Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Biógrafo de Chávez: “Maduro está mais próximo de Pinochet que de Allende”

Escritor apresenta em Paris seu romance de maior sucesso, ‘Patria o Muerte’ (Prêmio Tusquets 2015)

O escritor venezuelano Alberto Barrera Tyzka, em 2015
O escritor venezuelano Alberto Barrera Tyzka, em 2015 EFE

Alberto Barrera Tyskza (Caracas, 1960) trocou por alguns dias as ruas do México, onde reside desde que teve de deixar a Venezuela, pelas de Paris para promover o lançamento em francês de seu romance mais bem-sucedido, Patria o Muerte (Prêmio Tusquets 2015). Mas o escritor, que ao lado de Cristina Marcano escreveu uma biografia de Hugo Chávez (Chávez sem uniforme, una história personal, de 2005) que soube retratar todo um país por meio da doença e morte de Hugo Chávez não se sente com forças para escrever uma segunda parte retomando a história com a eleição de Nicolás Maduro e a vertiginosa crise sem fim em que a Venezuela parece mergulhada. “Neste momento, a tragédia é tão impactante que não permite uma elaboração literária”, lamenta. “Você anda pela rua e vê gente recolhendo lixo ou que morre porque não tem suprimentos médicos. Leva muito tempo para que isso possa se tornar literatura. Agora é só tragédia.”

Pergunta. Como se narra a Venezuela de hoje?

Resposta. Também eu não sei como seria narrada hoje, é difícil. Não era fácil prever o que iria se passar depois da morte de Chávez e, de fato, acho que muita gente pensou que Maduro não iria durar tanto. Mas com o passar do tempo mostrou ser alguém capaz de ir removendo os inimigos internos, e se fincar no poder. Exerce a repressão como ninguém nunca pensou, de uma maneira selvagem e muito forte, e se mantém aferrado cada vez mais ali, concentrando mais poder e aguentando até mesmo a falta de legitimidade internacional, sem nenhum escrúpulo.

P. Acha que foi subestimado?

R. Nem sequer sei se ele ainda quer estar lá, ou se em mais de um momento disse a si mesmo: “Já não quero mais me encarregar disto, e quero me esconder da história”, e não pode ou não o deixam. Ele também representa um poder que pode ser o dos cubanos, ou o dos militares, ou ambos. É impressionante o poder que Maduro deu aos militares, militarizou a sociedade mais que Chávez, que era militar. Quando se pensa em termos da esquerda latino-americana, Maduro está muito mais próximo de [o ditador chileno Augusto] Pinochet que de Salvador Allende.

P. As eleições de maio podem mudar alguma coisa?

R. Não acredito. O que Maduro busca é legitimidade, mesmo que seja artificial, a possibilidade de invocar um processo eleitoral, embora um número grande demais de países não o reconheça. Mas isso não soluciona a crise.

P. Na época em que se situa Los Últimos Días del Comandante parecia impossível na Venezuela não falar de política. Como é agora?

R. Hoje o tema fundamental é a economia, e isso é um êxito do oficialismo, porque é uma forma de controle. As pessoas não falam de política, mas de onde vão conseguir comida, qual o preço que custa... As discussões se reduziram a um tema: sobreviver.

P. Escreveu a biografia de Hugo Chávez sem uniforme e um romance. Sente fascínio por ele?

R. É um personagem que influencia demais a vida dos venezuelanos, na minha geração. Entender Chávez é também entender o país. Chávez não existe sozinho, o líder carismático precisa de carismados, e é preciso se perguntar o que aconteceu, que país é esse, o que nós, venezuelanos, somos para que se produzisse um fenômeno como Chávez, e como agora estamos nesta cambalhota em que perdemos 20 anos. Temos um país arruinado, uma sociedade dividida e dizimada. A nossa ideia de país já é totalmente diferente e, portanto, nossa ideia de futuro. Cada um tem um irmão, um filho que partiu para algum lado... e a ideia de cada um de como vai envelhecer e morrer mudou. Este personagem, este Chávez que refunda o caudilhismo na Venezuela e que é caudilho militar, homem midiático, showman petroleiro e religioso, me parece muito interessante, continua sendo uma parte lamentável da tradição latino-americana.

P. E Maduro?

R. Sempre senti que sua tarefa, em boa parte, era proteger a imagem de Chávez. E conseguiu isso. Ele se encarregou da tragédia, devotamente está assumindo essa carga, ficando mal perante a história, mas está fazendo isso. Acho que há uma decisão de salvar Chávez desta crise, de não associá-la a ele. Maduro é como um sacerdote que faz o trabalho sujo e se sacrifica por Chávez. E até agora, pode-se dizer o que for, mas aí ele se mantém.

P. Como Chávez e Maduro passarão à história?

R. Calculo que passarão à história, mas é muito cedo, não sabemos quem poderá narrar a história. Um dos grandes trabalhos agora é ver como fica a memória, os testemunhos de tudo isto. É interessante que restem muito poucos registros das manifestações de 2014, e muito do que estava nas redes foi removido. A memória histórica é fundamental.

P. No futuro, Maduro terá seu próprio romance?

R. Eu não o escreverei, não acredito.

MAIS INFORMAÇÕES