Podemos

Enquanto a extrema direita avança, a nova esquerda implode na Espanha

Os dois principais líderes do Podemos, legenda esquerdista formada a partir dos protestos de 2011, romperam após impasse sobre candidatura para eleições de Madri

Os líderes do Podemos, Pablo Iglesias e Íñigo Errejón.
Os líderes do Podemos, Pablo Iglesias e Íñigo Errejón.Sergio Barrenechea (EFE)

Às 10 da manhã de 17 de janeiro, o Podemos, legenda de esquerda formada a partir de protestos contra a política espanhola, implodiu. Justo no dia em que a legenda completava cinco anos, dois de seus fundadores, Pablo Iglesias e Íñigo Errejón, consumaram a cisão. Errejón, candidato à Comunidade de Madri (como os Estados brasileiros), eleito nas primárias, anunciou que fará uma aliança com Manuela Carmena, prefeita da capital que se elegeu pelo Ahora Madrid, um partido que se autointitula uma candidatura cidadã de unidade popular. Ele pretende disputar as eleições de maio sob a marca Mais Madri, a plataforma da prefeita. Iglesias, "abalado e triste", situou Errejón fora do partido: "Desejo sorte a Iñigo na construção de seu novo partido".

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Na carta em que Carmena e Errejón anunciam a aliança, antecipada por EL PAÍS, eles concordam que este momento é decisivo após os fracos resultados da Adiante Andaluzia, a coalizão do Podemos e da Esquerda Unida (IU), nas últimas eleições regionais naquela comunidade, em que o partido ultradireitista Vox foi a grande estrela. A plataforma liderada por Teresa Rodríguez passou de 20 assentos –a soma dos representantes do Podemos e da IU, em separado, em 2015– para 17. "A Andaluzia foi um alerta. Hoje todo mundo sabe que precisamos de um revigorante." Na Comunidade de Madri, onde a maioria da população reside na capital, Errejón busca aproveitar o poder de voto da prefeita para fazer seu projeto decolar, abrindo mão da marca Podemos.

"Na política, você precisa estar acostumado a esse tipo de manobra, mesmo que venha de colegas, mas reconheço que fiquei abalado e triste", confessou Iglesias no Facebook. "Não imaginava que hoje, quando deveríamos comemorar o quinto aniversário do Podemos, as coisas seriam assim." A distância entre os dois professores universitários que fundaram o partido se tornou um abismo. Fontes da direção do Podemos informaram que Errejón não será expulso, já que "ele mesmo se colocou fora", e exigem que ele deixe sua cadeira na Câmara.

O secretário-geral do Podemos interrompeu sua licença de paternidade para anunciar que a legenda competirá com Errejón: "Com o devido respeito, Íñigo não é Manuela. Na Comunidade de Madri e em todos os outros municípios de nosso país, o Podemos sairá para vencer, construindo com a Esquerda Unida e com os demais aliados o Unidos Podemos e candidaturas municipais de unidade". Ou seja, Iglesias está apostando em seu próprio projeto de confluência na região, enquanto na Prefeitura, no momento, apoiará a Más Madrid, a plataforma na qual Errejón já está inscrito.

"Não acredito que Manuela e Íñigo nos esconderam que se preparavam para lançar um projeto eleitoral próprio para a Comunidade de Madri e que o anunciaram de surpresa. Nossos membros merecem mais respeito", se queixou Iglesias. Irene Montero, porta-voz na Câmara e líder interina, estava em uma entrevista na Cadena SER quando o anúncio foi feito. Sem saber da carta, naquele mesmo momento chegou a confirmar que Errejón era seu escolhido: "Ele é o candidato do Podemos".

O Podemos é o resultado político mais tangível e direto dos protestos de 15 de maio que em 2011 transformaram as praças da Espanha em acampamentos de cidadãos contra a precariedade nos empregos, a corrupção, o bipartidarismo, os altos preços da habitação. Três anos depois, nascia o Podemos, um partido dirigido por acadêmicos, especialmente de Ciências Políticas, e ativistas de vários campos que defendiam boa parte daquelas reivindicações.

Para o bipartidarismo espanhol, surgia um competidor à esquerda (e na centro-direita, com o partido Cidadãos). Alguns meses depois, eles foram a surpresa nas eleições europeias. Nas eleições gerais de 2015, entraram na Câmara dos Deputados em grande estilo: conseguiram 20% dos votos e 69 dos 350 assentos. Pablo Iglesias, a quem seus pais deram o nome de Pablo em homenagem ao falecido líder socialista espanhol (Pablo Iglesias Posse), foi nomeado secretário-geral, tendo Iñigo Errejón como um de seus líderes mais próximos, embora seu relacionamento tenha se desgastado ao longo dos anos.

