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violência no Rio

De capacete preto e miras laser, a nova forma de matar impunemente no Rio

Nova lei dificulta investigação de operação que matou sete pessoas em São Gonçalo

Um dos sobreviventes da ação conjunta da Polícia Civil e o Exército contraria versão oficial

Um dos quatro sobreviventes da operação foi alvejado nas mãos e na coxa com tiros de fuzil.
Um dos quatro sobreviventes da operação foi alvejado nas mãos e na coxa com tiros de fuzil.

Aos 19 anos, o padeiro Luiz da Silva* voltou a nascer. O jovem é um dos quatro sobreviventes da operação conjunta da Polícia Civil e o Exército que deixou sete mortos no último dia 11 no complexo de Salgueiro, em São Gonçalo, a segunda maior cidade do Rio. Até hoje, nem a Polícia Civil nem as Forças Armadas deram explicações sobre o acontecido. Numa primeira nota conjunta após a matança, afirmaram que houve “resistência armada” naquela noite, uma versão que foi mudada depois por eles mesmos. A segunda declaração afirmava que policiais e soldados entraram com três blindados no conjunto de favelas e que nenhum deles atirou. Quando chegaram, os corpos já estariam sem vida, de acordo com essa versão. Mas o depoimento de Luiz, prostrado numa cama e com três tiros de fuzil no corpo, deixa em evidência a falta de transparência das autoridades e a desconcertante versão oficial sobre a operação. Quem atirou, relatou o jovem ao EL PAÍS, estava escondido na mata, vestia roupa preta, capacete e portava armas com marcador laser.

Por volta de meia noite e meia, Luiz saía da casa da sua namorada e pegava sua moto para voltar para sua residência, uma casa com portas reforçadas com papelão. No caminho encontrou um amigo a quem deu carona e seguiram pela estrada das Palmeiras, uma via de duas mãos com mato, poças de esgoto e casas humildes nas encostas. Num determinado momento ouviram fogos de artifício, normalmente lançados pelos traficantes para alertar sobre a presença policial. Como não viram movimentação na rua, continuaram. De repente, dois carros passaram muito mais rápido que o habitual. E vieram os disparos. Caíram.

Luiz foi atingido por três tiros de fuzil nas duas mãos e numa coxa. Seu amigo, em coma induzido desde então, foi alvejado no maxilar. “Me joguei na beira da vala, quando uns seis homens de preto com capacete saíram do mato com miras laser”, relembra o jovem um dia depois de ter tido alta hospitalar. “Pegaram meu telefone e falaram que iriam voltar para me matar. Tiraram fotos nossas. Eles quebraram as lâmpadas dos portões das casas onde a gente estava e ficou muito escuro”, continua com um fio de voz, sem conseguir sequer se sentar. No tempo que Luiz ficou na estrada, quando os blindados nem tinham aparecido ainda, ele viu mais dois homens que iam numa moto serem abatidos.

O jovem, que trabalha numa padaria próxima da sua residência desde os 12 anos e sustenta a mãe, só foi socorrido por volta das quatro horas da manhã pela sua irmã e seu patrão, o único conhecido com carro que a família tem. “Fiquei perdendo sangue no chão durante horas. Vi passar um caveirão e um tanque de guerra mas ninguém me ajudou. Perdi muito sangue. Eu só pensei que iria morrer”. Ele não sabe se conseguirá voltar a trabalhar.

Estrada das Palmeiras onde, ao longo de um quilômetro, foram encontrados sete cadáveres.
Estrada das Palmeiras onde, ao longo de um quilômetro, foram encontrados sete cadáveres.

O relato de Luiz, e de mais três testemunhas ouvidas pela reportagem nesta segunda, coloca em cena um elemento que a Polícia e o Exército nunca reconheceram: homens de preto, mascarados, com armamento dotado de lanterna e mira laser, e capacetes. O equipamento descrito pelos moradores não é da Polícia Civil, segundo três fontes de divisões especiais da instituição. Segundo as mesmas fontes, as armas com laser e o capacete balístico estão longe de ser de uso padrão dos agentes. Na última semana, o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar, negou veemente que houvesse militares escondidos no mato. Nesta terça, em resposta aos questionamentos da reportagem sobre a existência de soldados na mata, a assessoria de imprensa enviou uma nota de uma semana atrás.

