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Greve dos caminhoneiros míngua e Governo age para encurralar radicais

Depois de dez dias, pontos de protestos se reduzem de 616 para 197. Motorista que tentou furar bloqueio é morto em Rondônia. Ministério Público pede investigação dos defensores da "intervenção militar"

Militares escoltam comboio de caminhões em Luziânia (GO).
Militares escoltam comboio de caminhões em Luziânia (GO). REUTERS

Após dez dias de paralisação iniciada pelos caminhoneiros, o país finalmente começou a retomar a rotina e registrar uma queda no número de áreas que registram protestos. Entre as noites de terça e de quarta-feira, os pontos de concentrações de manifestações nas estradas caiu de 616 para 197, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal. A vertiginosa redução só foi possível porque, além de atender todas as reivindicações principais do setor, o Governo Michel Temer passou a agir em várias frentes para encurralar os que não seguiram o acordo firmado com as entidades classistas e não encerraram a movimento. Entre eles, há radicais que lançam mão até de violência para impedir a desmobilização e novos atores que aderiam ao movimento ampliando suas pautas, os que o Governo chama de "infiltrados".

Uma das principais ações foi colocar as forças de segurança, inclusive militares, de maneira mais ostensiva nas estradas, reforçar investigações policiais contra suspeitos de locaute (greve patronal) e de impedirem a livre circulação, além de patrocinar ações judiciais contra as empresas e os caminhoneiros que se negaram a cumprir a decisão do Supremo Tribunal Federal, que determinava a liberação de todas as rodovias brasileiras. Nesta quarta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes acatou um pedido da Advocacia-Geral da União e emitiu 141 milhões de reais em multas para esses infratores. O valor é de 100.000 reais para as empresas e de 10.000 reais para os motoristas autônomos. A vitória na Justiça fez com que a AGU pedisse uma ampliação dessa multa de 339 milhões de reais. O pedido não foi julgado, por ora.

Com a redução das áreas de manifestações, a gestão federal informou que cerca de 53% dos combustíveis que estavam retidos nos bloqueios chegaram ao seu destino. Além disso, cinco grandes corredores de caminhões foram completamente desbloqueados (entre os Estados de SP-RJ, BA-RN, SP-MG; GO-DF-MT) . Diante dessa melhora no movimento nas rodovias, o chefe do Estado-Maior e coordenador da força-tarefa do Governo, almirante Ademir Sobrinho, estima que entre cinco e sete dias o problema do desabastecimento deverá ser solucionado. Até o próximo dia 4 de junho as Forças Armadas poderão continuar agindo nas estradas.

Desde domingo, quando Temer anunciou que atenderia a todas as demandas dos caminhoneiros, houve um aumento dos protestos porque representantes de outras categorias engrossaram o movimento. Nos últimos três dias, alguns desses novos manifestantes, chamados pelo Governo de “infiltrados”, passaram a impedir a desmobilização dos caminhoneiros. Essa ação resultou na morte de um motorista de caminhão de 70 anos de idade, em Vilhena (RO). Ele tentava furar um dos bloqueios quando foi atingido na cabeça por uma pedra que atravessou o para-brisas de seu caminhão. A Polícia Federal prendeu o suposto assassino, além de um líder desse grupo que queria impedir a circulação dos caminhões. “[Esse crime] é um exemplo trágico do equívoco da violência política e da tentativa de constranger um movimento que começou com reivindicações, muitas delas justas e foram em sua integralidade atendidas pelo Governo”, disse o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, no tom cuidadoso para não atacar o movimento que conta com a simpatia da população insatisfeita com o Governo. Pesquisa telefônica feita pelo Instituto Datafolha e divulgada nesta quarta-feira mostrou que 87% dos ouvidos estavam favoráveis à paralisação.

De acordo com o ministro, ainda não é possível apontar um perfil dos “infiltrados” nos protestos. Ele afirmou que depende do local onde houve a aglomeração. Alguns são representantes de transportadoras de veículos, de sindicatos ou sem qualquer vinculação político-partidária ou empresarial. Jungmann avaliou que os protestos trouxeram um novo tema à tona: "o sindicalismo de redes" sociais, no qual as verdadeiras lideranças emergem pelo WhatsApp e pelo Facebook durante os protestos.

“Como esse movimento teve uma amplitude nacional, não dá para estabelecer um perfil. Acho que isso vai emergir quando os inquéritos caminharem mais”. A Polícia Federal abriu 54 inquéritos para investigar crimes, entre eles o de sabotagem a uma linha férrea em Bauru (SP) e contra duas torres de transmissão de energia. Depois de dez dias em que poucos resultados foram notados pela população, os ministros pareciam respirar aliviados com os primeiros sinais favoráveis ao impopular Governo.

A pressão sobre os manifestantes também veio da Procuradoria-Geral da República, que montou um comitê para acompanhar a greve. A decisão do Ministério Público foi pedir 48 investigações sobre supostos crimes cometidos por vários personagens da paralisação, incluindo empresários e nomes que defenderam publicamente uma "intervenção federal". De acordo com os procuradores, quem defendeu um golpe militar pode ser enquadrado no crime de "incitação ao crime" e em dois artigos da Lei de Segurança Nacional, ainda de 1983.

Segundo o Governo, deve passar a valer a partir da próxima sexta-feira a diminuição de R$ 0,46 no preço do óleo diesel, fruto da vitória da greve.

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