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A economia venezuelana, em estado de coma

Nem sequer a tendência à alta do preço do petróleo freia a deterioração econômica do país latino-americano

Trabalhadores consertam uma locomotiva em Cidade Guayana, em 1 de novembro.
Trabalhadores consertam uma locomotiva em Cidade Guayana, em 1 de novembro. AP

A Venezuela acumula quatro anos de uma recessão econômica que já traz consigo os elementos de uma autêntica depressão. Uma bancarrota comparável à vivida há pouco tempo pela Grécia, embora com outros componentes e vários acréscimos. As autoridades se negam a oferecer dados formais das contas do país, mas algumas empresas especializadas calculam que, em 2017, a derrocada alcançou níveis de economia de guerra, com uma contração do PIB de 14%. Tudo parece indicar que o cenário será o mesmo em 2018.

Quatro anos de nefasta gestão econômica reduziram o tamanho da economia venezuelana em 35%. Alguns observadores, como Asdrúbal Oliveros, da empresa Ecoanalítica, estimam o déficit fiscal em 17% do PIB e a inflação em 2.700% no ano passado. A atual crise, sem precedentes na história venezuelana, é algo raro em um petroEstado e inscreve seu nome na história dos grandes naufrágios sociais da América Latina nos últimos 50 anos.

O afundamento da economia não foi exatamente propiciado por um colapso dos preços do petróleo. No momento, a cesta de petróleo bruto venezuelano beira os 60 dólares (cerca de 200 reais), uma cifra que em qualquer outro momento teria sido considerada ótima por qualquer ministro da Economia.

Oliveros opina que nem sequer uma nação em guerra, como a Síria, tem tais indicadores de deterioração. “Esta é a primeira vez que o setor externo não influi nos vaivéns da economia do país. A depressão nacional vai ter, sobretudo, graves consequências sociais, que provavelmente ainda não vimos de todo. Os empresários estão em situação difícil, mas podem resistir à tempestade. Muitos têm dólares investidos no exterior para se proteger.”

A Petróleos da Venezuela (PDVSA), o recurso natural do país ante qualquer contingência e agora quase a única fonte de receita, atravessa uma grave desordem funcional e monetária que se transfere milimetricamente à economia. No ano passado, segundo a Ecoanalítica, a petroleira reduziu sua produção em 300.000 barris diários, cifra que pode ultrapassar os 700.000 barris durante os cinco anos de Governo de Nicolás Maduro.

É um dos muitos descalabros que deram margem ao turbilhão venezuelano. As fontes consultadas não duvidam em apontar que são consequência do aprofundamento do viés ideológico na economia. O modelo de desenvolvimento chavista está traçado para colocar um hermético grilhão sobre todas as variáveis da produção e da formação de preços. O Estado assumiu a tomada dos setores produtivos e destina um importante esforço organizacional e político a criar estruturas comunais e organizações coletivistas absolutamente disfuncionais.

Câmbio negro

O setor privado vive espremido entre a total intervenção do Estado na economia e as sanções impostas pela comunidade internacional. Os aumentos de salários são compulsórios e ocorrem com frequência operações unilaterais para tentar, sem sucesso, baixar os preços.

A isso se soma um panorama anárquico do câmbio, dominado pelos interesses criados e a corrupção. No país existe uma taxa de câmbio oficial, calculada em 10 bolívares por dólar e um dólar paralelo, que o Governo não reconhece oficialmente, mas que alimenta todo o circuito econômico nacional, e que beira os 120.000 bolívares por dólar.

Embora as autoridades governamentais considerem o dólar paralelo como inimigo, não são poucos os membros do regime manchados pela especulação. Muito especialmente, os funcionários públicos e membros das Forças Armadas habilitados para outorgar licenças de importação e administrar divisas em conformidade com a paridade oficial e, pelo que se supõe, para atender às demandas de desenvolvimento nacional. Muitos deles obtêm suculentos lucros com a revenda de produtos e com negócios ilícitos usando a enorme brecha da diferença cambial.

O Governo de Maduro decidiu assumir o controle total das importações e dos portos, e se tornaram comuns os casos de superfaturamento nas aduanas. Em várias ocasiões, carregamentos de alimentos e medicamentos foram perdidos nos portos, em consequência da demora da burocracia e os apuros no pagamento de subornos. O índice de desabastecimento raramente ficou abaixo de 50% durante os cinco anos de Maduro.

A Venezuela registrou de 1940 até 1980 as taxas de crescimento econômico mais altas do mundo. Sua receita petroleira a mantinha a salvo dos furacões inflacionários e o desabastecimento era apenas pontual.

“As primeiras rachaduras começaram a aparecer por volta de 2009, quando o chavismo decidiu aprofundar seu modelo, ano em que começou um processo seletivo de controle nas divisas, eliminaram-se as formas alternativas para comercializar com o dólar e o desabastecimento se tornou crônico. Não foi mais possível ocultar isso a partir de 2012, quando Hugo Chávez ganha pela terceira vez as eleições presidenciais e se concretiza um boom importador gigantesco, com finalidades eleitorais”, afirma Oliveros.

Orlando Ochoa, economista e acadêmico especializado em finanças e petróleo, situa a origem do maremoto atual em 2007, ano da segunda vitória eleitoral de Chávez, quando começa a agressiva apropriação de ativos do setor privado, a hostilidade para com os investidores e os enormes gastos sociais para controlar eleitoralmente massas. “A crise venezuelana tem duas grandes causas: o dogmatismo ideológico, que se nega a interpretar a economia, e o gasto público descontrolado para suportar programas sociais com o objetivo de ganhar votos”, afirma.

Ochoa diz que as distorções conseguem se consolidar graças à natureza do próprio Maduro, um dirigente que desconhece economia e se rodeou dos quadros mais radicais do chavismo. Em parte, para conseguir um nicho político que lhe garanta força nas disputas internas. Luis Salas e Pascualina Curcio, e o economista espanhol Alfredo Serrano Mancilla, são seus principais apoios.

“O pior de tudo é que, com um programa econômico sensato e responsável, que vai requerer, claro, ajuda internacional, alguns dos males venezuelanos poderiam desaparecer em poucos meses”, afirma Ochoa. A chegada do ano eleitoral e a situação limite em que Maduro vive poderiam agravar as coisas: para 2018, a inflação no país poderia alcançar, segundo Oliveros, a estratosférica cifra de 7.000%. Um porcentual que poderia até se duplicar, na opinião de Ochoa, se não forem tomadas medidas urgentes.

Cinco anos de mandato em números

PIB minguante. Em 2014, o primeiro ano da crise política venezuelana, a economia se retraiu 5%; em 2015, o PIB voltou a se contrair, em 8%, e em 2016, mais 16%. Em 2017, a economia encolheu 14%, segundo calculam os analistas.

Inflação em alta. Os especialistas estimam que os preços subiram 525% em 2016. A essa cifra, não oficial, se soma uma taxa de inflação de 2.700% em 2017, que pode disparar este ano e chegar a 7.000%.

Produção de petróleo. Como membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a Venezuela tem designada uma quota de produção de petróleo que vem descumprindo de forma sistemática nos últimos anos. Em outubro, o país extraía 1,86 milhão de barris por dia, 110.000 barris a menos do que o especificado pela organização.

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