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Uma eleição à sombra do medo e do incentivo à desconfiança pelos bolsonaristas

Nas ruas, a votação foi marcada por silêncio. Nas redes sociais, bolsonaristas, entre eles os filhos do candidato, levantam suspeita de fraude no processo de votação

Crianças olham para urna eletrônica durante sessão em colégio eleitoral de São Paulo.
Crianças olham para urna eletrônica durante sessão em colégio eleitoral de São Paulo. AP

Enquanto nas ruas a festa da democracia foi discreta, nas redes sociais, o palco real da campanha nos últimos meses, bolsonaristas, entre eles os filhos do candidato, propagavam a suspeita de fraude no processo de votação. Flávio Bolsonaro, o filho do candidato do PSL, chegou a compartilhar um vídeo mostrando uma suposta fraude na urna e acabou desmentido pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), que fez rapidamente uma espécie de CSI eleitoral para dissecar a montagem do vídeo.

A sequência divulgada pelo filho de Jair Bolsonaro em seu Twitter mostrava a filmagem de uma urna eletrônica em que um eleitor apertava o número "um" e, imediatamente, aparecia a imagem do petista Fernando Haddad (PT). A postagem, amplamente compartilhada, ajudou a promover as acusações de que as urnas eletrônicas não eram confiáveis, um discurso repetido há anos pelo militar reformado, defensor do voto impresso, e que ganhou fôlego nas vésperas da votação para sustentar a afirmação de Bolsonaro de que não aceitaria um resultado que não fosse a vitória dele –ele voltaria atrás na ameaca. No Twitter, #FraudeNasUrnasEletronicas chegou ao topo do trending topics.

Diante disso, o TRE-MG, Estado onde estaria a suposta urna fraudada, divulgou um vídeo no Twitter, feito por um técnico do órgão, provando que a imagem, na verdade, é falsa, e foi alterada antes de ser divulgada. O Tribunal Superior Eleitoral também divulgou uma nota, em que afirmou que o vídeo é falso. "Os vídeos não mostram o teclado da urna, onde uma pessoa digita o restante do voto. Não existe a possibilidade de a urna auto completar o voto do eleitor". Diante das respostas, Flávio Bolsonaro decidiu apagar sua mensagem, substituindo-a por outra em que colocava em dúvida o esclarecimento dado. "Mesmo que a explicação sobre a veracidade do vídeo não tenha sido clara, meu objetivo de alertar ao TSE foi atingido, logo, retirei a postagem do vídeo". Ele também voltou a insistir na tese de sue pai: "Se houvesse o voto impresso, nada disso estaria acontecendo."

O outro filho de Bolsonaro, Eduardo, também havia questionado a legitimidade do processo, orientando os seus seguidores, inclusive, a filmarem as urnas, o que é ilegal. "Prezados, em caso de problemas com a urna filmem, de preferência gravem lives e falem o estado zona e seção onde está ocorrendo o problema."

A calma das ruas

Em meio a chuva e o frio desta manhã, o Fla x Flu eleitoral deu lugar ao silêncio na periferia de São Paulo. Eleitores apressados preferem não falar sobre as eleições ou apenas lamentam os candidatos escolhidos.

"Essa é a primeira eleição em que penso em não votar em ninguém", afirma Nivaldo Mascarenhas da Silva, 51 anos, que geralmente é eleitor do PT. "Toda eleição eu voto e fico insatisfeito, mas acho que Bolsonaro vai ganhar porque prometeu combater a criminalidade", afirma. Ele acompanhou sua esposa à escola estadual João Maria Pires de Aguiar, na Vila Campestre, e ainda não havia se decidido se iria ou não votar em seu colégio eleitoral. “Se eu for, talvez vote no Haddad. Mas é aquilo, a gente vota e se arrepende”, lamenta.

Fernando Vieira Bispo, 40 anos, eleitor do PT.
Fernando Vieira Bispo, 40 anos, eleitor do PT.

