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Macron enfrenta primeiros protestos e greves contra a reforma trabalhista

Manifestações em toda a França refletem, nesta terça-feira, a insatisfação social com o novo presidente

Manifestantes durante protesto contra reforma trabalhista
Manifestantes durante protesto contra reforma trabalhista REUTERS

Emmanuel Macron enfrentou nesta terça-feira o seu primeiro teste nas ruas. A jornada de greves e manifestações, convocada pelo sindicato SGT e outras centrais minoritárias, permitirá dimensionar a insatisfação social com um presidente que venceu as eleições com a promessa de transformar a França. O objetivo dos protestos é frear uma reforma trabalhista que, entre outras medidas, facilita a contratação e a demissão. Macron conta com uma confortável maioria no Parlamento e já disse que manterá seus planos de adotar as novas leis no final do mês. Uma recente declaração do presidente, qualificando os críticos da reforma de “preguiçosos”, deixou mais tenso o ambiente prévio aos protestos.

Dezenas de milhares de pessoas fizeram passeatas em várias cidades francesas. Em Paris, entre a Praça da Bastilha e a Porta da Itália, foram 24.000 manifestantes, segundo os organizadores; ou 60.000, pelos cálculos da CGT. De todo jeito, uma cifra inferior à da primeira manifestação contra a reforma trabalhista do presidente Françoise Hollande, em março de 2016. O protesto de Paris terminou com alguns incidentes e gás lacrimogêneo. Foi uma manifestação multitudinária, festiva em quase todo o seu percurso, mas não maciça. Portanto, dificilmente fará Macron desistir de continuar com seu programa de reformas.

Coincidindo com o protesto, Macron viajou ao território francês de Saint-Martin, nas Antilhas, devastado pelo furacão Irma. A visita respondia à urgência pela catástrofe natural. Mas também era um sinal de que o presidente virou a página da reforma trabalhista (já a considera aprovada e não quer mudar nem uma vírgula) e deseja se dedicar a outros assuntos. Nos últimos dias, ele e seu Governo multiplicaram os anúncios sobre as próximas reformas, por exemplo em matéria de tributos e seguridade social. Nos canais de TV franceses, as imagens das ruínas de Saint-Martin competiam nesta terça com as dos protestos sindicais.

A CGT e outros organizadores convocaram 180 marchas em todo o país, além de uma greve em 4.000 empresas. A iniciativa afetou sobretudo o setor de transportes, mas não paralisou o país. Os sindicatos estavam divididos. Dos três grandes, só participa a CGT – a mais esquerdista. Os líderes do reformista CFDT e da Força Operária (FO) desistiram de participar, embora membros desta última se manifestem junto com a CGT. O protesto teve também a presença do líder da esquerda alternativa na Assembleia Nacional, Juan-Luc Mélenchon.

As palavras de ordem não eram apenas contra a reforma trabalhista, mas também contra outras medidas do presidente. Em certos momentos, parecia mais uma manifestação contra Macron do que contra a reforma. Semana passada, durante sua visita à Grécia, Macron afirmou: “Não cederei ante os preguiçosos, os cínicos nem os extremos.” A palavra fainéants (preguiçosos, vagabundos) foi considerada ofensiva por muitos franceses, embora Macron possivelmente a tenha utilizado, no contexto do seu discurso, para designar os políticos que, em vez de trabalhar pelas reformas, preferem ficar de braços cruzados. Os manifestantes utilizaram o termo em seu slogan. “Preguiçosos do mundo, uni-vos”, dizia um cartaz irônico. “Elogio à preguiça”, dizia outro.

A reforma trabalhista é o primeiro grande projeto legislativo da presidência do centrista Macron. Em 31 de agosto, o primeiro-ministro Édouard Philippe apresentou as cinco ordenanças da reforma. Trata-se de textos legislativos que podem ser aprovados sem passar pelo processo de debates e emendas do Parlamento. O Governo as submete aos congressistas, e estes as adotam ou rejeitam. A reforma estabelece limites para as indenizações por demissão sem justa causa; oferece mais liberdade às multinacionais para despedir trabalhadores em caso de crise; agiliza a negociação trabalhista nas pequenas empresas, que podem selar acordos sem a intervenção dos sindicatos; e simplifica as instâncias de negociação dentro das empresas.

A jornada de protestos e greves é a primeira das várias de setembro. A CGT prepara outra manifestação para o próximo dia 21. E, para o dia 23, a França Insubmissa (partido de Mélenchon) convocou uma enorme marcha em Paris. Junto com Philippe Martinez, chefe da CGT, Mélenchon se apresenta como o principal opositor às reformas de Macron, que considera um “golpe de Estado social”. Em Marselha, onde participou da manifestação local, Mélenchon declarou nesta terça ter esperanças de que os protestos farão o Governo recuar. Talvez seja tarde demais. Com a popularidade em baixa, para Macron essa seria a primeira vitória legislativa verdadeira de sua presidência. A primeira de uma série de reformas fundamentais em seu plano para relançar a França.

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