Os pontos-chave do sumiço do jornalista na Turquia: uma serra, 15 sauditas e uma investigação duvidosa

O caso de Jamal Khashoggi, crítico do regime saudita, cujo rastro se perdeu há duas semanas, abriu uma crise diplomática em que estão envolvidos Riad, Ancara e Washington

Jamal Khashoggi, em dezembro de 2014.
Jamal Khashoggi, em dezembro de 2014.MOHAMMED AL-SHAIKH (AFP)

O desaparecimento de Jamal Khashoggi, um veterano jornalista saudita crítico do regime que governa seu país com mão de ferro, se transformou em uma crise política e diplomática com consequências imprevisíveis. Seu rastro foi perdido em 2 de outubro, quando entrou no consulado saudita em Istambul em busca de alguns documentos. Desde o primeiro momento, o Governo turco disse que tudo indicava que o jornalista teria sido assassinado no prédio, o que a Arábia Saudita negou.

A intervenção de Donald Trump, que enviou seu secretário de Estado, Mike Pompeo, para se reunir com as autoridades sauditas aumentou a pressão sobre o grande parceiro histórico dos Estados Unidos no mundo árabe, que agora poderia estar disposto, segundo a mídia norte-americana, a reconhecer que Khashoggi morreu por erro durante um interrogatório.

O enviado de Trump se reuniu nesta terça-feira com o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, para discutir o papel de Riad no desaparecimento do jornalista.

Estes são os pontos-chave do caso:

Um crítico do herdeiro saudita desaparece em Istambul

O mistério envolve o desaparecimento, em 2 de outubro, do jornalista crítico do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohamed Bin Salman. O rastro de Jamal Khashoggi, exilado nos Estados Unidos durante um ano e colaborador do The Washington Post, foi perdido depois que entrou no consulado de seu país em Istambul (Turquia) para obter documentos para se casar com sua namorada, uma cidadã turca.

Quem é Jamal Khashoggi e por que é importante?

Jamal Khashoggi começou a escrever no The Washington Post e a participar de debates acadêmicos e televisivos sobre as mudanças que estavam ocorrendo em seu país. Isso lhe deu maior projeção internacional, mas também um problema: o rótulo de dissidente.

Os Khashoggis: estirpe turca, traficantes de armas, escritores...

O jornalista temia por sua segurança. Khashoggi é de uma família de origem turca que deu ao Reino do Deserto médicos, empresários e intelectuais, e cujo patriarca, Mohamed Khashoggi, era médico pessoal do rei Abdulaziz Bin Saud, fundador da moderna Arábia Saudita. Na família há desde traficantes de armas a uma escritora, Samira Khashoggi, mãe de Dodi al Fayed, último namorado de Lady Di. 

Medo, 15 sauditas e uma serra

Khashoggi foi ao consulado saudita em 28 de setembro, mas as autoridades lhe disseram para voltar outra hora. No dia do seu desaparecimento (2 de outubro), ele começou a temer que uma armadilha estivesse sendo preparada e disse isto à namorada e à BBC. Nesse mesmo dia, 15 sauditas viajaram para a Turquia: às 12h14 chegaram ao consulado, no qual Khashoggi mais tarde entrou. Ele não foi visto novamente. Ancara suspeita que seu corpo foi desmembrado com uma serra.

Um fórum econômico saudita, alvo de boicote

Ao pedido de explicações do Reino Unido e França, nos últimos dias, se somou a retirada do evento Future Investment Initiative (FII, programado para o período de 23 a 25 de outubro) do Uber, The Economist, representantes do The New York Times, CNN e Bloomberg. Também do presidente do Banco Mundial, entre outros.


Trump sugere que os responsáveis pelo desaparecimento poderiam ser “assassinos” que atuam por conta própria

Trump disse no domingo, 14 de outubro, que o que aconteceu com Khashoggi é "repugnante" e promete uma "severa punição" à Arábia Saudita se as suspeitas sobre o assassinato de Khashoggi forem confirmadas. Na segunda-feira, depois de uma conversa telefônica com o rei Salman, na qual este lhe garante que não sabe nada sobre o assunto, o presidente norte-americano sugere que os responsáveis podem ser "assassinos" agindo por conta própria.

Estados Unidos - Turquia - Arabia Saudita

Trump envia seu secretário de Estado, Mike Pompeo, à Arábia Saudita na segunda-feira, 15 de outubro. Logo em seguida, Riad anuncia uma investigação interna do caso Khashoggi, na qual se prevê que reconhecerá que o jornalista crítico do regime morreu durante um interrogatório.