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URSAL, ou só Daciolo (e os memes) conseguem unir as esquerdas no Brasil

Cabo Daciolo, candidato a presidente pelo Patriotas, foi a grande revelação do último debate

Eleições Brasil 2018 URSAL
Cabo Daciolo, durante o debate na BAND, no dia 9 de agosto. REUTERS

O candidato Cabo Daciolo (Patriotas) revelou ao Brasil o obscuro plano da esquerda latino-americana de dominar todo o continente e formar a União das Repúblicas Socialistas da América Latina (URSAL).  Foi no primeiro debate entre presidenciáveis, na Band, na semana passada. Apesar de ser um termo usado em boatos há muitos anos, a palavra pegou todos de surpresa, inclusive o candidato Ciro Gomes (PDT). Ele fez cara de espanto ao ser acusado por Daciolo de ter fundado o Foro de São Paulo - o grupo que reúne partidos de esquerda na região - de querer implantar a URSAL. 

Como não conhecíamos o plano URSAL? Como não havíamos pensado antes em um projeto tão ambicioso para a América Latina? Foi como um raio nas redes. Naquela mesma noite do debate, o assunto viralizou, principalmente entre usuários e grupos progressistas. A indústria brasileira de memes, uma potência reconhecida pelo mundo, se pôs a trabalhar a todo vapor, e conseguiu o que em muitos círculos se consideraria um milagre: unir as esquerdas. Grupos aliados da chapa Luiz Inácio Lula da Silva-Fernando Haddad- Manuela D'Ávila se congraçavam com ciristas e eleitores de Guilherme Boulos.

Desde então, o termo vem roubando o protagonismo do debate dos programas de governo.  Uma das paginas da URSAL tem mais de 68.000 seguidores. E uma das expectativas é saber se, depois de tanta repercussão, Daciolo ousará repetir a o termo. Seja como for, vai ser difícil esquecer o primor estético já exercitado.

Não só a fábrica de memes foi ativada. No mundo fora das redes sociais, também já é possível comprar camisetas e broches da URSAL.

E de repente passamos a ter 10 prêmios Nobel e seis prêmios Oscar.

E a nossa seleção de futebol passou a ser imbatível, com Neymar, o argentino Messi, o colombiano James Rodríguez e o uruguaio Luis Suárez.

A Ursal também já tem moeda única.

E também um hino, cantado pela Xuxa, uma visionária. No início dos anos 90, ela já sabia qual seria nosso destino.

Na verdade, temos DOIS hinos.

Na última terça, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica, renunciou a sua cadeira no Senado por “motivos pessoais” e “cansaço”. Mas coube a Manuela D’Ávila (PCdoB), possível candidata a vice-presidenta na chapa do PT, divulgar a notícia.

Não custa repetir que tudo isso é piada, obviamente. Bom, o cantor Roger, do Ultraje a Rigor, acha que não.

Ao menos no carnaval de 2019 já temo sum bloco de carnaval da Ursal no Rio de Janeiro. Até esta sexta, mais de 6.000 pessoas já haviam confirmado presença no evento do Facebook.

URSAL, ou só Daciolo (e os memes) conseguem unir as esquerdas no Brasil

Mas afinal, o que é o plano URSAL? Como surgiu?

Há 11 anos, em 2001, a socióloga e professora Maria Lucia Victor Barbosa inventou o termo como uma ironia e crítica ao encontro do Foro de São Paulo realizado em Havana naquele ano. Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda não havia se tornado presidente, disse então que a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) era uma ameaça para a integração da América Latina. Barbosa escreveu então um artigo em que dizia: “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?

Desde então, segundo contou ao jornal Folha de S. Paulo, o assunto começou a ser difundido emsites e blogs. Barbosa perdeu o controle do termo que ela utilizou para fazer uma piada. Inclusive começaram a lhe telefonar para saber se o plano era de fato verdadeiro. "Eu falava para as pessoas ‘não passa isso’ [adiante], mas não teve jeito, de repente espalhou", contou ela à Folha.

Cinco anos depois, em 2006, o — sempre ele — filósofo Olavo de Carvalho, guro da extrema-direita brasileira, famoso por espalhar boatos e teorias conspiratórias, escreveu um texto no qual retomava o assunto do plano URSAL. Na internet também existe um site com uma espécie de dossiê do projeto.

"Cabo Daciolo, na verdade só fez o contato do mundo selvagem dos grupos de WhatsApp com a institucionalidade limpinha da TV", advertiu Pedro Abramovay, diretor para a América Latina e Caribe da Open Society Foundation. "Mas não dá pra negar que esse mundo existe e é muito mais poderoso do que a gente consegue imaginar". Ele também acredita que o fato de uma fake news ser levada a sério em uma eleição presidencial mostra como a desinformação contaminou o pleito. "Muita gente, muita mesmo, que acredita que a URSAL, criada como piada, como revelou a Folha, existe e é uma séria ameaça".

Antes de nos alertar sobre o plano URSAL e o perigo do comunismo, Cabo Daciolo já usada sua cadeira na Câmara dos Deputados para pregar a mensagem de Deus para o país. Mas anos antes, em 2011, liderou uma greve dos bombeiros do Rio de Janeiro e foi disputado pelo Partido Socialista de los Trabajadores Unificado (PSTU) e pelo PSOL. Acabou aderindo ao segundo e se elegeu, em 2014, com 49.831 votos para a Câmara dos Deputados. Acabou expulso do PSOL meses depois, após pedir a alteração do primeiro parágrafo da Constituição Federal, de "todo o poder emana do povo" para "todo o poder emana de Deus". Como alguém ultrarreligioso e que hoje se declara anticomunista entrou em um partido de esquerda? Uma possível explicação pode ser lida abaixo.

Na última semana, Daciolo seguiu atraindo holofotes, e, apesar de toda repercussão, manteve suas crenças. Subiu o Monte das Oliveiras, no bairro de Campo Grande, na zona oeste do Rio para orar e jejuar ao longo desta semana, o que fez com que faltasse a compromissos de campanha. Em vídeo ao vivo no Facebook, disse que grupos tentariam lhe matar. "No nosso governo, nova ordem mundial, IIluminatti e Maçonaria, chega. Vocês vão sair da nação brasileira. A nação brasileira é do senhor Jesus Cristo", afirmou. Em entrevista para o jornal O Globo publicada nesta sexta-feira, voltou a dizer que o problema do Brasil era a nova ordem mundial, uma espécie de organização totalitária da qual, acredita, o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) faria parte. Mostrou-se seguro de que ganharia no primeiro turno em outubro e voltou a dizer que a URSAL não era uma notícia falsa e que sua sede está em Quito, no Equador — onde fica, na verdade, a sede da organização internacional UNASUL (União de Nações Sul-Americanas). Que rufem os tambores para o encontro da Rede TV.

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