A arriscada política da Arábia Saudita

Endurecimento da política externa de Riad para dominar a região e agradar aos setores ultraconservadores do reino ameaça a estabilidade do mundo árabe

O rei Salman conversa com seu filho Mohamed Bin Salman, em 2012.
O rei Salman conversa com seu filho Mohamed Bin Salman, em 2012.Hassan Ammar (AP)

Às vésperas da chegada ao poder do rei Salman completar um ano, a Arábia Saudita gerou mais manchetes que durante toda a década anterior. E não (apenas) sobre a lamentável situação dos direitos humanos ou a segregação das mulheres, mas também, surpreendentemente, por sua política externa. Com a intervenção no Iêmen, o novo monarca deu uma guinada na tradicional discrição que o Reino do Deserto até então adotava para fazer seus interesses avançarem e minar os de seus rivais. A tal ponto que no mês passado o serviço secreto alemão (BND) tomou a decisão, não usual, de emitir nota alertando que o país se arrisca a desestabilizar o mundo árabe.

O BND atribui a nova política de “intervenção impulsiva” às lutas internas dos Al Saud e ao desejo de liderar o mundo árabe. Uma semana somente depois de subir ao trono, Salman redistribuiu o poder entre os diferentes ramos da família real, pondo homens de sua confiança no sistema de segurança. Mas a nomeação mais importante foi a de seu filho favorito, Mohamed Bin Salman, como segundo na linha sucessória, ministro da Defesa e presidente da macrocomissão encarregada da reforma econômica e da empresa nacional de petróleo, Aramco.

Nunca antes um príncipe tinha acumulado tanto poder. Isso e sua juventude -apenas 30 anos numa sociedade que vincula a idade à sabedoria (o rei tem 80)- provocaram receios, levando até a que príncipes de destaque escrevessem cartas pedindo a substituição do monarca. Muitos analistas atribuem à inexperiência de seu filho as decisões mais arriscadas, como a guerra no Iêmen.

Logo ficou claro que o Iêmen era só o começo. A doutrina Salman, como a batizou o colunista saudita Jamal Khashoggi, estende-se por toda a região. Quase ao mesmo tempo que Riad montava a todo vapor a coalizão para frear os rebeldes Huthi num país que considerava como seu quintal, tentava também formar uma força militar árabe e reforçar economicamente seus aliados sacudidos pelas primaveras, em especial o Egito. Mais recentemente anunciou uma grande coalizão islâmica de combate ao terrorismo de tão incerta materialização como o outro projeto. Também na Síria, onde desde 2011 financia grupos contrários a Bashar al-Assad, redobrou sua aposta, com a criação de uma nova força para se juntar a eles, a Jaish al Fatah.

Esta repentina necessidade de agir vem da convicção de que o Ocidente abandonou o reino

Essa repentina necessidade de tomar a iniciativa e agir vem da convicção da monarquia de que os Estados Unidos, seu protetor histórico (e o Ocidente em geral), abandonaram o reino face ao extremismo do Estado Islâmico (EI) e do expansionismo do Irã. A obsessão com esse vizinho não árabe com que a Arábia Saudita disputa a hegemonia regional chegou ao paroxismo e é subjacente ao enfrentamento sectário entre xiitas (apadrinhados por Teerã) e sunitas (patrocinados por Riad), que faz o Oriente Médio sangrar.

Numerosos sauditas, e não apenas da família governante, sentem que o Irã se beneficiou das mudanças estratégicas ocorridas na região desde o início deste século. As intervenções militares dos EUA no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003), as revoltas da primavera árabe (2011) e, finalmente, o acordo nuclear foram derrubando os muros que continham o regime iraniano, que tem estendido sua influência graças à afinidade religioso-cultural com as comunidades xiitas. Por isso a maioria aplaudiu a intervenção no Iêmen, incluindo os islamitas (sunitas) dissidentes.

