Quem são os escudeiros de Temer presos e do que são acusados

José Yunes e o Coronel Lima são amigos de décadas do presidente e foram descritos por delatores como sendo operadores de propinas

A prisão temporária do empresário José Yunes e do coronel João Batista Lima Filho pela Polícia Federal nesta quinta-feira colocou atrás das grades, em uma tacada só, dois grandes amigos de décadas do presidente Michel Temer. Sob ambos pesa a suspeita de terem intermediado o pagamento de propinas que teriam como destinatários o MDB e o próprio presidente. Além deles, outro aliado de peso do Planalto, o ex-ministro da Agricultura e ex-deputado federal Wagner Rossi (MDB), também foi detido. Veja quem são os escudeiros do emedebista alvos da ação:

PF prende José Yunes, Coronel Lima e Wagner Rossi.
O ex-ministro da Agricultura e aliado próximo de Temer Wagner Rossi é preso. EFE

José Yunes

Yunes e Temer são amigos há mais de seis décadas. Se conheceram no final dos anos de 1950, na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no Largo São Francisco, região central da capital. Durante seus tempos como estudante o empresário chegou a dirigir o famoso Centro Acadêmico XI de Agosto. Yunes também participou, ao lado de Temer, da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, na condição de deputado federal suplente. Mas encerrou por aí sua carreira com mandatos eletivos.

Após a aprovação da Constituição de 1988, o empresário se dedicou ao seu escritório de advocacia e às suas empresas do ramo imobiliário. Mesmo longe da política, manteve sólidos os laços com Temer: o escritório do presidente em São Paulo, por exemplo, no luxuoso bairro do Itaim Bibi, está localizado em um edifício de propriedade de uma empresa da família de Yunes. E não para por aí: o presidente também comprou do advogado um imóvel no Alto de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Como o EL PAÍS revelou no ano passado,Yunes deteve por três anos, a partir de 6 de dezembro de 2013, uma procuração para "celebrar quaisquer contratos, depositar e retirar dinheiro, endossar e assinar cheques, autorizar transferências eletrônicas e pagamentos, tomar saques e reconhecer saldos" de contas bancárias de Temer.

Quando Temer assumiu a vice-presidência durante o Governo de Dilma Rousseff - e posteriormente o Planalto com o impeachment da petista -, o empresário foi alçado à chefia do diretório municipal do PMDB em São Paulo. À frente da legenda na maior capital do país ele coordenou a derrotada campanha de Marta Suplicy à Prefeitura em 2016. Yunes alçaria voos ainda mais altos dentro do partido. Ao assumir a presidência, Temer nomeou o amigo para o cargo de assessor especial. Não durou muito: em dezembro de 2016 Yunes foi a primeira baixa no Governo provocada pela delação do ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Melo Filho. O empresário entregou sua carta de demissão após o colaborador da Justiça afirmar ter pago a ele, em espécie, parte dos 10 milhões de reais repassados durante a campanha de 2014 ao PMDB. O dinheiro teria sido entregue no escritório de Yunes, em São Paulo.

"Nos últimos dias (...) vi meu nome jogado no lamaçal de uma abjeta delação (...) pela qual teria eu recebido parcela de recursos financeiros em espécie de uma doação destinada ao PMDB. Repilo com a força de minha indignação essa ignominiosa versão", escreveu à época Yunes. Em seu pedido de demissão ele faz questão de lembrar a profunda amizade com Temer, que viria desde "os heroicos tempos nas Arcadas do Largo de São Francisco". Mais à frente, ele afirma que o presidente tem nele "o leal amigo que o acompanha há décadas e que o admira por suas incomparáveis qualidades", dentre as quais "a sapiência, o respeito pelo outro, a determinação de fazer as grandes reformas que o país exige e a vontade férrea de pacificar a Nação".

