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630 refugiados rejeitados pela Itália chegam na Espanha entre lágrimas e abraços: “Goodbye, my friend”

Imigrantes do barco 'Aquarius' foram acolhidos em Valência pouco antes das 7h da manhã.

Os recém-chegados receberam um documento no qual se pergunta se querem ir à França

A chegada do 'Aquarius' a Valência. Ver galeria de fotos
A chegada do 'Aquarius' a Valência. EL PAÍS
A bordo do 'Aquarius' / Valência

Reward, um nigeriano alto e magro, é o último a desembarcar do Aquarius, o barco que há oito dias recolheu 630 imigrantes perto do litoral da Líbia. “Obrigado, muito obrigado”, diz um choroso J. ao se despedir dos enfermeiros que lhe atenderam e dos resgatadores que salvaram sua vida. Finalmente pisaram em terra firme em Valência, convidados pelo novo Governo socialista da Espanha. “Confio na Espanha”, Mok escreveu em inglês em sua camiseta, em agradecimento ao país que recebe o grupo que a Itália recusou. No mesmo local do convés onde há oito dias foram recebidos de noite ensopados de água e gasolina com um "bem-vindos!", os membros do Médicos Sem Fronteiras (MSF) e da SOS Mediterraneé deram o adeus no domingo. Um por um. Por seus nomes e com um abraço, diante do olhar atento de guardas civis e médicos espanhóis, vestidos com macacões brancos, máscaras e luvas.

Os barcos de Salvamento Marítimo, a Guarda Civil, a lancha da ONG Proactiva Open Arms, que também salva vidas no Mediterrâneo, eram a vanguarda da grande mobilização nos cais para receber Pogress, Ibrahim, Moses, Mok, Nana, Reward, Jessica, Jack….

Amanhecia em Valência quando o primeiro barco da frota do Aquarius, o Dattilo, da Marinha da Itália, mostrava sua proa no boqueirão do porto. Era esperado por um contingente de 2.300 pessoas, entre voluntários, tradutores, médicos e policiais e mais de uma centena de jornalistas, em pé desde às quatro da manhã. O Dattilo atracou pouco depois das 6h50 (1h50 de Brasília) diante da expectativa generalizada. Os médicos da Saúde Exterior, equipados com macacões brancos, luvas azuis e máscaras, foram os primeiros a entrar para comprovar o estado de saúde dos passageiros e a existência de doenças infeciosas. Tiravam a temperatura com termômetros infravermelhos. Vários passageiros receberam máscaras. A Cruz Vermelha coordenou toda a operação de recepção com tradutores e pessoal de apoio tranquilizando os recém-chegados.

A saída dos 274 imigrantes do primeiro navio, um dos fornecidos pela Itália para que o grupo pudesse chegar à Espanha e onde viajavam aproximadamente 60 menores não acompanhados, foi mais lenta do que se pensava. O número de feridos leves era maior do que o esperado, apresentavam queimaduras pela mistura de combustível e água do mar e cinco deles precisaram desembarcar em cadeiras de roda, de acordo com o subdiretor de Emergências do governo valenciano, Jorge Suárez. “Estão muito aturdidos. Eles desembarcam e a primeira coisa que veem são pessoas com máscaras, capacetes de proteção e depois entram em uma espécie de gincana”, disse Suárez. Os imigrantes zarparam da Líbia de balsa entre a sexta-feira 8 e o sábado 9. Desde então estiveram em alto-mar, primeiro correndo perigo de vida, depois submersos na incerteza à espera de que as autoridades italianas lhes dessem um porto seguro e depois em uma travessia que durou quatro dias incluindo vários de tempo ruim para chegar a um país que nenhum tinha em mente. Eles davam como certo que, sobrevivendo, iriam à Itália.

Nenhum deles pôde se comunicar por telefone com seus parentes desde o resgate porque não têm telefone ou não estão carregados. A chegada ao porto foi marcada por selfies no convés.