Janaína Santos Juvenal, 25 anos, também foi às urnas sem convicção. "Estou completamente insegura. Anulei todos. Verei no segundo turno", afirma. Mãe de quatro crianças, Janaína gostaria que educação e segurança fosse prioridade dos candidatos. “Tenho medo de sair na rua".

O alagoano Genival Viana, de 53 anos que trabalha há mais de 20 como motorista em São Paulo, votará às 16h na capital paulista, mas ainda não sabe em qual candidato. "O Lula foi um pai para as pessoas pobres do Nordeste, mas não gosto do [Fernando] Haddad (PT), porque ele instaurou a indústria da multa em São Paulo. As duas únicas multas que levei na vida foram quando ele foi prefeito", conta ele, que lembra que o no sítio em que nasceu, no interior de Alagoas, não tinham água encanada nem eletricidade. "Depois de Lula, vou lá e hoje na casa tem até uma TV de um tamanho que nem sabia que existia".

Outro presidenciável em quem Viana não vota "de jeito nenhum" é Jair Bolsonaro (PSL). "Ele agride mulher, é um cara muito linha dura. Não dá".

O motorista mostrou à reportagem um pedaço de papel onde os passageiros que levou neste domingo anotaram indicações de candidatos nos quais não votar: o número 17 (de Bolsonaro) é o que mais aparece, ao lado do 45 de João Dória, que concorre ao governo de São Paulo. O motorista trabalha com a rádio ligada para informar-se sobre o panorama político. Diz que em um eventual segundo turno entre Haddad a e o candidato do PSL ainda não imagina o que fazer. "A esperança é que o Ciro chegue lá, né?", comenta.

Outro eleitor tradicional do PT, Fernando Vieira Bispo, 40 anos, optou por diversificar neste ano. "Ainda voto 13 para presidente e governador porque acho que o PT tem força para fazer diferente, mas nos outros votei em partidos diferentes. Não dá mais para deixar nas mãos de um grupo só". O único candidato que Bispo rejeita é Jair Bolsonaro. "Acho uma imbecilidade votar em alguém que não respeita as mulheres", afirma.

A dúvida dá o tom das eleições. Vivian Peres de Andrade, 35 anos, só vai decidir em quem votar na hora em frente a urna eletrônica. “Estou em dúvida entre [Guilherme] Boulos e Bolsonaro”, afirma em relação a dois candidatos totalmente opostos. Geane Ferreira, 27 anos, também afirma que ainda está pensando. “Devo ir de Bolsonaro, que é o menos pior, porque falar que é bom é difícil”.

O ex-empresário Vivaldo Cardoso de Araújo, 60 anos, aposta que Ciro Gomes é o único que tem capacidade para manter o governo. “Ele foi bom no Ceará. Na época do Lula eu fechei minha firma de mecânica. Tive um problema de saúde e me aposentei com salário de fome. Ninguém me ajudou”, conta.

Araújo também não acredita que Bolsonaro, candidato que está a frente das pesquisas na corrida eleitoral, ou Haddad possam ser bons presidentes. “Fui investigador, militar não faz nada pelos outros. Ele [Bolsonaro] está mais preocupado em mexer com ‘viado’. O que ele tem a ver com a vida dos outros?” Já sobre Haddad, Araújo é taxativo: “Onde já se viu preso comandar o país”, afirma, em relação a proximidade do candidato do PT com o ex-presidente Lula, preso em Curitiba.

Uma eleitora, que prefere não se identificar, afirmou que tem medo de um Governo de Jair Bolsonaro. “Ele é uma pessoa muito extremista, mas dá mais medo das pessoas que vão se sentir mais legitimadas a distribuir discursos de ódio e violência", afirmou.

Nem todos concordam que o discurso de Bolsonaro vai se repetir na prática. “Ele não se expressa muito bem”, afirma Leandro Rodrigues, 35 anos, é eleitor do candidato do PSL e que buscou alguém que não fosse PT, nem PSDB para votar. “A linha de raciocínio dele é diferente. E se não der certo, em quatro anos, a gente tira ele”, afirma.

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