Tunísia tem a primeira prefeita eleita de uma capital árabe

Suad Abderrahim, uma executiva de 53 anos, era a candidata do partido islâmico moderado Ennahda

Suad Abderrahim, uma executiva de 53 anos, era a candidata do partido islâmico moderado Ennahda.
Suad Abderrahim, uma executiva de 53 anos, era a candidata do partido islâmico moderado Ennahda.ZOUBEIR SOUISSI (REUTERS)

“Ofereço esta vitória às mulheres do meu país, a toda a juventude e à Tunísia”, declarou Abderrahim na manhã desta terça, visivelmente emocionada, pouco depois de uma votação que manteve o suspense até o último momento. O Ennahda foi o partido mais votado nas eleições, mas ficou longe da maioria absoluta, pois somou apenas 21 dos 60 vereadores. Finalmente, a candidata conseguiu 26 votos no plenário, contra 22 do seu principal adversário, Kamel Idir, do partido conservador Nidá Tunis, com o qual o Ennahda forma uma “grande coalizão” no Governo nacional. Na vitória de Abderrahim foi crucial a abstenção no segundo turno de votação das duas principais forças de esquerda do país, a Frente Popular e o Tayyar Democraty.

Abderrahim não é uma figura nova no panorama político tunisiano. Entre 2011 e 2013, foi deputada do Ennahda na Assembleia Constituinte, onde presidiu a Comissão de Direitos e Liberdades. Nos últimos anos, ocupou um cargo de direção numa importante companhia farmacêutica, um trabalho que terá de deixar para se dedicar ao governo municipal, conforme estipula a lei. “Minha prioridade será deixar a cidade mais bonita, mais verde, mais ecológica”, declarou em uma entrevista ao EL PAÍS durante a campanha eleitoral. As eleições municipais representam a primeira etapa no processo de descentralização, percebido como principal antídoto para a enorme desigualdade regional que desafia o país.

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Apesar de sua longa vinculação ao Ennahda, Abderrahim é independente, e sua candidatura faz parte de um esforço do partido para integrar novas sensibilidades. “O Ennahda abriu suas portas à sociedade, aos independentes, baseando-se em suas qualificações. Suas listas hoje representam melhor a sociedade tunisiana”, diz a política, que nunca utiliza o hijab (véu) e rejeita o rótulo de “política islâmica”. “A religião é um assunto pessoal de cada um, e nenhum partido pode se apropriar dela... Não acredito nos partidos de base religiosa”, afirmou. De fato, em seu último congresso o Ennahda eliminou de suas estruturas internas qualquer ação proselitista e começou a se definir como “islamo-democrata” em lugar de islâmico.

“A mulher pode oferecer uma visão mais consensual da política. Estender pontes entre adversários políticos”, argumenta a nova prefeita. Embora tenha defendido bandeiras feministas durante a campanha, Abderrahim na verdade suscita receios entre as organizações feministas clássicas, com uma grande influência na sociedade tunisiana. Não por acaso, durante seu mandato como deputada ostentou uma mentalidade nitidamente conservadora. Causaram polêmica, sobretudo, declarações nas quais atacava as mães solteiras e se mostrava contrária a que recebessem ajudas públicas. “Essas declarações foram mal interpretadas e manipuladas por alguns”, foi a frase com a qual se defendeu diversas vezes na corrida eleitoral.

A Tunísia é um país pioneiro no reconhecimento dos direitos da mulher no mundo árabe desde 1956, quando o presidente Burguiba aprovou um novo código pessoal. Apesar dos temores suscitados pela vitória dos partidos islâmicos nas primeiras eleições depois da Revolução, o país magrebino não se afastou deste caminho. Aplicando a Constituição de 2014, que introduz como objetivo a paridade de gênero na política, aprovou-se uma lei eleitoral que obriga os partidos a distribuírem em partes iguais entre homens e mulheres os postos de cabeça de lista. A medida atingiu seu propósito, pois 47% dos vereadores são mulheres, um salto espetacular frente aos 7% de deputadas escolhidas na Assembleia Constituinte.

A paridade na herança, próxima batalha

Depois da recente aprovação de uma histórica lei contra a violência de gênero e o avanço das candidatas nas eleições municipais, as associações feministas situaram em seu ponto de mira a legislação que regulamenta as heranças. Na Tunísia, este é um dos últimos âmbitos legais nos quais vigora a sharia, ou lei islâmica, embora só para casos em que o morto não deixou testamento escrito. Esse código religioso reúne uma variada casuística que, na maioria dos casos, favorece os descendentes homens com um mesmo grau de parentesco.

Em junho, uma comissão presidencial propôs reformar o código de família para garantir a igualdade de gênero na herança, algo que diversas instâncias religiosas rejeitam com veemência. Espera-se que o Parlamento discuta sua aprovação nos próximos meses, que devem ser politicamente agitados, pois em 2019 haverá eleições legislativas e presidenciais. O partido ganhador das eleições anteriores, o Nidá Tunis, recebeu um severo corretivo nas municipais, enquanto o Ennahda foi o mais votado, e as listas independentes se tornaram a grande surpresa, elegendo quase 30% dos vereadores.