Empresas chinesas pagaram 772 milhões de reais em subornos para obter contratos na Venezuela

Diretores próximos a Hugo Chávez e executivos de PDVSA ocultaram seu botim em Andorra

O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez com seu então homólogo chinês, no Grande Palácio do Povo em Pequim, em abril de 2009.
O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez com seu então homólogo chinês, no Grande Palácio do Povo em Pequim, em abril de 2009.EFE

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O chamado Grande Volume, um megacontrato de 20 bilhões de dólares (77,2 bilhões de reais) selado em 2010 entre a Venezuela e a China, se tornou um ninho de corrupção. A construção de infraestrutura de energia no país sul-americano ocultou um negócio fabuloso de comissões ilegais. Uma investigação da Justiça de Andorra revelou que o empresário venezuelano do ramo de seguros Diego Salazar e seus colaboradores receberam 200 milhões de dólares (772 milhões de reais) de cinco empresas chinesas. A rede de Salazar escondeu seu saque na Banca Privada d'Andorra (BPA), um banco que foi fechado em 2015 pelas autoridades do pequeno principado dos Pirineus por lavagem de dinheiro. A China concedeu um empréstimo à Venezuela por intermédio do Banco de Desenvolvimento da China (BDC) e contribuiu com dois terços dos recursos. O Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (Bandes) estava encarregado de administrar os fundos. Um grande plano para modernizar a Venezuela. E uma oportunidade suculenta para sujeitos como Salazar.

Mas Salazar não era um empreendedor a mais. O executivo da área de seguros é primo de Rafael Ramírez, que foi ministro de Energia e Petróleo do país de 2004 a 2012 e presidiu a PDVSA, a maior empresa pública venezuelana. E a juíza Canòlic Mingorance, de Andorra, acaba de revelar que Salazar contatou as empresas chinesas para facilitar as concessões em troca de comissões ilegais. Para isso ele recorreu ao primeiro secretário da embaixada venezuelana em Pequim, Luis Enrique Tenorio. E para esconder seus ganhos, Tenorio criou uma empresa panamenha, a Phomphien Corporation, e abriu uma conta na BPA de Andorra. Salazar foi detido há um ano e está preso em Caracas.

O secretário da embaixada em Pequim ajudou Salazar na trama

O circuito Venezuela-China-Andorra funcionou perfeitamente. A Highland Assets, a empresa por trás da qual Salazar se ocultava e também um colaborado dele, assinou um acordo com a empresa chinesa CAMC Engenharia pelo qual a assessorava na obtenção de contratos milionários licitados pelo Ministério do Petróleo e Energia, especialmente da PDVSA e da CORPOELEC, no âmbito do conjunto de obras oferecidas no Grande Volume.

O contrato era confidencial até cair nas mãos da juíza Mingorance. A magistrada usou o texto para sustentar parte de sua acusação e processar Salazar por lavagem de dinheiro. O documento afirmava que, se os chineses recebessem obras no valor de 200 milhões de dólares, a Highland Assets receberia 10% líquido do volume de negócios da Camc Engineering. "Este é um contrato de resultados totalmente anormal no setor de consultoria, já que o evento que gera a contraprestação não é a preparação de relatórios ou a assessoria, mas a concessão", diz uma decisão recente da juíza de Andorra.

Depois de assinar o acordo, a empresa chinesa começou a receber contratos. O primeiro foi o da construção da usina de geração de energia elétrica de El Vigía, licitada pela empresa pública venezuelana de eletricidade Corpoelec. E a conta andorrana de Salazar com a sociedade panamenha Highland Assets recebeu o primeiro pagamento de 36 milhões de dólares como "assessoria integralpara a execução do projeto de construção da usina termoelétrica de El Vigia".

