“Eleições Já!”: direita espanhola mobiliza milhares nas ruas de Madri contra o Governo Sánchez

Cidadãos, PP e Vox, que vão da centro direita à extrema direita, acusam o socialista de "traição"

Manifestação na praça Colón de Madri, neste domingo.
Manifestação na praça Colón de Madri, neste domingo. VICTOR LERENA (EFE)

Dezenas de milhares de pessoas – 45.000 de acordo com autoridades do Governo; 200.000 segundo os partidos presentes – compareceram neste domingo à concentração contra o primeiro-ministro da Espanha, o socialista Pedro Sánchez, na praça Colón de Madri sob o lema "Por uma Espanha Unida. Eleições já!". Assim como ocorreu ao longo dos últimos dias, o presidente foi acusado de ter “traído”, “humilhado” e ter “esfaqueado pelas costas” a Espanha. Participaram do gigantesco ato os líderes do conservador Partido Popular (PP), Pablo Casado, do centro direitista Cidadãos, Albert Rivera, e do ultradireitista Vox, Santiago Abascal, que foram fotografados juntos pela primeira vez.

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Na leitura do manifesto, pactado entre os partidos que convocaram o protesto (PP e Cidadãos) e o Vox, foi dito que Sánchez aceitou “as 21 exigências do separatismo” da Catalunha – apesar de que o Governo não reconheceu “o direito à autodeterminação” da Catalunha e não permitiu um “mediador internacional”, duas das exigências dos independentistas catalães para uma negociação que na sexta-feira foi dada por encerrada pelo primeiro-ministro.

No entanto, o Governo Sánchez atendera a uma das demandas e anunciou na última semana a figura de um "relator" nas negociações com os separatistas da Catalunha, que governam a região. Esse relator seria uma espécie de escrivão, responsável por registrar por escrito as discussões entre os partidos e o Governo espanhol sobre questão. Em jogo estava a aprovação do orçamento do Governo, rechaçado pelo PP e Cidadãos e dependente dos votos dos partidos separatistas que estão presentes na Câmara dos Deputados. Assim, a aceitação de um relator foi mal recebida pela direita espanhola, que acusou o governo Sánchez de traição e exigiu a convocação de eleições.

Dias depois, os partidos separatistas da Catalunha disseram que não votariam à favor do orçamento. Paralelamente, o Governo Sánchez disse que não aceitaria outras condições para a negociação, como o reconhecimento da autodeterminação do povo catalão. O Governo Sánchez então recuou e deu por finalizada as negociações. Tarde demais: a direita espanhola já estava se mobilizando para a manifestação deste domingo. Alguns partidos inclusive disponibilizaram transporte para os manifestantes que moram fora de Madri.

“O tempo de Pedro Sánchez acabou. Não cabe mais rendição socialista e chantagem independentista. Hoje começa a reconquista”, declarou Casado antes da leitura do manifesto. Rivera se expressou na mesma linha: “Estamos lotando a praça Colón. Existirá um antes e um depois dessa concentração. É o final de um mandato esgotado”. Abascal afirmou que “o golpe” na Catalunha deve “ser sufocado às últimas consequências”.

Os partidos que convocaram o protesto combinaram de não fazer atos políticos no palco e deixar que fosse a “sociedade civil” – três jornalistas subiram ao palco – a ler o manifesto. O PP se preocupava que um discurso político no palco desse maior protagonismo a Abascal, e Rivera aceitou que o formato fosse por fim o da leitura de um texto acertado entre todos. Os dois partidos se inquietavam, também, que os grupos de extrema direita que se somaram ao protesto, como a Falange Espanhola e as JONS, fossem à praça Colón com bandeiras anteriores à Constituição, mas sua presença passou despercebida.

“Compartilhamos a saturação da imensa maioria dos espanhóis pelo rumo suicida do Governo de Pedro Sánchez. Hoje estamos aqui reunidos para dizer ao Governo da Espanha que não estamos dispostos a tolerar mais traições e concessões àqueles que querem destruir nossa pátria”, leram os jornalistas no palco.

