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O Brasil sob a lama

É intolerável a complacência dos poderes públicos com as desleixadas práticas de segurança das empresas

Familiar de vítima da tragédia é consolada por voluntária durante missa em homenagem às vítimas, no dia 31 de janeiro
Familiar de vítima da tragédia é consolada por voluntária durante missa em homenagem às vítimas, no dia 31 de janeiro Andre Penner (AP)

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O Brasil vive nos últimos dias um pesadelo dentro de outro pesadelo. Por um lado, o país ainda chora os 110 mortos e mais de 200 desaparecidos deixados pela avalanche de lama da sexta-feira passada em Brumadinho (MG), causada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Vale. Por outro, uma pergunta indignada emergiu no seio da sociedade brasileira: até quando a negligência de empresas e poderes públicos continuará custando vidas?

A tragédia tem um precedente muito próximo, também no Estado de Minas Gerais. Em 5 de novembro de 2015, o rompimento de duas paredes de contenção na represa da Samarco, uma companhia da qual a Vale é sócia em partes iguais com a anglo-australiana BHP Billiton, matou 19 pessoas e deixou um irreparável rastro de destruição ambiental.

É assombroso constatar que, mais de três anos depois, o Brasil continua debatendo sobre os mesmos problemas que ocasionaram a primeira tragédia. Mais ainda, que durante todo este tempo nada tenha sido feito para melhorar a segurança de tais instalações. É terrível também ver como uma parte da sociedade, à qual o Governo de Jair Bolsonaro deu asas, continua demonizando a fiscalização ambiental e militando em uma dicotomia cega e antiquada entre preservação e desenvolvimento econômico.

O próprio Executivo brasileiro deveria refletir sobre qual rumo tomar depois da tragédia de Brumadinho. O mesmo deveria fazer a Vale, uma das maiores mineradoras do mundo, transformada há uma semana em exemplo de empresa negligente capaz de pôr em risco a vida de centenas de pessoas. Entre a tragédia de 2015 e a da semana passada, a empresa brasileira tem feito visto grossa às queixas de suas vítimas e pouco fez para melhorar suas práticas de segurança. Para isso contou sempre com a complacência das autoridades.

Depois do acidente de Brumadinho, a empresa que um dia foi o símbolo da pujança global do Brasil vive um inferno nos mercados. Mas parece, de novo, que as mortes não foram suficientes para ensinar a lição: os investidores continuam sendo prioridade absoluta para a Vale e, embora tenha anunciado que entregará 100.000 reais a cada uma das famílias que tenham perdido um parente, demorou a dar a cara perante as vítimas, que, pela segunda vez, acreditaram nas promessas de segurança da empresa e agora estão instaladas em uma dolorosa espera por um luto digno. “Se para você meu marido era um simples empregado, substituível, para mim não é. É o pai da minha filha, o filho da minha sogra”, clamava a esposa de um desaparecido. Sua dor e raiva são as mesmas que sentem o resto de familiares.

O presidente da Vale, Fabio Schvartsman, anunciou um plano para acabar de uma vez por todas com represas como as que ocasionaram as tragédias da semana passada e a de 2015, antiquadas e desenhadas da forma mais barata e perigosa. Bem-vinda seja a medida. Nenhuma proposta, entretanto, será suficiente sem uma fiscalização efetiva do Estado.

O Brasil do lodaçal de Brumadinho é o mesmo das cinzas do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que queimou no ano passado; o mesmo que trata os indígenas com displicência; um país que atravessa uma profunda crise moral e que deixa patente, tragédia após tragédia, que fazer as coisas como sempre se fez não trará a mudança da qual sua população necessita. A de Minas Gerais deve ser a última lição do mais básico: que a vida das pessoas está acima de qualquer economia ou lucro econômico.

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