Seleccione Edição
Login

Corrupio, a ‘guerrilha’ para publicar o Brasil de Pierre Verger aos brasileiros

Homenageada na Flip, pequena editora baiana foi responsável por editar livros do famoso fotógrafo francês que levaram a cultura brasileira ao mundo, mas eram ignorados no Brasil

Flip 2018
Pierre Verger e Dorival Caymmi (sem data)

Quase certeza que você já viu alguma fotografia de Pierre Verger. Imaginar o Brasil sem suas imagens é tentar imaginar outro país, porque foram elas que, em boa parte, consolidaram a ideia de identidade afro-brasileira: as religiões, os meios de vida, o trabalho, a Cultura com C maiúsculo. O trabalho do francês Verger, etnologista, antropólogo, viajante, fotógrafo, é, sem dúvidas, um dos materiais mais icônicos da história do país. Por isso, hoje é praticamente impossível conceber que algum dia sua produção precisou do trabalho de guerrilha de uma pequena editora, a Corrupio – fundada em 1979 especialmente para publicação de Verger – para chegar ao público brasileiro.

Como forma de reconhecimento pelo trabalho de difusão da obra do fotógrafo, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que termina neste domingo, 29, escolheu homenagear a editora Corrupio. “A Joselia [Aguiar] teve a sensibilidade de perceber a importância do nosso trabalho, que faz 40 anos no ano que vem e sugeriu essa história”, diz uma das fundadoras da Corrupio, Arlete Soares. A homenagem acontece em uma parceria com a editora Sesi-SP, que montou uma exposição dedicada a Verger em um dos muitos espaços de programação paralela da 16ª edição da Flip – a editora de São Paulo também acabou de fechar uma parceria para publicar parte de obras fora do catálogo da baiana, como alguns livros de texto de Verger.

Durante o movimentado ano de 1968, Soares estava na França fazendo um doutorado em psicologia social sobre uma comunidade de pescadores baiana quando seu orientador lhe recomendou a leitura de Flux et Reflux, um tratado de cerca de 800 páginas que estabelecia uma conexão entre os fluxos migratórios de Brasil e África resultantes da escravidão. O autor? Pierre Verger. Mas ela não conseguiu encontrar o livro, que estava esgotado, então fez melhor. Comentou com o escritor Jorge Amado que estava procurando a publicação. Ele, de pronto, a apresentou ao próprio Verger, que morando na Nigéria, estava de passagem pela França.

O fotógrafo enviou um exemplar para Soares. De uma só vez, a pesquisadora ficou impressionada com o material e prometeu a ele que aquilo seria publicado também no Brasil. “Por que o livro tinha que ser em francês se tudo aquilo tão rico e tão detalhado era sobre nós?”, perguntou-se. “Paris fervilhava e o interesse pela minha tese desvanecia em meio a sonhos, barricadas e a minha nova paixão: a fotografia”. Entre 1968 e 1979, até a editora Corrupio se lançar junto do livro Retratos da Bahia, com 256 fotos de Verger, muita coisa aconteceu.

Nesses cerca de dez anos, Soares conheceu o trabalho de Verger de perto. Na França, ele guardava cerca de 130 quilos de negativos fotográficos em uma cave. Eram, em grande parte, registros feitos por ele desde 1942, quando estabeleceu sua conexão com o Brasil. Conheceu a casa espartana em que Verger vivia na rua Corrupio – daí o nome da editora –, em Salvador, e ouviu o “não” de muitos editores para quem ela propunha a publicação das fotos. “Ouvi até coisas do tipo: ‘quem vai querer comprar um livro desse tamanho com foto de preto?”, conta. “Como eu podia dizer para o Verger que ninguém queria publicar suas fotos no Brasil? Foi aí que tivemos a ideia da editora”.

“O Verger era conhecido de uma certa intelectualidade brasileira, ele tinha trabalhado na revista Cruzeiro, era amigo de Caribé, de Jorge Amado, de Dorival Caymmi, mas não tinha nada publicado aqui no Brasil, só em outros países”, relembra Soares. Assim, quando saiu o primeiro livro Retratos da Bahia, mais barato e fácil de ser editado que a ideia inicial de publicação de Flux et Reflux, causou sensação. O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil: “Saravá Mestre! Recebi Retratos da Bahia e agora não posso dizer mais que ‘nunca fui lá’. Se o professor Freud desembarcasse lá, sei não, mas a psicanálise seria outra ciência, talvez uma arte. Obrigado pelo presente, meu venerável oju obá, que tens o sagrado direito de agitar o xerê de Xangô”.

Rina Angulo e Arlete Soares, da Corrupio
Rina Angulo e Arlete Soares, da Corrupio

Assim, de uma hora para outra, a Corrupio virou mais do que uma editora, mas também uma produtora de audiovisual, galeria, laboratório, livraria e centro cultural. Primeiro, tudo girando ao redor de Verger. Depois, também das outras publicações, sempre voltadas para a afro-brasilidade, como o primeiro livro do antropólogo Antonio Risério. “Eu cheguei fugida da ditadura em El Salvador na data do lançamento de Retratos da Bahia e fiquei na editora desde então", conta Rina Angulo, que tem tocado a Corrupio ao lado de Soares nesses últimos quase quarenta anos. A enorme importância da editora nunca se reverteu em fama nacional. “É impressionante, mas na França e em outros países saíam matérias sobre nosso trabalho e aqui nada”, diz Angulo.

“Por aqui, quem mais se interessava pelos livros era o povo de santo, muitas vezes pobre, para quem nós vendíamos as edições mais baratas. Eles chegavam a mandar cartas escritas ‘querida, editora’. Já viu editora ser chamada de ‘querida?”, se diverte Soares. Na lembrança delas, Verger vivia, em Salvador, como um monge, em uma rua sem esgoto ou asfalto. Era o filho de uma família de ricos gráficos que decidiu vender tudo para viajar o mundo e acabou se apaixonado pelo Brasil. Uma vez, contam, Caetano Veloso lhe perguntou: “Você gosta mesmo é de tirar fotos em preto e branco, não?” ao que Verger respondeu que “gostava mesmo de preto”. O fotógrafo explicava que o racismo do mundo era tal que os filmes eram todos desenvolvidos para fotografar a pele branca.

Caso de racismo da Flip

A. O.

As falas de um racismo escancarado que Soares ouviu ao tentar publicar as fotos de Verger podem até parecer algo do passado para alguns, mas estão presentes estes dias mesmo na Flip. O ex-curador do prêmio Jabuti e representante da editora PUC-SP, José Luiz Goldfarb, presente na programação paralela do evento, está sendo acusado de racismo por, segundo Sara Cristina Trajano, da editora Patuá, ter dito que “é por causa de pessoas como você, da cor morena, que o mundo está assim”. Trajano fez um boletim de ocorrência em Paraty e a organização da Flip disse, por meio da assessoria de imprensa, que repudia atos de violência e racismo e pediu o afastamento de Goldfarb do evento. Ele nega ter dito a frase. As informações são do jornal O Globo.

MAIS INFORMAÇÕES