Esses homens de preto também ameaçaram Marcela, viúva de um dos sete mortos daquela noite. O marido, segundo o relato da mulher, saiu de casa para abrir a bomba de água que fica na beira da estrada –os moradores costumam fazer rodízio para usar as bombas pela falta de fornecimento na região. O homem, pai de uma menina de sete anos, morreu ali mesmo. “Os de preto não deixaram me aproximar. Botaram uma lanterna na minha cara e disseram que era para todo mundo sair ou matariam a gente. Me xingaram de piranha, vagabunda... Eles ainda arrastaram o corpo dele e colocaram sua cabeça no valão [a poça de esgoto]”.

Marcela também afirmou que os encapuzados, embora tivessem acabado de atirar, atribuíram as mortes a briga de facção. Uma versão que o porta-voz do Exército, em conversa com a reportagem, deixou nas entrelinhas após o episódio. “Me disseram: 'Olha o que a facção rival fez!", relata Marlene, a mãe de outra vítima. "Briga de facção com caveirão, quando se viu isso?", questionou. “Quando eu cheguei os blindados já estavam do lado dos mortos e os homens que vimos eram todos da Polícia Civil. Eles não me deixaram me aproximar porque disseram que iam esperar a perícia, mas eles estavam catando cápsulas do chão”, relata a mãe.

O caso de Salgueiro não só evidenciou uma operação questionável, mas também os efeitos da Lei 13.491/17 que, sancionada no mês passado pelo presidente Michel Temer, ampliou competências da Justiça Militar Federal. A legislação alterou o conceito de crime militar para abranger o homicídio doloso (com intenção de matar) de militares das Forças Armadas contra civis. Com a mudança, a atribuição para dirigir investigações e julgar crimes que envolvam soldados que matam recai exclusivamente na esfera militar e não mais na Polícia Civil ou na Justiça comum.

A Delegacia de Homicídios de Niterói São Gonçalo, responsável pela investigação, não tem mais poder para intimar os militares a depor ou entregar suas armas para perícia o que prejudicaria o inquérito, como reclamou o delegado Marcos Amin. Os agentes, no entanto, demoraram seis dias para tomar o depoimento de Luiz –o protocolo das Divisões de Homicídios exige que esse trámite seja imediato, principalmente se a testemunha está ferida e seu estado de saúde pode sofrer complicações. Mais rápido foi, segundo o relato do jovem, um outro grupo de policiais que se apresentou no quarto do hospital, sem papel nem caneta nem objetivo declarado, no mesmo dia em que foi internado. “Ficaram na arrogância comigo. Estava sozinho no quarto, nem boa tarde disseram. Me perguntaram se eu era bandido e eu respondi que não. Eu sempre fui tranquilo. Eles disseram que era mentira, que se eu não dissesse a verdade eles iriam furar meu soro e colocar veneno dentro”.

Questionada mais uma vez sobre a dinâmica e objetivos da operação além das ameaças relatadas pela testemunha, a assessoria da Polícia Civil limitou-se a informar que a investigação segue em andamento. Acompanhada do seu cunhado, Marlene, a mãe de um dos jovens mortos chegou a ir na delegacia prestar um depoimento que, disse ela, nunca tomaram. “Ao sairmos da delegacia, um policial bateu no ombro do meu cunhado e disse que a operação tinha sido um sucesso. Ficamos em silêncio. Mas eu teria dito que foi uma operação de assassinos”.

O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), do Ministério Público, instaurou um inquérito para apurar a atuação dos policiais civis – todos da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) – mas não tem competência para investigar os militares. O Exército afirmou que não haveria apuração interna sobre o ocorrido pois não havia indícios de crime militar dos seus homens. O Ministério Público Militar do Rio abriu uma investigação para apurar o episódio.

*Todos os nomes desta reportagem foram trocados por segurança

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