Operação da Polícia Federal

Temer volta à guerra contra Justiça e diz que “forças obscuras” tentam impedir sua candidatura

Planalto afirma que a operação autorizada pela procuradora-geral para prender amigos do presidente usa "métodos totalitários"

Michel Temer, em um ato na quinta-feira passada em Vitória do Espírito Santo
Michel Temer, em um ato na quinta-feira passada em Vitória do Espírito SantoALAN SANTOS / AFP

Um dia depois da Operação Skala, que prendeu dois amigos muito próximos do presidente Michel Temer sob suspeita de corrupção, o Planalto reagiu nesta sexta-feira através de uma nota com um ataque extremamente duro à Justiça. A Presidência da República recuperou o tom de forte confronto que empregou há meses contra o ex-procurador geral Rodrigo Janot, quando este apresentou duas denúncias contra Temer. Segundo a nota do Planalto, a operação deflagrada pela Polícia Federal, sob comando da atual procuradora-geral, Raquel Dodge, usa "métodos totalitários". Na visão da Presidência, há "forças obscuras" que tentam impedir Temer se candidatar à reeleição em outubro.

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A nota do Planalto não cita expressamente Raquel Dodge, mas a linguagem evoca os piores momentos do confronto de Temer contra Janot quando o então procurador-geral apresentou as duas denúncias contra ele embasadas na delação dos donos da JBS. De fato a Presidência da República lembra esse episódio para compará-lo com a operação que na quinta-feira passada levou presas 13 pessoas, dentre elas o advogado José Yunes e o coronel João Batista Lima Filho, amigos e assessores de longa data de Temer, envolvidos em um suposto esquema de corrupção com contratos no Porto de Santos. "Repetem o enredo de 2017, quando ofereceram os maiores benefícios aos irmãos Batista para criar falsa acusação que envolvesse o presidente. Não conseguiram e repetem a trama, que, no passado, pareceu tragédia, agora soa a farsa", afirma a nota do Planalto, que foi divulgada após reuniões do presidente com ministros e assessores ao longo da tarde desta sexta-feira.

Como já  o porta-voz do Governo, o ministro Carlos Marun, havia feito na quinta-feira, a Presidência da República liga a operação judicial com o anúncio de Temer de que está disposto a se candidatar nas eleições presidenciais de outubro próximo. Essa possível candidatura ficou muito fragilizada após a operação contra seus homens de confiança, segundo opinião compartilhada pela própria base aliada do emedebista."Bastou a simples menção a possível candidatura para que forças obscuras surgissem para tecer novas tramas sobre velhos enredos maledicentes. No Brasil do século XXI, alguns querem impedir candidatura. Busca-se impedir ao povo a livre escolha. Reinterpreta-se a Constituição, as leis e os decretos ao sabor do momento", acrescenta a nota.

O Planalto insiste na tese que vem defendendo desde que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso abriu um inquérito para esclarecer se o Decreto dos Portos aprovado em maio passado com a assinatura do presidente da República visava favorecer a empresa Rodrimar, que opera em Santos. O dono dessa companhia, Antonio Celso Grecco, é uma das pessoas presas na Operação Skala. O Decreto regularizou e ampliou a cessão de áreas para empresas que atuam nos portos do país. Mas o Planalto alega que essa norma não pode se aplicar as companhias que têm contratos firmados antes de 1993, como é o caso da Rodrimar, e, por tanto, ela não foi favorecida.

Mesmo sem falar especificamente da procuradora-geral ou do ministro do STF que comanda o inquérito, a nota do Planalto alude de maneira genérica a "autoridades" para acusá-las de "tentar destruir mais uma vez a reputação" do presidente e de "criar narrativas que gerem novas acusações". Em um dos trechos mais duros da declaração, a Presidência da República manifesta: "Usam métodos totalitários, com cerceamento dos direitos mais básicos para obter, forçadamente, testemunhos que possam ser usados em peças de acusação".

Um dos envolvidos na Operação Skala, o coronel Lima, amigo há décadas de Temer e acusado por vários delatores de receber propinas de empresas, se recusou nesta sexta a depor diante da Polícia Federal alegando problemas "físicos e psicológicos". Lima já passou mal depois de ser preso na quinta-feira e foi atendido no hospital Albert Einstein de São Paulo. A PF já havia tentado três vezes nos últimos meses tomar depoimento o coronel Lima, mas ele conseguiu adiar alegando sempre problemas de saúde.

Enquanto isso, a ministra do STF Rosa Weber rejeitou a solicitação de habeas corpus apresentada pelo advogado do dono da Rodrimar, Antonio Celso Grecco, que também prestou depoimento diante da PF nesta sexta.

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