As diferenças entre Iglesias e Errejón começaram em 2016, quando o atual líder do partido decidiu se aliar à IU e formar a coalizão Unidos Podemos para as eleições gerais. Poucos meses depois, em fevereiro de 2017, Iglesias venceu o duelo no congresso de Vistalegre II, ficou com o controle interno e Errejón iniciou um caminho independente.

Essa trajetória o levou à Comunidade de Madri. Errejón se submeteu ao processo de primárias para ser candidato pela comunidade de Madri, ganhou e considerou que havia conseguido uma parcela de poder frente a Iglesias e o aliado dele em Madri, Ramón Espinar. Mas nesta semana o conflito voltou a ressurgir. Espinar, secretário-geral do Podemos Madri, fez um pacto com a IU para a candidatura à Comunidade nas próximas eleições, em paralelo com a equipe de Errejón. O primeiro obstáculo estava no anúncio da escolha de Sol Sánchez, da IU, como número 2, sem o conhecimento do candidato. Esta decisão foi o gatilho para a ruptura: Errejón sempre quis que Clara Serra, deputada na Assembleia de Madri, fosse a segunda na chapa. Eles se deram um prazo de 72 horas para chegar a um novo acordo que se antecipou de modo abrupto.

Iglesias aproveitou sua mensagem nas redes sociais para lembrar Carmena que ela conquistou a Prefeitura de Madri graças ao apoio de seu partido. "Talvez quem a apoiou e acompanhou na época merecesse outra consideração, mas há algo muito mais importante do que Manuela ou que o Podemos: que os madrilenhos tenham um Governo mais decente do que os anteriores", explicou.

Apesar desse apoio, o secretário-geral delimitou certa distância da candidatura municipal. "O novo projeto de Manuela é muito parecido com o do Agora Madrid de quatro anos atrás", questionou, "mas se esse projeto e as exigências de Manuela de decidir sua lista do primeiro ao último nome são a condição de possibilidade para que os corruptos e os reacionários não voltem a governar Madri, estamos dispostos a abrir espaço e não nos candidatarmos às eleições municipais”.

O problema na capital é que as negociações para formar a candidatura, liderada pelo braço direito da prefeita, Marta Higueras, não avançam em razão das tentativas de Julio Rodriguez, líder do Podemos na cidade, de colocar pessoas de sua confiança na chapa. Agora, com Errejón sob o guarda-chuva do Mais Madri, Carmena terá que decidir se nas primárias anunciadas para fevereiro incluirá outros candidatos do partido de Iglesias.

O terceiro apoio do Podemos, o movimento Anticapitalistas, rejeitou a aliança de Carmena e Errejón, tachando-a de "pacto de gabinete". A corrente propõe iniciar um novo processo "democrático e horizontal" em Madri.

Errejón anunciou sua aliança com a prefeita dois dias antes de o Podemos realizar a primeira reunião do seu comitê de campanha (neste sábado). Foram convidados para o encontro todos os candidatos já eleitos no processo das primárias, incluindo o próprio Errejón. Na última terça-feira, quando Echenique anunciou a reunião, a maioria dos candidatos foi confirmada. O encontro vai tratar dos principais pontos políticos e de comunicação dos próximos meses e reafirmar as confluências com a IU. Alianças que a corrente de Errejón rejeita.

"Um projeto otimista"

Carmena e Errejón coordenarão suas propostas em um "programa conjunto e participativo". O primeiro passo desta nova plataforma será a convocação de suas próprias primárias em fevereiro para oferecer "um projeto integral otimista e de futuro”.

A prefeita se recusou a comentar a crise interna aberta no Podemos e lembrou que ela é independente. Carmena apenas insistiu em que o acordo alcançado com Errejón "soma forças". "É muito importante para que fique claro qual é a alternativa de progresso que queremos", disse ela. "Esta iniciativa é lançada por duas pessoas, Manuela Carmena e Íñigo Errejón, de diferentes trajetórias e gerações. É uma metáfora do que queremos para Madri: colocar diferentes visões para se encontrarem em um projeto compartilhado", acrescentou. Carmena tem 74 anos e Errejón, 35.

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