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Ab’Saber: “Há uma política de ódio paranoico que permite o desprezo total por Lula”

O psicanalista faz uma leitura da simbologia por trás da prisão do ex-presidente.

"Estamos vivendo um estado de guerra total em que há uma política paranoica muito primitiva"

O psicanalista Tales Ab'Saber, em São Paulo
O psicanalista Tales Ab'Saber, em São Paulo

Pode-se dizer tudo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, menos que não continua gozando de alta popularidade, mesmo julgado pela Operação Lava Jato e preso. Não à toa, as últimas pesquisas eleitorais para a corrida presidencial sempre o colocaram em primeiro lugar nas disputas e há grande expectativa para a próxima medição do Datafolha, prevista para ir a público no próximo domingo. Sua imagem, contudo, é, ao mesmo tempo, a de um herói e de um vilão. É o líder mais carismático do Brasil, mas também visto como a fonte dos problemas e discórdias do país por parte da população.

Para refletir sobre a imagem do ex-presidente e a simbologia por trás de sua prisão – e tudo que a antecedeu –, o EL PAÍS conversou com o psicanalista Tales Ab’Saber, professor da Unifesp e aberto crítico do Governo Temer e do impeachment que procura estudar a política de perspectivas diferentes da ciência política clássica. Autor dos livros Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica e Dilma Rousseff e o ódio político, pela editora Hedra, agora está finalizando Temer e o Fascismo Comum, que completa uma espécie de trilogia dos últimos anos da política no Brasil. Leia abaixo a conversa.

Pergunta. Do ponto de vista simbólico da política, o que significará, daqui para frente, o ex-presidente Lula preso?

Resposta. É provável que, mesmo preso, em meio a um cenário estranho e excêntrico de judicialização da política que vem ocorrendo no Brasil – focado até agora quase exclusivamente no PT e no Lula –, os brasileiros que viveram e melhoraram de vida sob os dois primeiros Governos do ex-presidente, continuarão sonhando com ele. Talvez, a partir de agora, sonharão até mesmo com mais intensidade. Já que além da memória de uma época em que mudaram de vida, agora há o aspecto sacrificial e de perdas de perspectivas a que esses mesmos brasileiros foram lançados nos últimos anos – como decorrência de uma política econômica neoliberal, um esquema de corrupção por enquanto inatingível pela Justiça e o desprezo pela vida popular do Governo pós-impeachment.

P. De quem você fala especificamente quando diz desses brasileiros que continuarão a sonhar com ele? Apenas a esquerda militante que simpatiza com ele?

R. Não só, mas também daquele extrato da sociedade de pobres conservadores que o consideravam um risco lá atrás e que hoje são os 30% de brasileiros que lembram de Lula e seu bom Governo e simplesmente o elegeriam novamente presidente a qualquer momento. Eles, depois das políticas sociais que beneficiaram suas vidas e depois de um trabalho de 20 anos de investimento de uma legião de intelectuais e homens de esquerda para legitimar a figura de Lula, passaram a confiar plenamente no ex-presidente. Tornaram-se, assim, parte da narrativa de sucesso que os pobres alcançaram durante os Governos de Lula.

P. Como você viu o discurso de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, logo antes da prisão?

R. O ponto central foi a ideia de que, a partir de agora, ele é uma ideia. Quando ele fala em ser um ideia, que pertence a todos, ele evoca termos universais para repor a força do desejo político de cada um. Lula não é um demagogo comum, nem um manipulador regressivo, antidemocrático, como existem tantos por aí hoje. Ele é a encarnação viva, numa potência de corpo única, do conflito entre capitalismo e democracia, em um país periférico e incompleto. Como representante democrático e negociador do conflito de classes que sempre foi, ele tem razão ao dizer que é uma ideia. Isso porque essa ideia de um mediador entre os excluídos e a ordem econômica capitalista é algo que não morre, porque é estrutural do problema da vida social. Essa ideia é uma das faces da própria democracia e ele encarna isso. Lula está no núcleo estrutural dessa questão: a democracia em sociedade de mercado responde ou não responde aos interesses de pobres e excluídos? Ou é democracia apenas para os detentores do poder de mercado? A ideia da dialética política dos conflitos de classe, de modo democrático, que é a defendida por Lula, é uma virtualidade civilizatória da própria democracia. Então, se de fato houver democracia, essa ideia é necessária, e não morre.

