Análise
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Macron, um rei sem coroa

Já foi comparado a Napoleão, mas a figura que inspira o presidente francês é a de um monarca. Nesta semana, remodelou seu Governo. Sua autoridade agora é vista como autoritarismo

Emmanuel Macron na sua posse como presidente da República, em maio de 2017.
Emmanuel Macron na sua posse como presidente da República, em maio de 2017.Charles Platiau (Afp / getty)

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Foi um atraso a mais, que não se destacaria, não fosse por ter se tornado habitual.

O presidente francês, Emmanuel Macron, chegou 20 minutos atrasado ao encontro com os reis da Espanha no Grande Palais de Paris, onde visitariam juntos uma exposição de Miró. O carro oficial de Felipe VI e Letizia ficou dando voltas pelas ruas próximas até que Macron e sua esposa, Brigitte, chegaram. Era 5 de outubro. Não era a primeira vez que ocorria — em julho, Macron compareceu com uma hora e 15 minutos de atraso a um jantar no Palácio Real de Madri. O incidente não tem maior gravidade, mas é revelador. Da arbitrariedade com que Macron administra seu tempo. E do paradoxal caráter monárquico que envolve a instituição da presidência da República Francesa.

Se houver desconfiança, a autoridade se torna autoritarismo; a audácia, capricho; e o rei sábio, príncipe sabichão

Emmanuel Macron quis ser um rei: sem dizer com estas palavras, argumentou nesse sentido antes de chegar ao poder. Agora, a coroa lhe pesa: ou parece muito arrogante, ou muito familiar, e os franceses se impacientam. Nesta semana, obrigado pela deserção do ministro do Interior, Gérard Collomb, remodelou o Gabinete: saem quatro ministros e secretários de Estado e entram oito, mas “não há hoje nem um giro nem uma mudança de rumo ou de política”, como disse em uma mensagem televisiva à nação. Tampouco houve mudança em um traço notável dele: a tendência a se cercar de ministros de pouco peso político, a concentrar o poder no palácio do Eliseu, a ser ele o ministro de tudo.

Tudo é teorizado, e a reflexão vale para outros países: que limites o poder presidencial exige? Qual é a linha que separa autoridade de autoritarismo, ou popularidade de populismo? Como exercer o poder num tempo em que este se desagrega, e quem o ostenta sente dificuldade em mandar, numa era do “fim do poder”, como diz o título do livro de Moisés Naím?

Em 2015, quando faltava um ano e meio para que ganhasse o segundo turno das eleições presidenciais, Macron descreveu como concebia o exercício do poder. “A democracia implica sempre que há algo incompleto, porque por si só não basta. No processo democrático e em seu funcionamento há um ausente. Na política francesa, esse ausente é a figura do rei, cuja morte acho que o povo francês fundamentalmente não quis. O terror cavou um vazio emocional, imaginário, coletivo: o rei já não está mais aqui!”, disse numa entrevista à publicação Le 1. Macron falava da revolução de 1789, da execução de Luís XVI em 1793 e do período de violência e repressão. “Mais tarde, tentou-se preencher o vazio, colocar outras figuras: foram, sobretudo, os momentos napoleônico e gaullista”, prosseguia o futuro presidente, aludindo a Napoleão Bonaparte e ao general Charles de Gaulle, fundador da V República, o regime democrático atual. “No resto do tempo, a democracia francesa não preenche esse espaço. Isto se vê bem com o questionamento permanente em torno da figura presidencial, vigente desde a saída do general De Gaulle. Depois dele, a normalização da figura presidencial reinstalou uma cadeira vazia no coração da vida política.”

Macron, depois de ganhar as eleições em maio de 2017, deixou claro que desejava encher o vazio deixado por Luís XVI ao ser guilhotinado. Multiplicou os gestos. A entrada pelo Louvre, na noite eleitoral, solitário e ao som da Ode à Alegria. O passeio pela Champs Elysées após sua posse, num veículo militar aberto. O convite ao presidente russo, Vladimir Putin, para o palácio de Versalhes: a pompa majestosa do Antigo Regime como arma eleitoral. A maioria na Assembleia Nacional que deixava ao país sem uma oposição preparada para a alternância. O desejo de marcar distância do seu antecessor, François Hollande, que se gabava de ser um “presidente normal”, um homem que se olhava no espelho e custava a se ver no cargo. A vontade de ser mais parco que Hollande em palavras, de recuperar uma liturgia que se apagou com o tempo. Por seu ímpeto juvenil, era comparado a Napoleão Bonaparte e ao seu sobrinho, Napoleão III. Por seu afã de acabar com o método do consenso e de governar verticalmente, e por seu interesse pelo Antigo Regime — frequentou Versalhes e a basílica de Saint-Denis, onde estão enterrados os reis franceses —, foi caricaturado como Luís XIV, o Rei-Sol.

