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“Tive sorte de poder enterrar o meu irmão”: o luto de Brumadinho chega ao sétimo dia

Comunidade do Córrego de Feijão, uma das mais afetadas pela tragédia, se transforma em base de trabalho das equipes de resgate

Brumadinho notícias
Da escada de casa, Michel Fernandes Guimarães aponta para onde aconteceu a avalanche de lama.

“Olha ali mais um corpo passando, está vendo? É o dia inteiro assim”, diz Michel Fernandes Guimarães, 31, enquanto aponta para um helicóptero do Corpo de Bombeiros sobrevoando a casa onde vive, com um saco preto pendurado por uma corda. Ele mora no Córrego do Feijão, uma das comunidades de Brumadinho mais abaladas pelo rompimento da barragem da Vale na sexta-feira da semana passada. Da escada que leva para a laje da habitação, Guimarães assistiu ao momento exato em que o tsunami de lama desceu montanha abaixo. “Minha mãe começou a gritar ‘a barragem da Vale arrebentou”, conta. “Eu corri, e vi a lama arrebentando fio, vidro, levando tudo”. Assim que a enxurrada passou, Guimarães pegou a moto e foi em direção à lama. “Fui atrás do meu irmão”.

Passada uma semana do rompimento da barragem, a sexta-feira foi um dia de memórias e emoção à flor da pele. Por volta do horário em que a barragem se rompeu, as equipes de resgate jogaram pétalas de rosas na região onde era o refeitório da Vale, que estava cheio. Além disso, um vídeo das câmeras de segurança da Vale foi veiculado mostrando quadro a quadro como a avalanche de lama desceu montanha abaixo. As imagens retiraram do imaginário e concretizaram na realidade de muitos os instantes de desespero da tragédia. “Na hora em que aconteceu, eu pensei: morreu muita gente, porque era hora do almoço”, diz Guimarães. O vídeo marca quando tudo começou: 12h28.

Assim que a lama desceu, Guimarães pegou a moto e saiu com um amigo em busca de sobreviventes. O irmão dele, Reinaldo Fernandes Guimarães, 31, e a irmã do amigo trabalhavam na pousada Nova Estância, muito próxima à barragem e que ficou completamente devastada. “Fomos em direção à pousada, mas chegando na lama, já encontramos uma vítima”, conta Guimarães. Ele e o amigo resgataram a mulher que estava afundada nos rejeitos e a deixaram na sombra, esperando o resgate. “Andamos mais um pouco e vimos outra pessoa, com lama até o pescoço, fazendo um sinal com a mão”, diz ele. Era a irmã da primeira vítima, mais uma que eles conseguiram resgatar com vida. Ele conta que ficou com o amigo até por volta das seis da tarde atrás dos irmãos. Mas não encontraram. O irmão se tornaria uma das 115 pessoas que morreram oficialmente na tragédia até agora –o mais recente balanço, nesta sexta, citava, ainda, ao menos 248 desaparecidos.

“Tive sorte de poder enterrar o meu irmão”: o luto de Brumadinho chega ao sétimo dia

O trabalho incessante das equipes de resgate transformou a pacata comunidade de Guimarães. Do campinho de futebol onde até uma semana atrás Guimarães treinava meninos e meninas por meio de um projeto social do qual participa, decolam e aterrissam a cada minuto helicópteros dos Bombeiros e da polícia. Os corpos resgatados da lama chegam por ali e são encaminhados ao Instituto Médico Legal. Ao redor dali, a pequena igreja da comunidade faz as vezes de base para a distribuição de alimentos e água. Um cordão cerca o pequeno espaço destinado à imprensa. A cerca de um quilômetro dali, outra base realiza cadastros de famílias, presta atendimento psicológico e social a elas e distribui água e alimentos.

Pelas pequenas ruas do Córrego do Feijão, passam carros das equipes de resgate e segurança, imprensa, moradores e voluntários. Com tanto movimento, os moradores, já abalados pela tragédia que levou ao menos um parente ou conhecido de cada um, não conseguem desligar a cabeça da tensão. “Conseguimos dormir lá pelas duas da manhã, quando conseguimos”, diz Guimarães. “E lá pelas sete, os helicópteros são o nosso despertador”. Os acessos à comunidade, que antes desta tragédia ficava a meia hora do centro de Brumadinho, estão limitados. As estradas, que passam por cenários bucólicos em meio a montanhas e vistas deslumbrantes do interior de Minas Gerais, estão bloqueadas por razões de segurança. Há relatos de moradores com dificuldade de realizar a simples tarefa de ir ao banco no centro da cidade, já que para chegar ao local, somente um caminho está liberado. E a volta necessária para chegar lá é tão grande, que a duração da viagem passa de duas horas.

Enterro digno

Foi somente na terça-feira que o resgate encontrou o corpo do irmão de Guimarães –ele foi fazer o reconhecimento no IML. “Ele tem uma tatuagem, mas nem precisei olhar para reconhecer. Meu irmão estava inteiro, era ele mesmo”, diz. “Ele estava com o cabelinho curtinho. Eu nem sabia que ele tinha cortado o cabelo, porque não tinha visto antes. Mas tive sorte, Deus me permitiu enterrar o meu irmão. Muita gente não teve a mesma sorte que eu”.

O enterro digno do irmão, e o cadastro realizado para que a família receba os 100.000 reais que a Vale promete doar aos parentes das vítimas, não confortam a dor de Guimarães. Ainda revoltado com o que ocorreu, recebeu uma visita enquanto conversava com a reportagem. Era o filho mais velho dos proprietários da pousada, que morreram juntamente com seu irmão caçula. Ele não falou com a reportagem, mas deixou um recado para Guimarães. “Tire o ódio do coração. Eu perdi a minha mãe, meu pai e meu irmão. Não tenho mais casa, família e nem dinheiro. E não estou chorando”, disse. “Você precisa ser forte para que a gente faça deste campo de futebol, que hoje está recebendo os corpos, vire um campo de rosas”.

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