Os que viajaram a bordo dos navios da Marinha Italiana não estavam acompanhados dos funcionários da ONG, que não pisam em barcos militares. O estado de choque em que pareciam estar alguns dos imigrantes atrasou o processo de revista policial e entrevistas pessoais, disse o porta-voz. A única mulher grávida do primeiro barco foi enviada ao hospital. Do cais 1, a 200 metros do local de desembarque, era possível ver as crianças percorrendo a escadaria com uma pequena mochila vermelha às costas. São as mochilas que na noite do resgate cada um recebeu com uma garrafa de água, bolachas energéticas, um cobertor, uma calça de moletom, uma camiseta, meias, uma toalhinha e um casaco de moletom para as mulheres. Os que viajaram no Aquarius receberam por esses dias uma escova de dentes, pasta, meias limpas; e elas, também roupa íntima.

Após o primeiro exame médico, os imigrantes passaram às tendas onde um contingente de 356 policiais e funcionários lhes esperavam para identificá-los, pegar impressões digitais e fotos. “Até agora nenhum tinha documentos”, informou o inspetor chefe da Delegacia Geral de Estraneidade e Fronteiras, Bernardo Alonso. Alonso também esclareceu, por fim, as dúvidas sobre o status que os recém-chegados receberiam: uma autorização de estadia de 45 dias por motivos humanitários. Além da autorização de residência, foi entregue aos passageiros uma pré-solicitação de proteção internacional, com data e hora, para um encontro para formalizar um pedido de refúgio. Entre os documentos há um terceiro papel em que, assinado, é manifestada a vontade de ir à França.

Selin Cakar, a encarregada de assuntos humanitários do MSF a bordo, explicou a situação aos passageiros do Aquarius. “Irei dar uma informação importante. Sentem-se todos. Quando descerem receberão três formulários para preencher: um para solicitar uma estadia de 45 dias na Espanha, outro para pedir asilo na Espanha e outro para pedir asilo na França. E podem pedir um tradutor quando quiserem”, lhes explicou em inglês. Vários colegas traduziram ao árabe e francês. Chamsouidine Ali, um dos imigrantes das Comores, olhava desconcertado. Só fala a sua língua.

Esse terceiro documento é uma novidade na operação, após a França se oferecer neste sábado a levar ao seu território os imigrantes que queiram se estabelecer lá. Advogados da Defensoria Pública, presentes na operação, informaram ao EL PAÍS que todos estão assinando os dois primeiros documentos, enquanto os mais interessados na oferta da França são os argelinos e marroquinos, duas nacionalidades que são expulsas rapidamente da Espanha graças aos acordos bilaterais sobre imigração. No três barcos viajavam 43 argelinos e 11 marroquinos que receberam com preocupação a notícia de que se dirigiam à Espanha.

O Aquarius demorou quatro horas a aparecer no horizonte. Chegou no cais minutos antes das 11h (6h de Brasília), duas horas depois do previsto. A bordo viajavam 58 mulheres e 48 homens que comemoravam sua proximidade da costa. “Estou contente, vão cuidar de nós. Nossa vida não é fácil”, disse Ibrahim quando o barco ainda estava se aproximando do porto. Os membros do MSF que aguardavam no cais começaram a aplaudir emocionados seus colegas. Antes de atracar vários médicos e guardas civis já estavam a bordo. Alguns dos agentes estavam armados, mas se mantiveram afastados dos passageiros. Às 12h24 (7h24 de Brasília), o desembarque começou. Os primeiros a sair foram dois homens jovens, que choravam e abraçavam os médicos e resgatadores que lhes salvaram de uma morte quase certa no Mediterrâneo há oito dias. “Good bye, my friend [adeus, amigo]”, se despediu deles a enfermeira irlandesa Aoife. “Au revoir, mona mie”, disse com um abraço um resgatador, Ludo.

O terceiro e último barco, o Orione, da Marinha Italiana, já está atracado com seus passageiros sentados na proa em volta de um helicóptero. Após às 13h (8h de Brasília), 44 homens já saíam em direção ao centro que os abrigará durante a primeira semana e cuja localização o Governo de Valência continua mantendo em segredo.

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