Manifestações

França vive o desafio de uma onda de atos sem líderes e desvinculada de sindicatos

Balanço de uma morte, 227 feridos e 73 detidos expõe a dificuldade do Governo francês em lidar com as manifestações desvinculadas dos sindicatos e, portanto, sem suas típicas estruturas de organização

Manifestantes contra a subida dos combustíveis bloqueiam o passo de um ônibus turístico, neste sábado em Paris.
Manifestantes contra a subida dos combustíveis bloqueiam o passo de um ônibus turístico, neste sábado em Paris.CHARLES PLATIAU (REUTERS)

A onda de protestos desencadeada neste fim de semana na França por conta do aumento nos preços do combustível serve de alerta ao presidente Emmanuel Macron, que até então vinha superando sem problemas os protestos sindicais relativos às reformas trabalhista e das ferrovias públicas nos seus quase dois anos de Governo. O movimento chamado coletes amarelos —a indumentária fluorescente que os motoristas precisam usar quando saem de seus carros nas estradas—, desvinculado do sindicatos e sem líderes definidos para negociação, interromperam rodovias, estradas e ruas em toda a França. Nos atos, foram contabilizados um morto, 227 feridos e 73 detidos, expondo a dificuldade do Governo francês em lidar com essas manifestações. O balanço político é ainda mais complicado: o Governo estuda um incentivo para a população de menor poder aquisitivo, mas não considera voltar atrás no aumento do combustível.

A morte de uma manifestante marcou a jornada de protestos deste sábado. Segundo dados oficiais, cerca de 282.710 pessoas interromperam rodovias, estradas e ruas em aproximadamente 2.000 locais no país inteiro. O incidente mais grave ocorreu em Le Pont-de-Beauvoisin, na região da Savoia. Uma mulher que levava sua filha ao médico de carro foi cercada por manifestantes numa rotatória. Dominada pelo pânico, acelerou e matou outra mulher, segundo relato do ministro do Interior, Christophe Castaner. A vítima era uma aposentada de 63 anos que se chamava Chantal Mazet, informa o Le Parisien.

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Em Paris, centenas de manifestantes bloquearam alguns pontos do anel viário da capital. Muitos dos vinham de localidades periféricas e tinham visto a convocação no Facebook e em outras redes sociais. À tarde, dirigiram-se à Champs Elysées, a grande avenida central, e à praça da Concórdia, a algumas centenas de metros do Palácio do Eliseu, a residência presidencial, isolada por cordões policiais e agentes da tropa de choque.

A lista de reivindicações era extensa. Partia do aumento do imposto sobre combustível e outras queixas dos motoristas, como a redução da velocidade máxima nas estradas para 80 quilômetros por hora. Mas ia além. Da alta da tributação aos aposentados até a redução do imposto sobre as fortunas, passando pela suposta arrogância de Macron. Mas, de maneira mais geral, há um denominador comum: a percepção de uma perda de poder aquisitivo por parte da classe média e a insatisfação com os governantes do país.

"Os mais ricos estão mais ricos, e os mais pobres, mais pobres. As classes médias pagam pelos mais ricos e pelos mais pobres", dizia, enquanto caminhava pela Champs Elyseés, o manifestante Éric, que trabalha como organizador de casamentos e festas na região de Paris, e não quis revelar seu sobrenome.

AFP / ATLAS (atlas)

A ausência de ordens e líderes e a divisão de estratégias ficaram evidentes minutos depois, quando meia centena de manifestantes com coletes amarelos interromperam o tráfego —incluindo um ônibus cheio de turistas perplexos— na praça da Concórdia. "Estamos aqui para desacelerar o trânsito, não para bloqueá-lo", repreendia outra manifestante, dirigindo-se aos seus colegas. Umas dezenas de coletes amarelos conseguiram entrar no luxuoso Faubourg Saint-Honoré para se aproximar do edifício mais conhecido desta rua, o Palácio do Eliseu. "Macron, demissão", gritavam.

A extrema direita da Reagrupação Nacional (antiga Frente Nacional), a esquerda populista da França Insubmissa e a direita tradicional dos Republicanos declararam sua simpatia aos protestos. Os sindicatos se desvincularam.

Os protestos de 17 de novembro foram o primeiro teste deste movimento organizado através das redes sociais e com contornos ideológicos difusos. Os bloqueios não paralisaram a França, e o fato de ocorrerem num feriado diluiu o impacto. Mas os coletes amarelos conseguiram congestionar o trânsito e causaram congestionamentos em centenas de pontos do país. E a capacidade de mobilização envia um sinal aos poderes políticos sobre a amplitude do descontentamento. O grupo expressa a insatisfação de muitos franceses do interior que se sentem desprezados pelas elites e em particular pelo presidente Macron. O estopim dos atos foi o aumento dos impostos sobre a gasolina e o diesel. O preço do combustível tem pouco impacto para os franceses urbanos que costumam se deslocar em transporte público —ou mesmo de bicicleta—, mas representa um ônus cotidiano para quem vive em pequenas cidades ou povoados e precisa do carro para ir ao trabalho e às compras.

O balanço do Ministério do Interior —uma morte, 227 feridos, dos quais seis em estado grave, e 73 detidos— mostra as dificuldades em administrar um protesto sem as estruturas de organização típicas das manifestações sindicais. O balanço político, entretanto, é ainda mais complicado. O primeiro-ministro Édouard Philippe anunciou nesta semana uma série de medidas, avaliadas em 500 milhões de euros (2,14 bilhões de reais), para ajudar os motoristas com menor poder aquisitivo. Mas não está disposto a ceder no aumento do imposto sobre o combustível, uma medida considerada necessária na luta contra as emissões de poluentes. A partir de 1º. de janeiro, a taxa sobre a gasolina subirá 0,039 euro (0,167 real) por litro, e 0,065 euro sobre o óleo diesel.

O problema é que, mesmo que Macron e Philippe quisessem negociar, não teriam com quem. Os coletes amarelos carecem de líderes. É uma incógnita se, depois da convocação deste sábado, os bloqueios continuarão.