O presidente do Vox, Santiago Abascal; do PP, Pablo Casado; e do Cidadãos, Albert Rivera, neste domingo durante a manifestação.
O presidente do Vox, Santiago Abascal; do PP, Pablo Casado; e do Cidadãos, Albert Rivera, neste domingo durante a manifestação.Ricardo Rubio (Europa Press)

Casado, Rivera e Abascal subiram ao palco após a leitura do manifesto para uma foto em conjunto, mas o fizeram com representantes de outros quatro partidos menores (Foro Astúrias, UPN, PAR e UPyD) entre um alinhamento de políticos. O Cidadãos evitou essa foto com o Vox durante toda a negociação na Andaluzia, com a intenção de não associar sua imagem à extrema direita. Mas nesse domingo mudou de estratégia. A composição da imagem deixou o líder do PP no centro, e Rivera e Abascal de cada lado, ainda separados por apenas sete pessoas. Manuel Valls, ex-primeiro-ministro francês e  candidato à prefeito de Barcelona, não subiu no palco. Ele é uma das vozes mais críticas ao Vox dentro do Cidadãos.

O Cidadãos afirmou às 13h (10h de Brasília), pouco depois da leitura do manifesto, que mais de 50.000 pessoas compareceram, quantidade que 20 minutos depois ampliou a 200.000 com o cômputo das ruas próximas. O PP, que fretou dezenas de ônibus de toda a Espanha, também falou de 200.000. Entre os participantes, estava o prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, que em uma convenção recente do PP afirmou que o nacionalismo é “a peste”. Casado chamou todos os seus caciques para participar. Os dois mais importantes, Alberto Núñez Feijóo, da Galícia, e Juan Manuel Moreno, da Andaluzia, mudaram seus planos de última hora para poder participar. O presidente do PP pretendia que a concentração fosse uma demonstração de força e desse imagem de unidade após as críticas internas por seus ataques verbais e por ter ressuscitado a questão do aborto. A líder do Cidadãos na Catalunha, Inés Arrimadas, não chegou a tempo de acordo com fontes oficiais do partido por um atraso em seu voo.

O Partido Socialista (PSOE) de Sánchez reagiu à concentração na praça de Colón afirmando que o protesto foi um fracasso. “Fica demonstrado que as ideias unem, a tensão não”, dizem fontes do partido socialista.

O ato terminou com o hino da Espanha e saudações ao Rei. Antes, o DJ Pulpo, que costuma tocar nos atos do PP, entreteve o público com canções de reggaeton. Não foram vistas bandeiras dos partidos políticos, mas inúmeros cartazes contra Sánchez estavam presentes. O PP alerta que esse é só o primeiro. Casado, que não tem os votos necessários no Parlamento, quer levar “a moção de censura às ruas”.

Sánchez: "As três direitas querem dividir os espanhóis"

Ainda na tarde deste domingo, o primeiro-ministro Sánchez responsabilizou o PP, Cidadãos e Vox de se aproveitarem da crise territorial na Catalunha para contribuir com a polarização social. "O Governo trabalha para a unidade da Espanha, o que significa unir os espanhóis, não enfrentá-los. Não o que fazem as três direitas em Colón, que buscam dividir", disse em um ato. "Os socialistas sempre estivemos com o diálogo e a Constituição. Onde estão as direitas? Quando estão no Governo exigem lealdade, mas quando estão na oposição lideram a crispação. Chamam isso de patriotismo. Não. Isso é deslealdade".

O mandatário socialista também disse respeitar, como presidente, o ato em Colón. Mas ele lembrou ter permanecido ao lado de Mariano Rajoy, ex-primeiro-ministro, do PP, quando teve de enfrentar a declaração unilateral de independência e suspender o governo regional catalão. "O que estou fazendo agora como presidente, sempre respeitando a Constituição, é solucionar uma crise de Estado que o PP contribuiu para agravar".

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