência. A pobreza que vemos no cenário filosófico atual na Alemanha deve-se também a que o país nunca se recuperou do desaparecimento da grande tradição cultural judaica alemã.”

E o que pensa da mais nova estrela do pensamento de seu país, o coreano Byung-chul Han? “É muito dramático. Me faz pensar num pica-pau que bica continuamente uma parte muito fina de um tronco muito grosso. Ele encontrou um tema e certamente tem um estilo, baseado num alemão que, como estrangeiro, emprega com bela simplicidade. Dito isso, acho que já é hora de que mude de assunto.”