Futebol brasileiro

Lisca, o ‘doido’: “Vocês sempre dão ênfase à brincadeira e falam pouco do trabalho”

Treinador do Ceará, que ganhou fama pela personalidade excêntrica, conta ao EL PAÍS as polêmicas em que se envolveu na carreira e as dificuldades de sua profissão no Brasil

Lisca, durante a partida entre Ceará e Paraná, pelo campeonato brasileiro de 2018.
Lisca, durante a partida entre Ceará e Paraná, pelo campeonato brasileiro de 2018.Fernando Ferreira / Cearasc.com

Mais informações

Depois de todos os jogadores, com um fone de ouvido simples e uma mala de rodinha, Luiz Carlos, o Lisca, treinador do Ceará, desembarcou em um hotel de quatro estrelas no Morumbi, bairro nobre da capital paulista, em uma sexta-feira à noite. Foram apenas quinze minutos gastos no jantar e o técnico se dirigiu até à área de lazer do hotel para responder algumas perguntas do EL PAÍS. “Me senti querido nos clubes que passei”, sorriu em resposta à primeira indagação, à beira da piscina, de onde conseguia ver a Ponte Estaiada ao fundo. Estava relaxado e tranquilo, enunciando as frases com o forte sotaque gaúcho de forma simpática, um contraste com a imagem mais popular de Lisca, que teve a carreira marcada por episódios polêmicos, ainda que muitos deles bem-humorados, que evidenciam o intenso envolvimento com o torcedor que lhe rendeu a alcunha que o acompanha –Lisca Doido.

Natural de Porto Alegre, o treinador começou a carreira nas equipes de seu Estado. Acumulou passagens por categorias de base do Internacional e equipes como Juventude, Brasil de Pelotas e Caxias. Em 2014, ganhou as manchetes pela primeira vez por uma confusão, com o atacante Neto Baiano, quando enfrentava o Sport pelo Náutico durante o campeonato pernambucano. Lisca venceu o primeiro clássico no estadual, ainda pela primeira fase, e viu o atacante ir para cima do banco de reservas após o apito final, alegando que o treinador havia feito uma provocação na comemoração pela vitória. Mas foi Neto quem riu por último: na final, o atacante ajudou o Sport a ser campeão em cima do Náutico e comemorou dançando na bandeira de escanteio, “frescando”, o verbo que no Nordeste significa brincar ou provocar.

Um ano depois, Lisca estava de volta ao Náutico, após passagem pelo Sampaio Correa. Na série B, enfrentou o Criciúma, então clube de Neto Baiano. Lisca, desta vez, venceu o atacante por 2 a 0. Não deu outra: o treinador foi imitar a dancinha de Neto na frente da torcida pernambucana, que gritava seu nome. “Eu guardei aquilo [a provocação do ano anterior]. Mas foi uma brincadeira. Realmente repercutiu no Brasil todo, foi meio estranho para um treinador”, confessa Lisca.

A ligação com o público ficou mais evidente no trabalho seguinte do treinador, no mesmo Ceará que comanda agora. Com o clube ameaçado de cair para a série C, Lisca assumiu em setembro de 2015, ganhou seis dos últimos nove jogos e livrou a equipe do rebaixamento. Foi na época que surgiu o canto, agora famoso: “Saiu do hospício / Tem que respeitar / Lisca Doido é Ceará”. “É uma relação recíproca. Me considero torcedor do Ceará desde aquela vez”, diz o treinador. Depois do jogo que confirmou a permanência (1 a 0 no Macaé, em Fortaleza), Lisca comemorou de forma entusiasmada com a torcida, colocando a fantasia do mascote no meio do campo e girando os punhos em volta da cabeça como quem admite que é louco. “Mas isso aí eu estou querendo mudar”, reclama o técnico. “Porque vocês dão ênfase sempre à brincadeira e falam pouco do trabalho”.

