Por que eu torço para o Brasil na Copa

Embora muita gente prefira secar a seleção – um direito legítimo –, sigo na torcida para reviver as emoções que marcaram minha infância. Afinal, torcer não é pecado

Seleção brasileira estreia na Copa neste domingo.
Seleção brasileira estreia na Copa neste domingo. (AFP)

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Izabella, minha irmã mais nova, não é de se empolgar muito por futebol, mas ficou inconsolável quando a seleção apanhou de 7 a 1 para a Alemanha: “Eu nunca vi o Brasil ganhar uma Copa”, lamentava, aos prantos, depois daquela fatídica partida no Mineirão. Ela nasceu em 2003, um ano depois do penta, nosso último título mundial. Por um instante, enxerguei nela a criança que eu era em 1994. Perdi minha avó pouco antes da Copa nos Estados Unidos. Tinha 8 anos. O pênalti isolado por Roberto Baggio na final seria meu primeiro momento de felicidade desde sua morte. Alegria tão pura que me desacorrentou de vez do luto. Joguei um balde de água fria na cabeça para extravasar. Me sentia um gigante. Recorro a essa lembrança para dizer que sim, outra vez mais, vou torcer para o Brasil em uma Copa do Mundo.

De repente, torcer pela seleção do seu próprio país se tornou algo que carece de explicação num Brasil enraivecido. É absolutamente normal que muitas pessoas não se sintam representadas pelo time que veste o uniforme canarinho, por inúmeras razões. Por não gostar de futebol, por franzir a testa para os grupos que utilizaram a camisa amarela em manifestações, por associá-la aos escândalos de corrupção da CBF e à balela do legado da Copa, por achar os jogadores pouco comprometidos com causas sociais, por se revoltar com a elitização dos estádios e o distanciamento da seleção. Enfim, motivos de sobra. E a maioria deles tem bastante fundamento, inclusive dos que torcem contra. Porém, não me parece justo tampouco producente o patrulhamento sobre quem decide curtir a maior festa do futebol sem peso na consciência.

É perfeitamente possível torcer para o Brasil e, ao mesmo tempo, manter o senso crítico. Também não é preciso ser pachequista, ufanista, detrator de argentino, cantar “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” nem recitar o hino à capela para se identificar como torcedor da seleção. Desqualificar o futebol em época de Copa com o intuito de negar sua magnitude como parte da cultura popular brasileira ou culpá-lo pelas mazelas do país soa tão pedante quanto o preconceito primitivo que repele tudo aquilo que não satisfaz nosso gosto. Apesar de paixões e irracionalidades que por vezes descambam em atitudes violentas, são poucos os amantes do esporte que se desconectam totalmente do universo, 24 horas por dia, em nome da devoção ao jogo. Enquanto a bola rola, nossos problemas e dilemas cotidianos não desaparecem. Eles continuam aí para nos lembrar que é sempre bom cultivar um respiro que deixe a vida mais leve. E poucas coisas são tão anestesiantes como um grito de gol.

“Desqualificar o futebol em época de Copa com o intuito de culpá-lo pelas mazelas do país soa tão pedante quanto o preconceito primitivo que repele tudo aquilo que não satisfaz nosso gosto”

Futebol é o reflexo perfeito da sociedade. Repercute na política, na economia, na cultura, na religião, na memória afetiva e até na dinâmica dos relacionamentos amorosos. Mas, em essência, trata-se somente de um jogo de 11 contra 11. Torcer não implica necessariamente em abdicar de outras formas de viver. Esse esporte que aprendi a amar desde criança desperta tantas emoções em mim que, em vez de demonizá-lo, prefiro me indignar com suas imperfeições para ajudar a melhorá-lo de alguma forma. Não me considero um alienado por isso. Além de torcedor, sou jornalista. O fato de ter me emocionado ao ver a seleção perfilada para o hino no Mineirão, estádio onde comecei a compartilhar as emoções da arquibancada com meu pai  sempre no setor de visitantes , não me impediu de fazer uma análise crítica ao fim do maior vexame de nossa história no futebol. Da mesma forma, curtir a Copa do Mundo ao lado de amigos e familiares, nem que seja para aproveitar o privilégio de trocar o trabalho por churrasco nos jogos do Brasil, não significa ceder à alienação, como sugere o torpe argumento do “pão e circo”.

Torço por Gabriel Jesus, Paulinho, Coutinho, Marcelo, Thiago Silva e, ainda que com ressalvas à conduta fora das quatro linhas, também por Neymar, pois aprecio o bom futebol que desempenham em campo. Assim como não acharia ruim ver a genialidade de Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi coroada com uma taça de campeão do mundo. Aliás, gosto mais da Copa como um todo do que torcer pela seleção. Uma eventual derrota dos comandados de Tite na Rússia não fará dos indiferentes ou indignados mais espertos nem mais inteligentes. Por outro lado, o hexacampeonato será incapaz de determinar a escolha do próximo presidente, muito menos de corrigir as enormes distorções que fazem do Brasil um país tão desigual. Mas adoraria que Izabella, mesmo não sendo mais uma criança, desfrutasse um pouquinho da alegria que senti há 24 anos ao comemorar a conquista de uma Copa do Mundo.

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