Seleccione Edição
Login

Alexandre Benalla, o homem que lança dúvidas sobre a “exemplaridade” de Macron

A demora em admitir o escândalo do ex-chefe da segurança do presidente francês afetou sua imagem e poderia comprometer suas reformas políticas

Alexandre Benalla (à direita) ao lado do presidente Macron em fevereiro.
Alexandre Benalla (à direita) ao lado do presidente Macron em fevereiro. AFP

Histeria midiática de verão ou escândalo de Estado? A revelação de que Alexandre Benalla, ex-chefe da segurança e homem de confiança do presidente francês Emmanuel Macron, agrediu dois manifestantes quando participava como observador do contingente policial dos protestos de 1º de maio, sacudiu a vida política francesa. Embora o presidente tente minimizar a crise chamando-a de “tempestade em um copo d’água”, ela pode acabar afetando projetos-chave de seu mandato, como a reforma constitucional.

Há até pouco mais de uma semana, nada parecia poder alterar a meteórica carreira de Alexandre Benalla, que aos 26 anos gozava de grande confiança do chefe de Estado francês, de quem era praticamente a sombra. Originário de um bairro popular da cidade normanda de Évreux, onde nasceu em uma família de origem marroquina, e amante de rúgbi, começou sua carreira na segurança depois de se formar em direito em Rouen, segundo a imprensa francesa. Sua oportunidade surgiu primeiramente no Partido Socialista, no qual sua mãe militava. Ele tinha apenas 19 anos quando Éric Plumer, chefe do serviço de ordem do Partido Socialista, o notou. “Era alguém calmo e estável”, disse seu antigo mentor à Agência France Presse. “Era muito sério nas missões que lhe pedia”. Missões de grande responsabilidade, como fazer parte da equipe de segurança de Martine Aubry, ex-número um dos socialistas.

Depois da vitória de François Hollande, foi nomeado motorista de seu ministro da Economia, Arnaud Montebourg, embora este o tenha despedido uma semana mais tarde por causa de um acidente de trânsito. “Ele quis fugir”, disse Montebourg, que dá uma imagem menos brilhante do passado do jovem do que outros. Depois do incidente, Benalla passou a trabalhar como segurança particular na empresa Velours, fundada por dois policiais. Até que, no verão de 2016, chegou sua grande oportunidade. Macron acabava de deixar o Governo de Hollande e, enquanto preparava seu assalto ao Palácio do Eliseu (sede do Governo francês), ficou sem guarda-costas. Durante a campanha, o jovem se tornou a sombra de Macron. Eles não se separaram mais. O novo presidente, sempre fiel àqueles que, como Benalla, acreditaram nele quando ninguém o fazia, levou-o ao Eliseu, onde passou a cuidar de sua segurança em cerimônias públicas e privadas.

Até que em 18 de julho o jornal Le Monde revelou que o homem violento que foi visto em um vídeo viral dos protestos de 1º de maio, usando um capacete da tropa de choque e uma braçadeira da polícia, era Benalla. O Eliseu admitiu saber dos fatos desde o primeiro momento, mas não disse nada e apenas o suspendeu do trabalho e do salário por 15 dias e rebaixou suas funções, que ainda assim lhe permitiram manter um lugar privilegiado no círculo presidencial mais íntimo. A bomba midiática tinha explodido e o Eliseu não soube –ou não quis– medir a força da deflagração.

A tensão aumentou quando a imprensa revelou seus privilégios. Especialmente o apartamento que ocupava no palácio de l’Alma, um complexo residencial exclusivo reservado a muito poucos trabalhadores do Eliseu. O imóvel situado no número 11 do Quai Branly é um dos grandes símbolos do secretismo presidencial francês. Lá François Mitterrand instalou durante anos sua amante e a filha de ambos, Mazarine, que manteve em segredo até quase sua morte, com a conivência de uma imprensa que não disse nada. O fato de haverem lhe dado um apartamento lá –Benalla recebeu as chaves este mês, depois de sua atuação condenável– é considerado outra demonstração de sua proximidade com Macron.

Depois de tudo o que foi dito e escrito sobre ele, Benalla iniciou seu contra-ataque. Em dois dias deu duas entrevistas, primeiro ao Le Monde, o mesmo jornal que revelou o escândalo, e depois no horário nobre da rede de televisão TF1. Ele mudou cuidadosamente sua imagem: raspou a barba e os óculos delicados e o terno com gravata são agora parte de seu novo visual. Longe do moletom e da braçadeira policial que usava nos vídeos da agressão. Uma encenação na qual o próprio Eliseu poderia estar por trás. O Le Monde destacou na entrevista que Benalla veio acompanhado por Mimi Marchand, dona de uma das mais prestigiadas agências de paparazzi da França e assessora extraoficial da Macron desde os tempos de campanha.

O jovem procurou proteger o ex-patrão tentando se distanciar do presidente. “Não sou uma pessoa próxima, mas um colaborador”, diz. O ensaísta e assessor Édouard Tétreau, próximo de Macron, reconhece a “decepção” e a “incompreensão” gerada por esse caso, que exigirá, como prometeu o presidente, reformas no Eliseu. “Os franceses esperavam um presidente absolutamente exemplar, que rompesse com as práticas do passado e há uma impressão de que ele as retomou”, afirma. Mas enfatiza ao mesmo tempo que não se deve perder a perspectiva. Apesar de alguns membros da oposição terem visto por trás da figura de Benalla uma “polícia paralela”, o caso não tem nada a ver com as estruturas erguidas na sombra por presidentes como Charles de Gaulle com seu Serviço de Ação Cívica ou a célula Antiterrorista criada por Mitterrand no Eliseu e que, entre outros escândalos, fez mais de 3.000 escutas ilegais para proteger a identidade de sua filha secreta.

Moções de censura

O caso Benalla foi considerado grave o suficiente para abrir uma investigação judicial, outra administrativa e uma política na Assembleia Nacional, que na próxima semana também discutirá duas moções de censura – uma apresentada pela direita e outra pelos partidos de esquerda– contra o Governo. Embora não tenham possibilidades de sucesso dada a maioria parlamentar de Macron, René Dosière, presidente do think tank Observatóirio da Ética Pública, adverte que o caso Benalla pode causar sérios problemas a uma das prioridades do presidente: a reforma constitucional com a qual planeja reduzir o número de deputados e senadores e limitar seus mandatos, que será discutida depois do verão.

Com exceção do partido do Governo, a reforma “é percebida como uma maneira de limitar o poder do Parlamento, de enfraquecê-lo”, enfatiza o veterano parlamentar socialista. E o caso Benalla, no qual “vemos os efeitos um pouco onipotentes do poder do Eliseu”, permitiu-lhes mostrar que “o Parlamento, assim como a imprensa, pode desempenhar o papel de contrapoder, controlando os excessos do Executivo”.

MAIS INFORMAÇÕES