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Gisele Bündchen, o revés à imagem internacional de Bolsonaro

Modelo escreve carta em resposta a crítica da ministra Tereza Cristina e diz que "maus brasileiros" são as pessoas que desmatam ilegalmente a Amazônia

Gisele Bündchen Bolsonaro
Gisele Bündchen no Museu Metropolitano de Nova York, em maio de 2018 REUTERS
Brasilia / São Paulo

A imagem do Brasil no mundo depende em grande medida de seus jogadores de futebol, de seus músicos… e de Gisele Bündchen. Esse é um detalhe que preocupa o Governo Bolsonaro. Mas o tiro lhe saiu pela culatra.

A modelo respondeu em tom tão contundente quanto respeitoso, e também com um pingo de ironia, à ministra da Agricultura do novo Governo, que disse numa entrevista nesta semana que Bündchen “não deveria sair [na mídia] criticando o Brasil sem conhecer os fatos”. A top model brasileira respondeu-lhe que “maus brasileiros são os que desmatam”, segundo uma carta dela à ministra Tereza Cristina reproduzida pela Folha de S.Paulo, depois de lhe recordar que desde 2006 está ativamente envolvida na defesa ambiental e já visitou a Amazônia em várias ocasiões. A ministra também havia dito que Bündchen, embaixadora honorária da ONU para o Meio Ambiente, não deveria falar de desmatamento porque isso “reverbera” no mundo, e os que fazem isso são “maus brasileiros”.

Gisele Bündchen não é uma ambientalista de ocasião. Há 12 anos utiliza sua plataforma de seguidores – cinco milhões de pessoas em todo o mundo – para apoiar causas de preservação ambiental e pressionar o Governo brasileiro a implementar ou alterar políticas nesse sentido. Em mais de uma ocasião, enviou mensagens diretamente aos presidentes da República sobre a conservação de zonas protegidas, sobretudo na Amazônia.

Gisele Bundchen no Rock in Rio, em setembro de 2017 ampliar foto
Gisele Bundchen no Rock in Rio, em setembro de 2017 Getty Images

No ano passado, por exemplo, abriu o festival de música Rock in Rio lançando o projeto Believe Earth/Amazonia Live e pronunciou, às lágrimas, um discurso que levou a multidão a gritar “Fora Temer”. “Sonho com o dia em que encontraremos o equilíbrio entre o ter e o ser... o desfrutar e o preservar. Sonho com o dia em que viveremos em harmonia, em total harmonia, com a mãe Terra (...). Cada um tem um impacto neste mundo, só temos que decidir qual impacto queremos ter”, disse na ocasião.

O presidente Jair Bolsonaro irritou os ambientalistas ao entregar a pasta da Agricultura a Tereza Cristina Dias, ex-deputada federal e líder informal da poderosa bancada ruralista no Congresso. Esse setor e os ambientalistas travam uma duríssima batalha que é onipresente na política do Brasil.

A modelo, que vive nos Estados Unidos apesar de ter nascido e crescido no interior do Brasil, recordou à ministra os últimos dados oficiais sobre desmatamento, “amplamente divulgados pela imprensa”. “O desmatamento na Amazônia cresceu mais de 13% em 2018, o que representa o pior dado em uma década”, observou ela.

A ministra da Agricultura e do Meio Ambiente, Tereza Cristina Dias, no dia 8 de novembro em Brasília ampliar foto
A ministra da Agricultura e do Meio Ambiente, Tereza Cristina Dias, no dia 8 de novembro em Brasília Getty Images

“Valorizo muito o papel tão importante que a agricultura e os agricultores têm para nosso o país”, escreveu, “mas acredito que a produção agropecuária e a conservação ambiental precisam caminhar juntas, para que nosso desenvolvimento possa ser sustentável”.

Nas redes sociais, Gisele se tornou uma poderosa aliada das ONGs, sempre se posicionando quando são debatidos projetos ou leis que possam causar danos à maior floresta do mundo. Também em 2017, quando o Governo Temer pretendia aprovar um projeto de mineração na floresta amazônica, pondo em risco zonas protegidas da mata e comunidades indígenas, a modelo publicou no Twitter: “Que vergonha! Estão leiloando nossa Amazônia! Não podemos destruir nossas áreas protegidas em favor de interesses privados". Pouco depois, Gisele mencionou diretamente o presidente para se queixar da redução de Jamanxim, que perderia 600.000 hectares por meio de uma medida proposta pelo Governo. "@MichelTemer, veto às propostas que ameaçam 600k de hectares de área protegida na Amazônia brasileira", protestou em quatro tuítes, dois em português e dois em inglês.

Naquela ocasião, Michel Temer não resistiu à perseguição das ONGs e dos ambientalistas e decidiu anular as medidas. Além disso, para o presidente menos popular da história do Brasil não era interessante se indispor com a personalidade mais famosa do país, uma mulher poderosa, rica, bela e ainda por cima preocupada com o presente e o futuro do planeta. Resta ver se o poder e a influência da Gisele ambientalista terão algum efeito sobre as políticas do Governo liderado pelo ultradireitista Bolsonaro.

A modelo escreve à ministra num tom elegante. Encabeça sua carta com um “Excelentíssima Senhora Ministra de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina”. Todos no Brasil conhecem a ministra, como a modelo, por seu prenome. E a fecha no mesmo tom. “Com respeito, Gisele Bündchen”.

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