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Demanda de maconha legal no Uruguai é maior do que a oferta

Aumenta o apoio social à lei, de acordo com nova pesquisa, mas os problemas de fornecimento limitam os efeitos da legalização sobre o mercado clandestino

Homem fuma maconha em uma manifestação em frente ao Palácio Legislativo em Montevidéu a favor da legalização da maconha em dezembro de 2013
Homem fuma maconha em uma manifestação em frente ao Palácio Legislativo em Montevidéu a favor da legalização da maconha em dezembro de 2013 AFP/GETTY IMAGES

A tensão provocada em Roraima, no norte brasileiro, pelo grande fluxo de venezuelanos que entram diariamente pela fronteira ganhou mais um ingrediente. A Venezuela, que garante o abastecimento elétrico do Estado que que é a principal porta de imigrantes, ameaça cortar o fornecimento de energia e deixar mais de 500 mil pessoas sem luz. O motivo é a falta de pagamento de uma dívida de cerca de 33 milhões de dólares (135 milhões de reais), mas não se trata de uma questão de dinheiro. A estatal brasileira afirma que não consegue pagar a sua contraparte venezuelana porque as sanções impostas pelo Governo Donald Trump ao regime Nicolás Maduro estão dificultando as operações de bancos estrangeiros com a Venezuela.

O aviso sobre a possibilidade de corte de fornecimento, que pode acontecer já início do mês de setembro, enviado ao Governo brasileiro foi revelado pelo jornal Valor Econômico. Segundo fontes do Ministério de Minas e Energia confirmaram ao EL PAÍS, os dois bancos centrais estão conversando para chegar a uma solução para fazer a transferência. O chanceler Aloysio Nunes afirmou, nesta semana, que o Brasil negocia com Caracas e propôs um encontro de contas para resolver a situação. "Nós somos credores da Venezuela numa importância muito maior que esses 40 milhões de dólares", disse Aloysio Nunes à agência France Presse. O chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, respondeu via Twitter: "Aqui outra irrefutável demonstração do efeito perverso do bloqueio contra a Venezuela", queixou-se.

Enquanto os movimentos diplomáticos ainda se desenrolam, cresce a apreensão na população de Roraima, que além da pressão nos serviços públicos provocado pelos novos usuários, vê todo o drama ser explorado politicamente em plena campanha eleitoral brasileira.  “Caso ocorra o noticiado corte de energia será instalado um caos institucional em Roraima, inclusive com real risco de falência nos serviços públicos de saúde, agravando ainda mais a crise humanitária decorrente da imigração venezuelana”, escreveu a governadora do Estado, Suely Campos, em documento que cobra uma solução de Michel Temer.

Em 2012, quando o processo se iniciou, até 70% da população se declarava contrária à lei

Roraima vive atualmente uma rotina de interrupções constantes no fornecimento de energia e os apagões estão se tornando mais frequentes conforme escala a crise na Venezuela, que também sofre com blecautes em algumas regiões. Durante os dias em que esteve no Estado, a reportagem do EL PAÍS presenciou episódios de falta de luz, inclusive no hospital de Pacaraima, o principal ponto da fronteira. Segundo a Eletrobras Distribuição Roraima, em 2017, foram registrados 33 desligamentos de energia, enquanto neste ano, até o mês de agosto, já foram 41. Todas os desligamentos registrados nos anos de 2017 e 2018 foram causadas pela Interligação Brasil/Venezuela.

Atualmente, 44% é a favor e 41% contra, de acordo com a pesquisa do Monitor Cannabis

A prefeita da capital de Roraima, Boa Vista, Teresa Surita, afirma que a cidade sofre uma média de três a quatro picos de luz por dia. "O Governo federal não olha para gente como deveria no sentido de melhorar nossa infraestrutura. Como vamos desenvolver um Estado sem energia?", disse a prefeita ao EL PAÍS. "Há anos lutamos por uma interligação com o sistema nacional, por uma questão que ninguém entende não pode passar uma linha de transmissão numa reserva indígena, mas passa uma estrada", questiona.

Entre a população também circula o temor de que a Venezuela corte de uma hora para outra a energia como represália ao ataque violento de alguns brasileiros, que destruíram acampamentos de venezuelanos na fronteira, no último dia 18. "Há essa ameaça latente de que a Venezuela corte a luz e a venda de gasolina caso ações de outros grupos anti-imigrantes triunfem. Sem energia e sem gasolina, Pacaraima vira uma cidade cadáver", diz Jesús Fernández, padre da Paróquia da cidade fronteiriça de 12.000 habitantes.

O Governo garante que não há riscos de falta de energia em Roraima, já que, caso ocorra a interrupção, a estatal brasileira Eletrobras teria condições de suprir a necessidade energética do Estado, ativando termelétricas. Essa alternativa mais poluente, no entanto, teria custos elevados. O megawatt/hora da energia produzida em termelétrica é muito mais caro que o gerado em hidrelétrica, por exemplo, que vem da Venezuela.

Consumidores de maconha fazem fila para comprar em uma farmácia em Montevidéu em 19 de julho de 2017
Consumidores de maconha fazem fila para comprar em uma farmácia em Montevidéu em 19 de julho de 2017 AFP/Getty Images

A tarefa de resolver definitivamente o problema, entretanto, não é simples. A solução mais discutida é a construção de uma linha de transmissão que conectará Manaus a Boa Vista, uma obra que atravessa territórios indígenas, necessitando do aval das etnias, um caso que se encontra na corte suprema brasileira. Para tentar destravar o empreendimento, o Governo de Michel Temer autorizou na semana passada um licenciamento ambiental que não adentram a área indígena.

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