Macron exerce o poder e, ao mesmo tempo, continua teorizando sobre ele enquanto constrói o relato de sua presidência

“O ponto de partida de tudo isto não é Macron: são as instituições da V República”, diz em seu escritório Alain Minc, ensaísta, executivo empresarial, conselheiro de presidentes e um dos mentores de Macron. “A França é uma monarquia republicana. E a experiência demonstra que, quando o presidente não entende isto, fracassa. Foi o caso de François Hollande, que se comportou como um primeiro-ministro de coalizão num país escandinavo. Não ocupou a função de presidente, com tudo o que tem de autoritária, como sim fizeram seus antecessores. Isto influiu na filosofia do poder de Macron. Porque esteve no Eliseu com Hollande, e depois no Governo, e viu que o poder presidencial não era usado. Retornou a uma concepção clássica da V República. Macron considerou que a função dispunha de dois atributos: porte e autoridade.”

Macron é um presidente que exerce o poder e, ao mesmo tempo, continua teorizando sobre ele enquanto constrói o relato de sua presidência. Os franceses não sentem apenas saudade do rei morto e aflição por verem o trono vazio; para Macron, “são infelizes quando a política se reduz a uma técnica”. “Gostam que haja uma história. Eu sou a prova viva!”, proclamou em maio passado numa entrevista à revista literária Nouvelle Revue Française. Sua trajetória — o moço do interior que se apaixona por sua professora, 24 anos mais velha, parte para conquistar Paris e acaba se tornando, aos 39 anos, o chefe de Estado mais jovem desde Napoleão — poderia ser o argumento de um romance do século XIX. “Na verdade, não sou senão a emanação do gosto do povo francês pelo novelesco”, comentou.

A trama é literária e quase teológica. Uma reportagem no Le Monde por ocasião do primeiro aniversário de sua presidência se referia à teoria que o historiador Ernst Kantorowicz expôs no clássico Os Dois Corpos do Rei sobre a combinação, na figura do soberano, de um aspecto temporário e humano, e outro institucional e eterno. Seus antecessores imediatos, François Hollande e Nicolas Sarkozy, nunca conseguiram habitar o corpo simbólico e espiritual, dizia o artigo: eram humanos, demasiado humanos. Macron quis reconciliar ambos os corpos: sintetizar o ser humano e o líder que encarnava uma instituição. Daí a importância da liturgia republicana e da busca obsessiva do contato com o povo, esquivando o Parlamento ou o que na França se conhece como corpos intermediários: os sindicatos, as entidades patronais, a sociedade civil.

Os banhos de massas remetem, segundo os assessores do presidente, a outro clássico da história do século XX, Os Reis Taumaturgos, de Marc Bloch. O historiador Bloch estudou os rituais milagrosos praticados, entre os séculos XII e XIX, por monarcas franceses e ingleses, aos quais se atribuía o poder de curar os doentes através do toque de suas mãos. “[Para Macron] tocar é fundamental: é uma segunda linguagem”, disse ao Le Monde seu assessor Bruno Roger-Petit. “É um toque performático: 'O rei te toca, Deus te cura’. Há aqui uma forma de transcendência.”

Macron não faz milagres tocando os seus concidadãos. Mas houve algo de fervor místico na ideia de que a chegada de um presidente jovem e inteligente, alheio aos velhos partidos e com promessas de renovação, serviria para liberar a França do fantasma da decadência e para frear na Europa a onda de populismo e nacionalismo que meses antes havia triunfado nos Estados Unidos com Donald Trump e no Reino Unido com o Brexit. O gesto e o físico — o corpo do rei — eram tão ou mais importantes que o programa.

