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Os votos de última hora das mulheres indecisas

Em um cenário onde um quarto dos eleitores ainda admite mudar o voto e 5% têm dúvidas sobre em quem votará, o EL PAÍS voltou a entrevistar o grupo mais indeciso segundo o Datafolha

Jovina Costa, moradora de Capela do Socorro.
Jovina Costa, moradora de Capela do Socorro.

Na véspera da eleição, as pesquisas eleitorais mostram que ainda há uma margem significativa para variar o resultado eleitoral. Cada vez mais, uma fatia considerável do eleitorado decide o voto apenas na reta final da campanha. Em 2014, por exemplo, 23% dos eleitores definiram seus candidatos somente na semana do pleito. Neste ano, a pesquisa Datafolha divulgada na véspera da eleição revela que ao menos um quarto (ou 25%) dos eleitores ainda cogitam mudar seu voto para presidente e, entre as mulheres, o número sobre para 26%. Historicamente, são as mulheres que formam o principal grupo que costuma deixar essa decisão para a reta final. O EL PAÍS, que publicou no final de setembro uma matéria com eleitoras indecisas da periferia paulistana, voltou a ouvi-las a 48 horas da eleição para saber como —e se— elas decidiram seus votos.

"Decidi que não vou votar no domingo. Não voto nunca mais", diz Jovina Costa, de 46 anos. Moradora da Capela do Socorro —o distrito paulistano com mais pessoas ganhando menos de dois salários mínimos, segundo o censo do IBGE de 2010— ela sustenta a família com o que ganha na cantina que mantém em frente a uma escola pública. Há duas semanas, Jovina estava em dúvida se votaria neste ano e cogitava se posicionar somente em um eventual segundo turno. Diante do clima de polarização política e das dificuldades que tem enfrentado com o marido, sem serviço na construção civil "há muito tempo", ela diz não acreditar mais nos políticos. "Pobre não tem vez, por isso a minha desilusão. É muita falta de dignidade e muita dor pra gente. Tive que leiloar minha casa por falta de condições e de emprego. Só votaria em alguém que resolvesse meu problema, mas não acredito em nenhum candidato", afirma.

Nem sempre foi assim. Aos 16 anos, Jovina foi às urnas pela primeira vez, quando ainda morava em Minas Gerais, seu Estado natal. Naquele momento, sua escolha foi esperançosa e simbólica: votou em Lula (PT) na primeira eleição depois da redemocratização brasileira. Trinta anos depois daquele primeiro voto, ela resolveu se abster de qualquer escolha nesta eleição polarizada por um candidato apoiado por Lula (Fernando Haddad) e outro que defende abertamente o regime militar (Jair Bolsonaro). Agora, Jovina integra os 6% do eleitorado que pretendem anular o voto neste domingo. "Infelizmente não confio mais em ninguém. Antes pensei em votar pelo menos no segundo turno, mas decidi que não voto nunca mais. Só nulo".

Segundo um Datafolha do último dia 4 (o último com estes dados disponíveis), os eleitores de Bolsonaro e Haddad —os dois líderes nas pesquisas— são os mais convictos: mais de 80% dos que declaram voto nos dois candidatos não cogitam mudar a decisão. A pesquisa também revela que o candidato do PSL cresceu entre o público onde tem a maior rejeição: as mulheres. No primeiro turno, ele mantém a liderança entre as eleitoras, com 30% das intenções de voto, contra 21% de Fernando Haddad (PT). Em um eventual segundo turno entre os dois líderes nas pesquisas, porém, o candidato petista leva a vantagem sobre Bolsonaro, com 47% dos votos femininos contra os 38% de Bolsonaro (nos dados de 4 de outubro).

A cozinheira aposentada Antonia Felismina, de 60 anos, integra o grupo de eleitores que mais rejeita Bolsonaro, segundo as pesquisas: o de mulheres com renda inferior a dois salários mínimos. Há pouco mais de uma semana, ela cogitava votar no candidato do PT porque acredita que o partido é um dos que mais têm propostas para a periferia e para a população pobre. Disse que deixaria a decisão para a reta final, depois de prestar mais atenção à propaganda política. Dois dias antes de ir às urnas, porém, diz que está mais propensa a votar no ex-militar Jair Bolsonaro. "Ele falou que vai mudar as coisas, vai pôr mais polícia na rua. A malandragem tomou conta de tudo. O que a gente consegue ter os bandidos tomam, então eu quero ver o Exército mesmo no comando", diz. E completa: "Desisti do Haddad porque estão dizendo que significa continuar a mesma coisa, e eu quero que mude".

Antonia diz que, dentro de casa, o marido e os filhos não seguem sua decisão. "Aqui todo mundo tem opinião própria. Eu mesma ainda estou decidindo. Amanhã (sábado), resolvo se é isso mesmo", diz. O marido deve ir de Geraldo Alckmin, o filho ainda não sabe em quem votar e a filha decidiu anular o voto. "Ela está muito desgostosa. Disse que vai anular, mas a gente aqui em casa está decidindo ainda. Domingo a gente sabe", afirma Antonia. Ela diz que a dúvida está mais evidente nestas eleições. Os recentes escândalos de corrupção envolvendo diferentes partidos, segundo ela, têm tirado o gosto que tinha pela política. "Eu gosto de política, acho importante, mas zoaram com ela. Todo mundo está roubando demais", argumenta.

Voto útil

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, reconhece que o índice dos que cogitam trocar de candidato e a quantidade de indecisos ainda é suficiente para provocar variações decisivas nestas eleições. "Os mais convictos são os que querem votar em Bolsonaro e Fernando Haddad, segmentos onde a possibilidade de se trocar de candidato fica entre 10% e 13%, respectivamente. Mas quando se focaliza os eleitores de Marina Silva (Rede), por exemplo, 61% cogitam a hipótese. Entre os de Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT) a ideia é considerada por aproximadamente 40%. O cenário sugere terreno fértil para a prática do voto útil por parte da população no dia da eleição", defendeu em artigo publicado na Folha de S. Paulo.

Paulino acredita que o percentual de eleitores que definirão seus candidatos na véspera das eleições pode ser ainda maior que o de 2014 por conta do "acirramento da disputa em uma eleição onde o medo e o desencanto se mesclam à importância que se atribui à democracia no país". O regime democrático tem uma provação recorde no Brasil: para 69% dos eleitores, é a melhor forma de governo.

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