Ex-primeiro-ministro do Reino Unido

Tony Blair: “Se o Brexit está bloqueado, a única solução é o referendo”

O ex-líder trabalhista diz que o Reino Unido tem que estar preparado para pedir mais tempo à UE

Blair, em 17 de julho, em Londres
Blair, em 17 de julho, em LondresTOLGA AKMEN (AFP)

Tony Blair (Edimburgo, Reino Unido, 65 anos) reluta em se encaixar na teoria de que os ex-chefes de Governo são vasos chineses: sempre no meio dos lugares, sem que se saiba muito bem onde colocá-los. A crise do Brexit abriu a ele a oportunidade de encontrar uma lacuna entre o fanatismo dos eurocéticos e a imprecisão do líder do seu próprio partido, o Trabalhista, Jeremy Corbyn. Blair expôs seus pontos de vista em uma entrevista aos principais jornais europeus, nos quais se inclui EL PAÍS.

Pergunta: Há algo claro no nevoeiro destas últimas horas?

Resposta. Algumas coisas já se tornaram claras. E a mais importante é que o acordo do Brexit de Theresa May não vai obter o apoio do Parlamento. Em segundo lugar, acho que não existe uma maioria clara em relação a nenhuma outra alternativa. Uma saída "à norueguesa", isto é, um Brexit suave, que cada vez parece ter mais adeptos, é algo de que os cidadãos não gostam. Isso nos situaria na incômoda situação de ter que assumir as regras da UE sem poder participar de sua elaboração. Uma maneira estranha, na minha opinião, de recuperar o controle se, em troca, você tiver que renunciar ao controle que já tinha antes.

“Não me canso de repetir. Não vai haver um Brexit sem acordo”

P. Existe a opção de um Brexit duro, sem acordo. É a ameaça recorrente de May para que o Parlamento respalde o plano dela.

R. Está claro que o Parlamento não vai apoiar uma saída na marra, pelas consequências econômicas que isso teria. Por isso acho importante que os líderes europeus deixem de se concentrar nos perigos de um Brexit sem acordo. Isso não vai acontecer. Não me canso de repetir isso. Existe uma enorme maioria parlamentar contra esta opção. Se o Governo tentasse, haveria muitas demissões em seu meio. As chances de algo assim acontecer não chegam a 10%, e se acontecer, seria por culpa de algum estranho acidente.

“[Os partidários de um novo referendo] não estamos sugerindo que se consultem outros cidadãos. Trata-se de voltar a perguntar aos britânicos!”

P. Considera então mais próximo o segundo referendo que o senhor sempre defendeu?

R. Ainda não há apoio suficiente no Parlamento para um segundo referendo, mas se trata simplesmente de aplicar a máxima de Sherlock Holmes. 'Se você excluir o que é impossível, a resposta é o que resta, por mais improvável que seja'. Compreendo as dúvidas e a ansiedade que a ideia de um segundo referendo provoca, mas, se não há nenhuma maneira de chegar a um acordo para a saída e tudo está bloqueado, e se existe um amplo consenso de que não pode haver nenhuma saída da UE sem acordo, acho que o referendo é a única maneira de resolver tudo isso.

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P. Há fortes argumentos contra a realização de uma nova consulta. Geraria mais divisão, e seria, segundo avalia [a primeira-ministra, Theresa] May, uma quebra na confiança dos cidadãos na democracia.

R. O país está dividido há dois anos. E há um certo exagero nesses argumentos. Os eurocéticos dizem que consultar novamente os cidadãos seria uma traição. Mas não estamos sugerindo que sejam consultados outros cidadãos. Trata-se de voltar a perguntar aos britânicos! Trata-se de recorrer às pessoas, no meio de todo esse emaranhado, para lhes perguntar de novo se acham que é uma boa ideia. Isso é uma traição? Um referendo é a única maneira de anular o resultado de outro. Qualquer que seja a opinião que se tenha sobre os referendos, uma vez feitos você só pode mudar de ideia pelos mesmos meios, senão nos metemos em encrencas.

P. Seja qual for a solução, o tempo está se esgotando. O dia 29 de março está ao virar da esquina.

“É importante que a Europa diga que, se o Reino Unido estiver disposto a mudar de ideia, estaria disposta a escutar”

R. Acho que devemos começar a nos preparar para solicitar um adiamento do artigo 50. Seja para preparar um segundo referendo, seja para ganhar clareza em relação às opções que poderão ser negociadas em vez do plano de Theresa May. Eu acho que esse adiamento é inevitável.

P. Ajudam atitudes como a carta dos líderes políticos alemães pedindo ao Reino Unido que permaneça na UE?

R. A Europa tem diante de si um desafio. Tenta responder a uma situação que é única, da qual nem o Governo britânico nem o Parlamento têm todo o controle. Acho que é realmente importante que a Europa tome a iniciativa e diga claramente que, se o Reino Unido estiver disposto a mudar de ideia, estará disposta a ouvir. É por isso que acho que a carta dos políticos alemães foi uma boa ideia. Porque, apesar do que se diga, acho que a opinião pública britânica mudou.

P. O líder de seu partido, Jeremy Corbyn, se mostras relutante em endossar o segundo referendo, que, ao que parece, a maioria dos eleitores trabalhistas deseja.

R. Sim, pode-se dizer que até agora ele tem relutado bastante [risos]. Ele defende eleições gerais. E, se isso não for possível, um acordo que nos mantenha na união aduaneira e no mercado interno, muito próximo da UE. E se nada disso for possível, só então um referendo. Ele não vai conseguir as eleições que pretende, nem vai obter de May a segunda opção. Deixe-me tentar ser justo com Jeremy Corbyn. Eu não lideraria o Partido Trabalhista do jeito que ele está fazendo, mas eu o entendo, porque conheço muitos deputados trabalhistas cujas bases eleitorais votaram a favor do Brexit, e falo muito com eles. E eles têm medo de perder suas cadeiras se votarem a favor de um novo referendo. Não é uma objeção absurda. É preciso levar isso em conta. Acho que eles estão errados, basta olhar para as pesquisas recentes. Não é incrível que com este Governo e esta primeira-ministra, Corbyn esteja 15 pontos atrás de May no índice de popularidade?