Pela mesma razão, fora da minoria xiita (cerca de 10% dos 20 milhões de sauditas), há críticas apenas à recente execução do xeque Nimr Baqr al Nimr, que provocou o último atrito com o Irã e o rompimento das relações diplomáticas. No exterior, alguns observadores comparam o reino a um animal ferido e falam numa saída adiante capaz de desencadear uma guerra. Isso não interessa aos Al Saud, concentrados em preservar o poder nas mãos da família.

Protestos em Teerã motivados pela execução, pelo regime saudita, do clérigo xiita Al Nimr.
Protestos em Teerã motivados pela execução, pelo regime saudita, do clérigo xiita Al Nimr.Vahid Salemi (AP)

“Uma guerra entre Arábia Saudita e Irã [seria] o começo de uma catástrofe maior na região e teria graves efeitos sobre o resto do mundo”, admitiu o príncipe Mohamed em entrevista à revista The Economist. “Não permitiremos isso.”

Na verdade, a maior ameaça ao regime saudita não vem da outra costa do golfo Pérsico, e sim dos ultraconservadores de sua própria maioria sunita, entre os quais historicamente busca sua legitimidade. Esses setores, hostis ao Irã xiita e aos ativistas que, como o xeque Al Nimr, defendem os direitos civis, são ideologicamente muito próximos dos extremistas que já atacaram o reino, primeiro sob a bandeira da Al Qaeda e mais recentemente, do EI.

Assim, para a monarquia, reanimar a tradicional inimizade com o Irã e com os xiitas tem também uma utilidade interna –mostrar-lhes que está do seu lado e que não precisam de outro padrinho. Especialmente num momento crítico como o atual, em que o delicado processo de sucessão dos filhos pelos netos de Abdulaziz Ibn Saud, o fundador do moderno reino saudita, coincide com uma situação econômica que exige profundas reformas devido aos baixos preços do petróleo.

Esse maná financiou um generoso Estado de bem-estar, que os sauditas consideram um direito de nascença, em troca de renunciar à participação política. Com o barril de petróleo rondando os 30 dólares, é impossível manter um sistema que, além de ser muito caro, gera indolência e apatia entre seus beneficiários. O desafio que precisa ser enfrentado por Salman, que o delegou a seu filho, é conseguir a transformação de uma economia rentista numa moderna e competitiva, sem ceder o poder absoluto da família. Por isso, busca o apoio público.

O confronto com o Irã é uma aposta muito perigosa. Sem tirar do último sua cota de responsabilidade em algumas crises regionais, corre o risco de aumentar seu envolvimento até onde é mais baixo do que se pretende e de converter o sectarismo num monstro com vida própria. Mesmo descartando o extremo da guerra entre os dois rivais, as consequências da deterioração de suas relações já afetam a região.

Mais evidente que tudo é a incapacidade de cooperação entre os dois na luta contra o Estado Islâmico, um inimigo comum. Enquanto Teerã o considera fruto da ideologia wahabita (estrita interpretação do islamismo oficial no reino) e do financiamento pelas petromonarquias, Riad o vê como reação à brutalidade de Al-Assad na Síria e às políticas sectárias do ex-primeiro-ministro Nuri al Maliki no Iraque, ambos aliados do Irã. Isso alimenta o receio saudita frente à pressão ocidental para chegar a um acordo com o presidente sírio que permita derrotar o EI, o que, em sua opinião, daria asas ao Irã.

Barack Obama e o rei Salman em Riad em janeiro de 2015.
Barack Obama e o rei Salman em Riad em janeiro de 2015.Carolyn Kaster (AP)

Embora a disputa se estenda a outros conflitos na região, é na Síria que se disputa a partida principal. As próximas conversações sobre esse país, previstas para Genebra antes do fim do mês, mostrarão até que ponto há a vontade de chegar a um compromisso, ou há o risco de a má vontade se tornar um (perigoso) modo de vida. As mensagens até agora são contraditórias.