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Bolão: faltou combinar com os russos. Os alemães. Os iranianos. Os japoneses

Um terço dos brasileiros se envolveu em bolões nesta Copa. Apenas cerca de 0,02% deles acertaram que a Rússia golearia a Arábia Saudita por 5x0

Courtois deixa bola escapar no jogo contra o Japão.
Courtois deixa bola escapar no jogo contra o Japão. Getty Images

Começou logo no primeiro jogo: 5x0 para a Rússia sobre a Arábia Saudita. Os russos tinham ganhado seu último amistoso em outubro de 2017 e, no teste derradeiro para a Copa que sediariam dali a 15 dias, perderam por 1x0 para a Áustria, que nem sequer se classificou para o torneio. Após seis jogos sem ganhar durante a preparação (quatro derrotas e dois empates), os russos estrearam no mundial com uma goleada. Quem acertaria um placar desses? A resposta é: 30 pessoas entre cerca de 200.000, a julgar pelos palpites registrados no site Mais Bolão. A seleção do improvável artilheiro Cheryshev ainda submeteria o Egito da estrela Mohammed Salah a uma derrota por 3x1, mas apenas para iludir aqueles que se animaram a apostar em uma vitória russa contra o relutante Uruguai — quem poderia imaginar que os econômicos uruguaios teriam vontade o bastante para marcar três gols contra os russos? Apenas 0,65% dos palpiteiros do Mais Bolão, um site criado por dois analistas de sistemas do Rio de Janeiro cujos dados expõem a dificuldade de acertar o resultado de uma partida de futebol.

Rainniery Sartório e Edmilson Lani criaram o Mais Bolão em 2016, quando o site que utilizavam para tentar acertar os placares começou a cobrar pelo serviço. A empreitada começou com 120 palpiteiros do Brasileirão e, neste ano, chegou a 10.000 antes da Copa do Mundo. Depois do início da maior competição de futebol do planeta, o crescimento do número de participantes forçou os sócios a mudar de servidor para fazer frente aos acessos — a dupla já se prepara para ampliar o site para além das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, com os campeonatos europeus e a Libertadores da América, e os planos para 2019 incluem o desenvolvimento de um aplicativo.

Um terço dos brasileiros (33%) está se deixando consumir por essa competição paralela à Copa do Mundo, indica a plataforma de finanças GuiaBolso. Mais de 70% dos apostadores estavam dispostos a investir 50 reais por bolão, mas é a honra que entra em campo na hora de profetizar o placar de Marrocos x Irã. E esse foi o resultado que mais me doeu. Como alguém pôde imaginar que os iranianos bateriam os marroquinos por 1x0? Isso só aconteceria, sei lá, se os marroquinos marcassem um gol contra aos 49 minutos do segundo tempo — o Irã não deu sequer um chute a gol na etapa complementar! Mas alguém imaginou o placar. Mais precisamente 7,95% dos palpiteiros do Mais Bolão.

O mesmo Irã empataria em 1x1 com Portugal graças a um pênalti inventado pelo árbitro de vídeo — ainda mais esse para tumultuar — no fim do jogo. Menos um placar cravado no bolão. Pelo menos ninguém acertou a vitória do Japão sobre a Colômbia, na primeira rodada, eu me consolava. Seria preciso imaginar que os colombianos jogariam a partida inteira com um homem a menos. Pois 2,62% dos paliteiros imaginaram algo do tipo. E os alemães? Não é que eu estivesse torcendo a favor, mas eles me entregaram o 2x1 perfeito no último lance contra a Suécia. Por que eu apostaria na Coreia do Sul no jogo em que os atuais campeões mundiais obviamente carimbariam a vaga para as oitavas de final? 2x0 para a Coreia (0,15% de acertos).

Garrincha diria que faltou combinar com os russos, na expressão inevitável para uma Copa do Mundo disputada na Rússia. Instruído por Vicente Feola sobre como atuar contra a União Soviética no Mundial de 1958, o craque teria questionado o treinador brasileiro se os russos também estavam a par dos planos. A mesma pergunta cabe ao Goldman Sachs. O banco de investimento fez 1 milhão de simulações para prever o hexacampeonato do Brasil neste ano. Talvez não fossem necessárias tantas simulações em 200.000 modelos estatísticos para apostar no time de Tite, mas o Goldman Sachs também previu errado que a seleção russa não passaria da fase de grupos, assim como o Commerzbank — este apontou título para a Alemanha, junto com o banco suíço UBS.

Os mais difíceis

Até agora, o jogo com a maior taxa de acerto no Mais Bolão na Copa foi Brasil 2 x 0 Costa Rica, placar cravado por 32,95% dos palpiteiros — o site também distribui pontos para quem acerta o vencedor ou o número de gols do perdedor, entre outras variáveis. Os mais difíceis de acertar foram a goleada russa inaugural (0,02%), o 4x3 da França sobre a Argentina (o de menor acerto, com 17, ou 0,01% do total), a derrota argentina para a Croácia (0,03%), a derrota do México por 3x0 para a Suécia (0,03%), e a goleada da Inglaterra sobre o Panamá (0,02%), entre outros. O futebol é uma caixinha de surpresas e coisa e tal, mas o orgulho sai ferido de qualquer forma quando a gente não consegue antecipar as surpresas. Ainda mais quando se perde o bolão para quem não acompanha futebol com tanta intensidade assim — o que, nestas horas, não parece fazer diferença.

Depois de acertar em cheio a margem de vitória na reeleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, em 2012, o estatístico estrela Nate Silver se animou a profetizar sobre a Copa do Mundo de 2014. Silver apontou o Brasil como favorito, assim como todo mundo que apostou naquele torneio. Após o 7x1, só lhe restou dizer que o placar daquele Brasil x Alemanha foi o mais inesperado da história das Copas.

Dos tradicionais favoritos, nesta Copa a Alemanha parou na fase de grupos, a Argentina foi eliminada pelos franceses nas oitavas de final — o relatório do Itaú dava 67% de favoritismo para os argentinos —, a Espanha foi despachada pelos russos e a Itália nem sequer conseguiu se classificar para o torneio. Entre os campeões mundiais, apenas França, Brasil, Uruguai e Inglaterra seguem vivos na competição após as oitavas de final. Seja lá o que isso quer dizer.

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