Para cada obra concedida, um novo pagamento entrava na conta andorrana. Um milhão de dólares para o projeto do delta do Orinoco; 400.000 dólares para o de rio Guarico; 600.000 e um milhão de dólares pelo do rio Orinoco; três milhões para os projetos de Fábrica, Tiznado, Piritu Becerrra, Delta Orinoco e Guarico. Entre 2011 e 2012, o fluxo de milhões não parou. E somou 106 milhões de dólares.

Subornos a funcionários da PDVSA foram pagos com dinheiro de contas na BPA de Andorra

Ao mesmo tempo em que as 11 contas de Salazar em Andorra engordavam com cifras milionárias, a partir delas começaram a jorrar os subornos para altas autoridades venezuelanas. Tudo ante os olhos dos diretores da BPA. Os executivos do banco andorrano não fizeram perguntas sobre a atividade suculenta do empresário venezuelano, a quem ajudaram a construir a rede de empresas panamenhas.

O negócio do Grande Volume foi dividido entre várias empresas chinesas com as quais Salazar e seu colaborador Luis Mariano Rodríguez assinaram contratos similares. A China Machinery Engineering Corporation (CMEC) ficou com a construção da estação elétrica de emergência no Estado de Zulia e recompensou Salazar com um pagamento de 55 milhões de dólares. Rodríguez recebeu 9,5 milhões de dólares. O dinheiro foi para a conta andorrana da empresa holandesa Investments and Consulting.

A empresa Sinohydro Corp. Ltd selou com a PDVSA, por 315 milhões, a construção da central de La Cabrera. Cinco dias antes, a empresa panamenha de Salazar havia assinado um contrato com Francisco Jiménez Villaroel, gerente do escritório da PDVSA na China, para ajudar as empresas asiáticas a entrarem no mercado venezuelano. A juíza enfatiza que Jiménez não possuía na época nenhuma estrutura para fornecer esses supostos serviços. A empresa chinesa não demorou para transferir 50 milhões de dólares para a conta de Salazar. Eudomario Carruyo, então diretor financeiro da PDVSA, recebeu em sua conta do BPA o valor de 7 milhões de dólares.

O volume de pagamentos milionários do Grande Volume não parou. Novas comissões para La Cabrera, para o Projeto Agrícola Integral Pajuey e Santo Domingo Llano Alto. E novas empresas chinesas que encheram com milhões as contas andorranas de Salazar e seus colaboradores. Como a empresa de fabricação de ônibus Yutong Hongkong Ltd., que transferiu 11 milhões de dólares, e a petroleira Shandong Kerui Petroleum, que lhe enviou 17 milhões de dólares.

Salazar prestou declarações em 2015 em Andorra perante a juíza que descobriu agora os seus segredos mais ocultos. Afirmou que eram as autoridades chinesas que tinham "o poder de decidir quais empresas fariam os projetos". Seus argumentos não o impediram de ser processado em setembro com mais 27 pessoas acusadas de saquear 2,3 bilhões de dólares da PDVSA, a joia da coroa da Venezuela. Entre os réus estão Nervis Villalobos e Javier Alvarado, ex-ministros de energia de Hugo Chávez.

PAGAMENTOS MILIONÁRIOS A EXECUTIVOS DA PETROLEIRA ESTATAL VENEZUELANA

J. M. I. / J. G.

A investigação da juíza andorrana Canòlic Mingorance revelou pagamentos suspeitos recebidos por alguns dos principais responsáveis pela empresa pública Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) e suas filiais. Este é o caso de Ramon Arias Lanz, ex-presidente da PDVSA Engenharia e Construção, que tinha uma conta na Banca Privada d'Andorra (BPA) em nome da empresa de fachada White Snake Properties.

Entre 2011 e 2012, a conta Arias se nutriu com três transferências. Uma de 300.000 dólares e duas de cinco milhões de dólares cada. Todas procederam da conta da empresa High Advisory and Consulting Ltd,, de Luis Mariano Rodríguez, diretor financeiro de Diego Salazar e para os investigadores seu provável testa de ferro.

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