Maior polêmica

Aos 46 anos de idade, a equipe mais tradicional que Lisca dirigiu foi o Internacional, com uma missão quase impossível de livrá-lo do rebaixamento nas últimas rodadas do campeonato brasileiro de 2016. Durou três jogos: uma derrota, uma vitória e um empate, que não foram suficientes. “Sabia que seria complicado, mas assumi porque o Inter foi o clube que me formou”, conta ele. Logo no primeiro jogo, a equipe colorada foi derrotada pelo Corinthians com um pênalti polêmico em cima de Romero, apitado pelo árbitro Rodolfo Toski Marques. “Ali deu para ver que a questão política contra o Inter estava muito forte. Com essa derrota, nem vencendo os outros jogos nós escaparíamos. Acho que amadureci bastante e não ficou nada na minha conta”. No ano seguinte, veio o episódio que marcou de forma mais negativa a carreira de Lisca até aqui. O treinador assumiu o Paraná Clube no 15º lugar na segunda divisão nacional e o levou à quinta colocação. Em setembro de 2017, quando tudo parecia bem, Lisca foi demitido no dia do jogo contra o Atlético-MG pela Primeira Liga, acusado de agredir fisicamente o auxiliar Matheus Costa.

O treinador lamenta o episódio, alegando uma armação por parte de seus colegas. “Um menino, que nunca havia sido treinador [Matheus Costa, o auxiliar-técnico], se favoreceu com outras quatro ou cinco pessoas. Eles não tiveram a capacidade de assumir quando o time estava em 15º, mas, em 5º e pronto para subir, eles quiseram tomar conta do trabalho”. Subir de divisão seria a primeira conquista relevante na carreira de Lisca, mas foi Costa quem guiou o Paraná até o acesso. “Tive medo que o episódio pudesse atrapalhar minha carreira, até porque já tem o negócio de doido". O treinador afirma estar processando os envolvidos. "Será provado. A acusação é sem pé nem cabeça”.

Na sequência, Lisca assumiu o Guarani, no fim de 2017, com a missão de livrar a equipe do descenso à série C. Conseguiu. Ainda teve uma passagem de um mês pelo Criciúma antes de voltar ao Ceará, agora na elite brasileira, para fazer o mesmo trabalho de recuperação. Apesar da situação difícil, ainda na zona de rebaixamento, foi com Lisca que os cearenses conquistaram suas primeiras três vitórias no Brasileirão. O técnico não titubeia em admitir que é o clube mais especial da sua carreira: “Me tiraram do hospício e ainda pediram para respeitar”.

“Tem que ter farinha no saco”

Marcado pelos seguintes trabalhos de recuperação, nos quais é chamado para salvar equipes do rebaixamento em diferentes divisões, Lisca não demonstra preocupação com o estigma. “Minha primeira oportunidade no profissional foi para não deixar o Brasil de Pelotas cair no campeonato gaúcho. E consegui. Não tenho empresário forte e não fui jogador famoso, então as oportunidades que surgem para mim são dentro da dificuldade”. E afirma que, na hora do desespero, o perfil do treinador contratado é fundamental para o êxito do projeto. “Não é hora de ver quem é bonitinho, de fazer avaliação. Chama quem tem experiência e sabe fazer o trabalho. Chama quem tem farinha no saco”.

Os trabalhos de Lisca, além de pautados pela recuperação, não costumam ser longevos. Entre as duas últimas passagens pelo Ceará (essa de 2018 e a de 2015/2016), foram 12 jogos no Joinville, três no internacional, oito no Paraná, oito no Guarani e quatro no Criciúma. É sabido, no entanto, que a situação não é exclusiva ao treinador do Ceará, e sim comum no futebol brasileiro; só neste ano, 18 treinadores foram demitidos nas primeiras 18 rodadas do Brasileirão. “A dificuldade do treinador no Brasil é cultural. Não se analisa trabalho, metodologia, característica do treinador. Na dificuldade, troca”, pontua o gaúcho, que também diz ter certeza de que o imediatismo afeta a qualidade do futebol praticado no país. Lisca afirma que, num cenário tão volátil, é precisa se adaptar. E tranquiliza os fãs que desejam uma longa carreira ao peculiar treinador: “Enquanto tiver estômago para digerir, vou. Quando não aguentar mais, paro. Por enquanto ainda estou digerindo”.

Debido a las excepcionales circunstancias, EL PAÍS está ofreciendo gratuitamente todos sus contenidos digitales. La información relativa al coronavirus seguirá en abierto mientras persista la gravedad de la crisis.

Decenas de periodistas trabajan sin descanso para llevarte la cobertura más rigurosa y cumplir con su misión de servicio público. Si quieres apoyar nuestro periodismo puedes hacerlo aquí por 1 euro el primer mes (a partir de junio 10 euros). Suscríbete a los hechos.

Suscríbete