P. Apesar da barba e da fala enérgica do líder sindical, Lula nunca foi um radical, não é estranho que essa imagem seja colada a ele agora?

R. Essa imagem só vale para a parte da direita mais grosseira brasileira, a que tem feito tanto estrago na vida nacional e constrangido todo o espírito democrático. É claro que Lula sempre se moveu em uma corda bamba política, na qual ele se equilibrava bem. Sempre ficou entre assumir e convocar os interesses sociais populares, que foram muito tardiamente representados no poder executivo brasileiro, e negociar condições políticas e força institucional real por meio da interlocução com os interesses reais do capital nacional. Seu projeto, muito longe de qualquer radicalismo, foi um modelo de capitalismo nacional, integrado aos fluxos globais. Um plano de desenvolvimento de economia produtiva e de mercado interno, que empregava, produzindo aumento constante da inserção no trabalho e no consumo – a única moralidade que o capitalismo conhece, segundo Keynes.

P. Mas o que explica, então, a eleição de Lula por parte da sociedade como o pior mal da nação?

R. O que se viu no Brasil nos últimos quatro anos – desde quando a crise econômica mundial se agravou durante o Governo de Dilma Rousseff, dando sinal para a guerra aberta que vimos em seu segundo mandato – não foi apenas um ataque de parte da sociedade ao Lula, mas algo que visou degradar toda a esquerda ao atacar sua imagem. Estamos vivendo um estado de guerra total em que há uma política de ódio paranoica muito primitiva em que o alvo é a esquerda democrática contemporânea. Não à toa, do nada, foi reinventado um anticomunismo delirante. Há uma massiva metafísica do mal, muito violenta, um desejo gnóstico negativo, que permite o desprezo total pelo inimigo imaginado que, no caso, é Lula, representando toda a esquerda. Foi assim que a direita brasileira, em um estado de paixão que, entre outras coisas, produziu toneladas de mentiras infindáveis em redes sociais, alcançou um grau de intolerância elevado. Ele é amado demais, e odiado demais também. Torna-se a obsessão de todos. E mesmo sendo um imenso democrata, como Lula é, será odiado. O sacrifício de Lula é social, realizado por grandes conflitos simbólicos de classe. O poder instituído não pode tolerar um homem que sozinho tenha tanto poder pessoal, carismático.

P. Você definiu o Lula como um “herói da luta de classes” no Brasil, mas sua imagem de radical ficou para trás faz muito tempo. Por que essa definição?

R. Lula fez um Governo entre as bolsas sociais para os brasileiros muito pobres, as desonerações de impostos básicos e o financiamento de consumo de bens fundamentais para boa parte da população que não podia consumir. Por outro lado, houve sempre o enriquecimento dos muito ricos com a garantia de um Governo desenvolvimentista. Nenhum contrato foi rompido, o superávit fiscal foi mantido e até ampliado, a inflação controlada e a vida econômica, com trabalho formal e com direitos trabalhistas, disparou o país. Assim, depois de seus dois mandatos bem sucedidos, Lula ficou imensamente poderoso. Era celebrado pelos pobres, que se sentiam contemplados de modo digno e raro no Brasil. Mas também foi celebrado pelos mercados que estavam aquecidos e que enriqueciam. Além disso, sua política sempre conciliadora aceitou o arcaísmo e a regra do jogo da corrupção universal, que foi mantida durante todo seu Governo. Assim, nessa época, ele era uma solução para todos.

P. Um “herói” pelo fato de ter conseguido conciliar diferentes brasis durante oito anos?

R. Mas também pela imagem que se acabou criando ao seu redor. Durante este período importante da vida de Lula, o de seus dois Governos, seu valor nos corações e mentes dos brasileiros cresceu muito a seu favor. Com a investidura simbólica do cargo de presidente e com a sua linguagem e performance pessoal hábil e rica, de caráter moderna e popular, além do seu habitus de classe renovado por sua própria história de ascensão e experiência, Lula se tornou um verdadeiro super-herói carismático, no país e no mundo. Ele se elevou ao nível mais fluido e universal do carisma político contemporâneo, o carisma pop, que aproximava e ligava o seu sucesso econômico, o seu charme pessoal, a sua habilidade de linguagem e presença de espírito com a própria excitação da vida animada do mercado mais comum que acontecia no Brasil. Tudo confluía para o seu poder e a sua propaganda, natural industrial.

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