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Operação da PF derruba ministro-tampão e põe na mira articulador com o Congresso

Nova fase de uma operação da Polícia Federal derruba titular do Trabalho e eleva para oito o número de ministros de Temer investigados

Helton Yomura após depoimento na Polícia Federal.
Helton Yomura após depoimento na Polícia Federal. REUTERS

Uma nova fase de uma operação da Polícia Federal elevou para oito o número de ministros de Michel Temer investigados por supostos delitos. Nesta quinta-feira, Helton Yomura (PTB), o desconhecido ministro do Trabalho, e Carlos Marun (MDB), responsável pela Secretaria de Governo, viram seus nomes serem citados em uma investigação policial onde são suspeitos de concessão irregular de registros sindicais. O primeiro foi afastado do cargo por uma decisão judicial de Edson Fachin, ministro do Supremo Tribunal Federal. O segundo foi apontado pela polícia como um dos beneficiários do esquema delituoso, mas o mesmo Fachin seguiu a recomendação da Procuradoria Geral da República e não acatou o pedido de busca e apreensão em seu gabinete. As investigações contra ambos continuam. Tanto Yomura quanto Marun negaram qualquer participação nos delitos.

Em uma Esplanada dos Ministérios com 29 ministros, a situação dos homens de confiança do presidente Temer já foi pior. Ele já chegou a ter mais de dez ministros com inquéritos abertos no Judiciário. O próprio Temer é alvo de ao menos dois inquéritos e de três denúncias criminais. Agora, em um período pré-eleitoral, a maioria dos políticos que ocupava cargos no primeiro escalão deixou a função para poder disputar as eleições. Os que ficaram, ou são desconhecidos do meio partidário, como Yomura, ou desistiram de concorrer a qualquer cargo neste ano, que é o caso de Marun. Assim, com o afastamento de Yomura, até figuras desconhecidas ou pouco relevantes politicamente começam a aparecer nos escândalos de Brasília. No início da noite, o Planalto afirmou que Yomura pediu exoneração do cargo e o pedido foi aceito pelo presidente. A oficialização da demissão deve ser publicada no diário oficial desta sexta-feira. De acordo com os jornais O Globo e O Estado de S.Paulo, Eliseu Padilha foi escolhido por Temer para assumir interinamente o órgão, acumulando o cargo com a Casa Civil. Padilha é um dos oito nomes do Governo investigados por suspeita de corrupção. 

A terceira fase da operação batizada de Registro Espúrio também investiga o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB-SP). Resultou ainda na prisão de três pessoas: o chefe de gabinete do ministério do Trabalho, Júlio de Souza Bernardes, o superintendente do ministério no Rio de Janeiro, Adriano José Lima Bernardo, e Jonas Antunes Lima, assessor de Marquezelli. Ao todo, foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão. A suspeita é que o grupo cobrava propinas e pedia apoio em troca da concessão de registros sindicais.

Desde que o deputado federal Ronaldo Nogueira (PTB-RS) deixou o ministério do Trabalho no fim do ano passado, Temer tem sofrido para indicar o titular da pasta. Comandado pelo ex-deputado Roberto Jefferson, um dos condenados pelo mensalão petista, o PTB é uma espécie de dono deste ministério. Quando Nogueira pediu demissão para se dedicar à sua candidatura à reeleição, Jefferson indicou a sua filha, a deputada federal Cristiane Brasil, para a pasta. Sua nomeação, contudo, foi barrada pela Justiça. Cristiane já fora condenada por uma questão trabalhista e a presidenta do STF, Cármen Lúcia, entendeu que a posse dela feriria “o princípio da moralidade administrativa”. Com o veto da Justiça, o PTB bancou em abril o nome de Yomura, que desde outubro do ano passado atuava como secretário-executivo da pasta. O nome foi prontamente aceito por Temer.

Apesar de estar efetivado na função desde fevereiro passado, o então ministro do Trabalho não tinha total autonomia para trabalhar. Seus atos sempre dependiam do aval dos parlamentares de sua legenda e, principalmente, de Cristiane Brasil. Esta informação consta do inquérito da PF que apura as irregularidades na pasta. A suposta participação de Marquezelli nas fraudes demonstra esse feudo petebista. Quando, nesta quinta-feira, repórteres indagaram Marquezelli sobre sua participação no esquema, ele disse que fora informado pela PF que todos os deputados petebistas seriam investigados. Depois do escândalo estourar, Roberto Jefferson emitiu uma nota na qual informou que o partido abria mão de indicar o substituto de Yomura e disse que o partido apoia as investigações da PF.

Outro lado

A reportagem não localizou os advogados de Yomura. Intimado a depor à Polícia Federal, ele disse ser inocente, mas não respondeu aos questionamentos dos policiais por orientação de seus defensores. Já o ministro Marun, defendeu-se dizendo que jamais teve qualquer participação em qualquer esquema ilegal no ministério do Trabalho e que sua atuação junto a Yomura foi apenas institucional.

Marun afirmou ainda que, assim como o presidente Michel Temer, é alvo de uma campanha difamatória. “O Judiciário analisou [o pedido de mandado de busca e apreensão contra mim] e diante do absurdo que se pretendia, não deu guarida a essa sanha vingativa dos que apresentaram esse pedido”. O ministro disse que vai apresentar uma queixa-crime contra os policiais que vazaram a informação de que ele era investigado. Caracterizou o vazamento como “direcionado, seletivo, pusilânime, canalha e vagabundo” que tinha como único objetivo o constranger.

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