Depois da demissão, Yunes mostrou ressentimento com o atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, outro homem forte de Temer. Yunes teria dito que Padilha o fez de "mula" ao pedir que ele recebesse um "pacote" em seu escritório em 2014. Ainda segundo Yunes, o emissário do pacote foi Lucio Funaro, um operador do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

João Batista Lima Filho

Coronel aposentado da Polícia Militar, Lima é amigo de Temer há mais de três décadas. Os dois se aproximaram quando o policial ocupou cargos na gestão do governador Franco Montoro em São Paulo. Posteriormente Lima foi assessor de Temer na Secretaria de Segurança Pública de São Paulo nos anos 80, e chegou até mesmo a auxiliar o atual presidente em seu primeiro divórcio.

Os dois foram também companheiros de escândalos: quando o presidente foi mencionado pela primeira vez em um caso de corrupção, no Porto de Santos no fim dos anos de 1990, Lima já estava lá, descrito como um opaco assessor. Naquele caso, que agora volta à tona e foi até requisitado pelo STF, Temer e o coronel foram citados pela ex-mulher de um diretor como beneficiários de propinas desviadas de contratos do porto. Agora o STF e a PF investigam se Lima atuou todos esses anos como um laranja do Temer.

Ele também frequentou o noticiário ao ter sua fazenda invadida três vezes por militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra e outras organizações de camponeses como forma de pressionar o próprio Temer. Reportagem do EL PAÍS no ano passado mostrou que o Incra fez uma inusual tentativa de entrar num leilão para comprar terras reivindicadas por um dos grupos que invadiram a propriedade.  Localizada em Duartina, interior de São Paulo, a propriedade - de nome Esmeralda - tem 484 hectares e é avaliada em aproximadamente 10 milhões de reais. Os moradores da região chamam ela "a fazenda do Temer".

Lima e a Argeplan, empresa da qual é sócio, foram citados pelo empreiteiro José Antunes Sobrinho, sócio da Engevix, em acordo de delação premiado. Eles teriam intermediado a arrecadação de recursos ilegais ligados a contratos da Eletronuclear. Conforme reportagem da revista Época, Sobrinho teria se referido a Lima como "homem da total confiança de Temer". Outro delator também implicou o coronel. De acordo com o depoimento do colaborador Florisvaldo Oliveira, conhecido como o distribuidor de propinas da JBS, foi entregue uma caixa com 1 milhão de reais em espécie a Lima. De acordo com os delatores do frigorífico, o dinheiro fazia parte de uma partilha total de 15 milhões de reais que a JBS deu para Temer entre agosto e outubro de 2014.

Por fim, documentos encontrados em um dos imóveis de Lima durante a Operação Patmos, em maio de 2017, apontam que ele seria o beneficiário de uma conta offshore que poderia ter sido usada para movimentar valores ilegais. Nessa mesma operação, a policia encontrou cópia de um e-mail no que um arquiteto cobra do coronel o pagamento de 44.394,42 reais por uma reforma realizada entre 2014 e 2015 na casa de uma das filhas do presidente, segundo publicou o jornal Folha de S. Paulo.

Wagner Rossi

O ex-ministro da Agricultura também goza da confiança do presidente Temer. O nome dos dois foi mencionado pelo delator Joesley Batista, da JBS, em seus depoimentos à Justiça. Segundo o colaborador, “Rossi era afilhado político de Michel Temer e operava com ele no Porto de Santos”: o político emedebista dirigiu, de 1999 a 2000, a Companhia Docas do Estado de São Paulo. De acordo com o empresário do ramo dos frigoríficos, foi Rossi quem o apresentou a Temer. Posteriormente, ainda segundo Joesley, Temer teria pedido uma espécie de "mensalinho" no valor de 100.000 reais, a serem pagos para Rossi após ele deixar o Ministério de Agricultura- fato que o presidente nega.

Outro episódio nebuloso envolvendo os dois foi a viagem à Bahia feita por Temer, em 2011, a bordo de um jatinho propriedade de Joesley. Inicialmente o presidente negou ter utilizado a aeronave do empresário, mas posteriormente se retratou, e alegou que Rossi havia providenciado o avião sem informá-lo de quem era.

Rossi,que é pai do deputado federal Baleia Rossi, atual líder do MDB na Câmara, sempre negou qualquer irregularidade.

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