Jamal Khashoggi

Londres, Berlim e Paris censuram Riad pelo ‘caso Khashoggi’

Alemanha suspende a venda de armas a Arábia Saudita enquanto não se esclareça a morte do jornalista

A prêmio Nobel da Paz iemenita, Tawakkol Karman (centro), em um protesto dia 8 em Istambul, quando a morte do jornalista ainda era desconhecida.
A prêmio Nobel da Paz iemenita, Tawakkol Karman (centro), em um protesto dia 8 em Istambul, quando a morte do jornalista ainda era desconhecida.OZAN KOSE (AFP)

A sentença, com matizes, é parecida em Paris, Londres e Berlim, e inclusive, com as particularidades próprias de Trump, em Washington. Todos são céticos com a versão da Riad. O regime sustenta que o jornalista morreu no contexto de uma discussão no consulado.

A versão saudita deixa perguntas abertas, como o paradeiro dos restos mortais de Khashoggi, e contradiz os dados filtrados pela investigação turca, que aponta que o jornalista foi torturado e esquartejado. Em qualquer caso, procura exonerar o homem forte na Arábia Saudita, o príncipe herdeiro Mohamed bin Salman (MBS), bem acolhido por líderes ocidentais durante sua viagem na última primavera nos Estados Unidos e na Europa.Como responder ao crime, além da palavra, ameaças e comunicados velados, é o que gera discordância entre os aliados ocidentais. No centro do debate está a exportação de armas para a Riad, que já estava em questão desde antes da morte de Khashoggi, por seu uso na guerra do Iêmen. Agora, a pressão para revisar essa aliança militar aumentará.

Mais informações

A resposta mais drástica foi dada neste domingo pela Alemanha. "Com relação às exportações de armas para a Arábia Saudita, elas não podem ocorrer nas atuais circunstâncias", disse Angela Merkel em entrevista coletiva, segundo a Reuters.

A Riad é o segundo maior cliente da indústria de defesa alemã, depois da Argélia. Até 30 de setembro de 2018, o governo havia emitido licenças de exportação no valor de 416,4 milhões de euros.

O debate na Alemanha sobre a revisão das relações com a Riad é intenso. "Eu não sei se temos que congelar todas as relações, mas, em qualquer caso, acho que devemos permanecer extremamente críticos das exportações de armas para a Arábia Saudita", acrescentou o ex-ministro das Relações Exteriores, o social-democrata Sigmar Gabriel, à emissora alemã Deutschlandfunk.

Um proeminente militante da CDU, o partido de Merkel, propôs, além de suspender a exportação de armas, estudar a expulsão de diplomatas sauditas. "No caso de que a Arábia Saudita não tome as medidas necessárias, o Governo alemão deveria organizar-se com os seus parceiros na União Europeia e na OTAN para chegar a acordos na arena diplomática, como a expulsão dos funcionários da embaixada saudita", observou Norbert Röttgen em entrevista ao Welt am Sonntag.

Ao anunciar a suspensão das vendas de armas, Merkel retomou alguns dos argumentos do comunicado dos ministros das Relações Exteriores francês, alemão e britânico, publicados no mesmo dia, mas foi além.

"Tomamos nota da declaração da Arábia Saudita apresentando as conclusões preliminares [da investigação sobre a morte de Khashoggi]. No entanto, é urgente esclarecer exatamente o que aconteceu no dia 2 de outubro", diz o comunicado à imprensa de Paris, Berlim e Londres. Os ministros exigem das autoridades sauditas "esforços suplementares", que são "necessários e esperados para estabelecer a verdade de maneira abrangente, transparente e confiável". "Pedimos que a investigação continue em profundidade até que as responsabilidades sejam claramente estabelecidas e os responsáveis respondam", acrescentam.

O comunicado conclui recordando que "a qualidade e relevância" das relações bilaterais depende do respeito de "normas e valores" que, "sob a lei internacional", comprometem tanto os sauditas quanto os europeus.

Dúvidas de Washington

No caso dos Estados Unidos, Trump não chegou a decidir qual versão considera verídica no momento em que enfrenta uma das maiores crises internacionais em seus quase dois anos como presidente. Não ajuda o fato de que quem está sob suspeita seja um aliado estratégico de Washington e amigo pessoal do clã Trump. O genro do presidente, Jared Kushner, mantém amizade com MBS.

Com seu caráter impulsivo e volúvel, Trump foi mudando sua versão sobre o que teria acontecido com Khashoggi, o jornalista saudita que vive nos EUA, por criticar o regime do seu país. Até agora, a declaração mais difícil foi feita no sábado à noite para o jornal The Washington Post, onde Khashoggi era colunista. "Obviamente, houve enganos e mentiras", disse ele. E ainda, na mesma conversa, o presidente continuou defendendo o país ao que fez sua primeira viagem oficial como um "aliado credível" e deixou aberta a possibilidade de que a morte de Khashoggi não teria acontecido a partir de uma ordem direta de MBS.

A administração republicana valoriza a importância de um aliado como a Riad para conter o Irã. Se o relacionamento da Casa Branca com o regime saudita enfraquecer, a influência de Washington no Oriente Médio será ainda mais diluída. E nesse tabuleiro geopolítico entra a Rússia, cuja influência cresce na região. Trump enfatizou que, seja qual for a punição para a Arábia Saudita, não deve afetar contratos de milhões de dólares para a venda de armas. O caminho alemão não é o norte-americano.

Erdogan promete que contará “toda a verdade” nesta terça-feira

AGENCIAS

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, afirmou no domingo que revelará na terça-feira "toda a verdade" sobre o assassinato de Jamal Khashoggi.

“Farei declarações sobre o assunto na terça. Queremos que se faça justiça. Esse [caso] será revelado com todos os seus detalhes”, disse Erdogan em um discurso em Istambul transmitido ao vivo pela televisão.

O presidente fez várias perguntas referentes à versão dos fatos dada no sábado por Riad, que concluiu que o jornalista morreu em uma briga no consulado: “Por que vieram [a Istambul] as 15 pessoas [sauditas no dia da morte de Khashoggi]? Por que 18 foram presas [na Arábia Saudita]? De quem o mundo está falando agora?”. “Na terça-feira falarei disso de uma forma muito diferente”, afirmou.