Houve algo de fervor místico na ideia de que a chegada de um presidente jovem e inteligente serviria para liberar a França do fantasma da decadência

O historiador Stanis Perez, autor do Corps du Roi (“o corpo do rei”), recorda que, ao chegar ao poder, um ano e meio atrás, Macron era o que os romanos chamavam de homo novus: sem experiência, sem cargos eletivos e, até pouco antes, desconhecido. “Foi necessário compensar essa relativa virgindade política com sinais ostensivos”, diz Perez numa entrevista por telefone. O historiador estabelece uma diferença entre a encarnação do poder no corpo do rei durante o Antigo Regime e agora. Em seu apogeu, na época de Luís XIV, o corpo era visível na corte quase sempre. “Tudo era teatralizado, porque tudo era público.” A encenação não desapareceu — é inclusive mais enfática e alcança um público mais amplo que no século XVII —, mas não é completa e está controlada: a corte não assiste ao despertar e ao deitar-se de Macron, como acontecia com Luís XIV. E foi dessacralizada.

O mesmo ocorre com o aspecto taumatúrgico, a capacidade de realizar prodígios. “O contato físico é importante, mas separado de toda espiritualidade e com um contexto laico. Pode parecer uma monarquia, mas é uma monarquia falsa: o espetáculo monárquico sem a espiritualidade”, diz. O perigo do que Stanis Perez chama de “majestade do governante” é que, quando o país funciona, ninguém a questiona. Mas uma vez que se instala a desconfiança, o que parecia autoridade se transforma em autoritarismo; a audácia, em capricho; a originalidade, em incompetência; o talento para ser o primeiro da classe e atuar como ministro de tudo, em isolamento e solidão no palácio presidencial; e o rei sábio em príncipe sabichão e ressabiado. O toque com as mãos — o real, nas pessoas, e a metafórica, no país inteiro — deixa de operar milagres: o presidente já não é crível quando tenta encarnar o corpo místico do rei.

Viu-se isso há alguns meses, quando Macron repreendeu um adolescente por chamá-lo de Manu, em vez de monsieur le président. Macron reafirmava a função presidencial, o corpo institucional do rei. Mas o verdadeiro rei não precisa recordar que é o rei: o é, apenas, porque a autoridade não se reivindica, se exerce. Não é simples manter o porte presidencial com a proliferação de fotos, selfies e declarações extemporâneas em todo tipo de situações. Casos como o do ex-chefe de segurança de Macron, Alexandre Benalla, gravado enquanto agredia manifestantes em 1º de maio, expõem os perigos do monarquismo republicano: a possibilidade de que o presidente se cerque, sem fiscalização, de pessoas sem a experiência adequada em cargos de responsabilidade.

“Há dois sentimentos entre os políticos e, sobretudo, entre os presidentes franceses: de impunidade para os que cometem infrações, de que nunca se verá o que fazem; e que estão acima de tudo e que, como são presidentes, podem dizer: ‘Eu quero isto, e é assim’”, diz Béatrice Houchard, autora do livro Le Fait du Prince (“o capricho do príncipe”, um retrato dos presidentes da V República por meio de suas decisões arbitrárias). “Diria que [Macron] caiu dois ou três degraus do trono”, comenta, resumindo os últimos meses.

O presidente da República, esse rei republicano mais poderoso em seu país que seus homólogos ocidentais, descobre que as margens de manobra são estreitas, que o trono é frágil. Não é o único, nas democracias assombradas pelo populismo e o nacionalismo. A necessidade de teorizar sobre o poder e de escrever a história do poder ao mesmo tempo em que o exerce reflete um vazio. Não o do rei, e sim o de um poder que já não é mais o mesmo. O que o substitui? Os mitos, o relato e o romance: a literatura. Antes que presidente, Macron quis ser escritor.

Parlamento fraco

Desde o começo da V República – cuja Constituição, ainda em vigor, completa 60 anos – fala-se em "monarquia eletiva", "Constituição despótica" e "golpe de Estado permanente", recorda o cientista político Pierre Rosanvallon em seu livro Le Bon Gouvernement ("o bom governo"). Ele, citando outro livro de referência, A Monarquia Republicana, de Maurice Duverger, aponta que o modelo francês, com um chefe de Executivo forte legitimado pelas urnas, e um Parlamento fraco, estendeu-se a outras democracias parlamentares, onde também o primeiro-ministro foi se personalizando e se presidencializando. Alerta para o risco de que essa presidencialização "tenda mecanicamente a certo iliberalismo". E acrescenta: "A hierarquia implícita entre a legitimidade frágil do Poder Legislativo, expressão de divisões partidárias e portanto essencialmente dividido, e a legitimidade forte do Executivo, esteve no coração da visão gaullista".

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