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HRW apresenta mais evidências de possível participação do Exército na chacina do Salgueiro

ONG entrevistou duas testemunhas e analisou depoimentos prestados perante autoridades. Relatos indicam que roupas e equipamentos dos assassinos correspondem aos dos membros do exército que chegaram ao local do crime minutos depois

Soldados do exército atuam em Japeri, perto do Rio.
Soldados do exército atuam em Japeri, perto do Rio. REUTERS

Oito homens foram mortos em 11 de novembro de 2017 no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, durante uma operação da Polícia Civil e do Exército. Seis meses depois, as autoridades envolvidas na investigação — Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MP-RJ) e Ministério Público Militar (MPM) — ainda não apontaram para os possíveis culpados pela chacina. Mas a ONG internacional Human Rights Watch (HRW) apresenta, em relatório divulgado nesta sexta-feira, novas evidências que indicam uma possível participação de forças especiais do Exército brasileiro.

Na madrugada daquele 11 de novembro, a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), uma unidade de elite da Polícia Civil, e o Exército entraram no Salgueiro dentro de três veículos blindados. Ao chegarem à Estrada das Palmeiras, encontraram pessoas baleadas e feridas, segundo a versão oficial sobre o ocorrido. Sete pessoas morreram no local e uma outra morreu no dia 1 de dezembro no hospital por conta dos ferimentos. Mas a Human Rights Watch ouviu novos relatos de testemunhas e analisou depoimentos prestados perante autoridades que indicam que as roupas e os equipamentos dos assassinos correspondem aos dos membros do exército que chegaram ao local do crime minutos depois.

Duas testemunhas relataram que, por volta de uma hora da manhã, os assassinos abriram fogo a partir de uma área de mata. Um dos homens que ficaram feridos também disse à organização que, após os disparos, os atiradores saíram da mata. Também relatou que eles "vestiam preto, tinham o rosto coberto – de forma que só dava para ver os olhos –, usavam luvas, tinham lanternas em seus capacetes, e carregavam rifles equipados com lanternas e visão a laser", explica a HRW. Já Luiz Otávio Rosa dos Santos, um moto-taxista atingido pelos disparos e que acabou falecendo posteriormente, chegou a garantir a um promotor público do Rio ter visto uma "luz vermelha" saindo dos fuzis utilizados pelos homens que atiraram contra ele, acrescenta ONG.

Além disso, duas mulheres que chegaram depois do tiroteio descreveram os uniformes e as armas dos membros soldados do Exército presentes na operação da mesma forma que os dois homens feridos descreveram as dos assassinos. Uma delas, que é parente de uma das vítimas, e três vizinhos tentaram se aproximar da cena do crime por volta de duas da manhã. Mas homens "com roupas pretas, rosto coberto e capacetes com lanternas gritaram para que parassem, apontando luzes a 'laser' e ordenando que colocassem as mãos para fora das janelas do carro". Depois disso, foram liberados para seguir adiante. Esses homens, disse a testemunha, "dirigiram atrás de um dos blindados do exército, o qual se deslocava lentamente rumo à cena do crime, desviando a direção várias vezes na estrada para impedi-los de ultrapassar", segundo relata a HRW. Ela  também assegurou que "tanto os homens na estrada quanto os outros no blindado tinham os mesmos uniformes e equipamentos".

Outra mulher que também passou pelo local depois de uma hora da manhã deu uma descrição semelhante ao MP-RJ. Ela disse que "cinco homens com rifles equipados com visão a laser e lanternas os pararam e verificaram se carregavam armas antes de deixá-los passar".

Testemunhas também disseram que os agentes da Polícia Civil e os soldados do Exército que estiveram no local "não prestaram socorro aos feridos, não entraram em contato com serviços de emergência, retardaram as tentativas dos parentes de levar as vítimas ao hospital e não protegeram a cena do crime". Um perito criminal disse no laudo de perícia do local  que, ao chegar, cerca de três horas após o tiroteio, "alguns corpos tinham sido movidos de lugar e a cena do crime não estava preservada", segundo a HRW. Os agentes da CORE argumentaram que eles e pelo menos um policial militar recolheram armas e drogas dos corpos dos mortos. Nas declarações aos investigadores da polícia civil que foram examinadas pela HRW os policiais da CORE sequer mencionam sobreviventes ou testemunhas.

Contexto da operação

A ação da Polícia Civil e do Exército no dia 11 de novembro ocorreu poucos dias depois de uma operação ainda maior. No dia 7 de novembro, foram empregados 3.500 membros das Forças Armadas, assim como policiais federais, civis e militares no Complexo do Salgueiro. Além disso, o Exército usou helicópteros para transportar seus homens para uma área de mata dentro da comunidade, segundo admitiu na ocasião o Comando Militar do Leste. "Segundo contou um integrante do sistema de justiça do estado, o plano era que as forças que entraram no Complexo do Salgueiro forçassem os suspeitos a fugirem pela Estrada das Palmeiras e pela área de mata, onde os militares do Exército, escondidos, os interceptariam", explicou também a Human Rights Watch em relatório anterior. Mas a operação foi considerada um fracasso porque as facções criminosas foram supostamente avisadas do plano.

Assim, na madrugada do dia 11, a CORE e o Exército realizaram uma nova operação na mesma área, mas com um efetivo menor. Os relatos apurados pela Human Rights Watch coincidem com os fatos narrados por testemunhas ao EL PAÍS. Para este jornal, afirmaram que os tiros vieram da área da mata e que, na noite do dia 10, viram homens descendo de rapel dos helicópteros, no escuro, para dentro da mata — tal e como havia ocorrido dias antes. Segundo o relato de um sobrevivente, os atiradores surgiram da mata após atirar, vestiam preto e portavam capacetes e fuzis com mira a laser.

O Comando Militar não admite ter colocado seus membros na mata, mas suas explicações se mostraram contraditórias na ocasião. Primeiro, soltaram uma nota dizendo que aqueles que participaram da operação enfrentaram "resistência armada por parte de criminosos". Mais tarde, o Comando mudou a versão e limitou-se a dizer que seus soldados apenas "ouviram tiroteios".

Em recente entrevista ao EL PAÍS, o coronel Roberto Itamar, porta-voz da intervenção federal no Rio de Janeiro, desmentiu os relatos de testemunhas. Ressaltou que as tropas do Exército não usam mira a laser, garantiu que nenhum homem estava na mata naquele dia e disse já estar provado que os militares presentes não deram tiros e são inocentes. Assegurou também que o Exército vem colaborando nas investigações abertas pelo Ministério Público Estadual — ao qual garante ter enviado os depoimentos dos militares que estiveram na ação do dia 11 — e pelo Ministério Público Militar. "Pretensas testemunhas dizem ter visto helicóptero apagado, gente saindo da mata com luzinha no capacete... São coisas que não correspondem ao modus operandi ou aos equipamentos utilizados pelas Forças Armadas. Não tem sentido um helicóptero estar apagado, já ouviu o barulho que faz? São coisas relatadas que são fruto da imaginação de certas pessoas, que podem ter visto situações do tipo em filmes ou até mesmo anteriormente naquele local". Para ele, os responsáveis pela chacina foram facções criminosas que guerreiam entre si.

Em relatório anterior, a HRW denunciou que o Comando Militar do Leste estava "bloqueando as investigações", ao impedir que soldados fossem ouvidos como testemunhas pelo MP-RJ. Eles só podem ser processados pela Justiça Militar.

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