O Oscar mais inclusivo da história

A 90ª cerimônia defende com orgulho a diversidade, a igualdade e a liberdade sexual

Lupita Nyong’o e Kumail Nanjiani no palco do Oscar
Lupita Nyong’o e Kumail Nanjiani no palco do OscarKEVIN WINTER (AFP)

Qualquer um se lembra de alguma sequência de um filme. O bom cinema sabe como oferecer sonhos, esperanças, alegrias e tristezas. Em teoria, a todos. Na prática, muito mais para alguns. Porque a sétima arte é feita, em sua grande maioria, por homens brancos heterossexuais que contam histórias sobre eles e para eles. Isso se reflete nos dados e nas 89 edições do Oscar até o momento. Mas neste ano, um movimento nascido para combater o assédio sexual disse Time’s Up, “acabou-se”. O mundo, finalmente, pareceu ouvir. A cerimônia também. E em seu 90º aniversário, a cerimônia foi talvez a mais inclusiva que se tenha notícia. O Oscar devia isso a todos aqueles que o cinema sempre ignorou: a metade feminina do mundo, os negros, os latinos, os gays, as lésbicas e os transexuais. Por uma vez todos tiveram o espaço que sempre mereceram.

“Somos dreamers [sonhadores]. Crescemos sonhando que um dia trabalharíamos nos filmes. Os sonhos são o fundamento da América”, disseram juntos no palco Lupita Nyong’o, negra norte-americana de origem mexicana, e Kumail Nanjiani, paquistanês criado em Iowa. Assim lembraram os chamados dreamers, os mais de 800.000 imigrantes sem documentos que chegaram aos EUA sendo menores de idade e que Donald Trump quis expulsar do país. “Para todos os sonhadores lá fora. Estamos com vocês”, acrescentaram. Pouco depois, o ator e escritor mexicano Eugenio Derbez, ao apresentar a canção Recuérdeme, do filme Coco, que aborda o Dia dos Mortos em seu país, disse: “No além, não há muros”.

Mais informações

Também não havia no palco do Oscar. Não houve necessidade de protestos tão óbvios quanto os vestidos pretos no tapete vermelho do Globo de Ouro; embora Frances McDormand, quando recebeu o Oscar de melhor atriz, pediu que “todas as indicadas” se levantassem. “Peço aos produtores que não falem conosco sobre nossos projetos na festa desta noite. Convidem-nos para ir aos escritórios e lá nós falaremos sobre isso”, defendeu a intérprete. De resto, os prêmios mais importantes escolheram a uniformização e as homenagens em vez da indignação: o cinema somos todos nós, parecia querer dizer a festa. Rachel Morrison, primeira diretora de fotografia da história indicada ao Oscar, disse no tapete vermelho que “vai começar a ser difícil ter desculpas para não contratar mulheres”. E protagonistas como Guillermo del Toro e Richard Jenkins usavam broches do Time’s Up. O cineasta mexicano, com o prêmio de melhor diretor nas mãos, disse: “Sou imigrante, como Alfonso [Cuarón], como Alejandro [González Iñárritu], como meus colegas e como muitos de vocês. A melhor coisa da nossa arte é que ela apaga as linhas na areia. Temos de continuar fazendo isso quando o mundo nos diz para fazê-las mais profundas”.

“Um novo caminho está sendo aberto, as mudanças são conduzidas por novas vozes, um coro que recita Time’s Up”, disseram, juntas no palco, Ashley Judd, Salma Hayek e Annabella Sciorra, três das vítimas dos abusos de Harvey Weinstein, o todo-poderoso produtor cuja queda em desgraça, depois das denúncias de dezenas de mulheres, desencadeou o furacão #MeToo contra o assédio sexual. E o apresentador Jimmy Kimmel dedicou boa parte do seu monólogo à inclusão das mulheres.

Mas não foi só isso. No palco, ouviram-se gritos de “Viva a América Latina” e “Viva o México”; a transexual Daniela Vega, protagonista do filme chileno Uma mulher fantástica, disse que “uma vez que as portas se abrem é difícil fechá-las”, e qualquer momento da cerimônia parecia se preocupar com o equilíbrio, a representatividade e a inclusão. O ator Wes Studi, um nativo norte-americano cherokee que alguns lembrarão pelo trabalho em Dança com Lobos, também teve seu momento.

Havia tanta inclusão que as comediantes Tiffany Haddish e Maya Rudolph vieram tranquilizar o público: “Não se preocupem que muitos brancos mais estão chegando”. No entanto, logo depois, um vídeo homenageou a diversidade deste ano: de Mudbound, um drama sobre racismo, a Strong Island, um documentário de um diretor negro transexual, de Corra! a Me Chame pelo Seu Nome. Greta Gerwig, a única cineasta indicada ao prêmio de melhor direção, lembrou que todos os seus filmes da infância “sempre eram dirigidos por homens”. Ainda hoje, as mulheres estão à frente de apenas 11% dos filmes de Hollywood. “Esses quatro homens e Greta Gerwig criaram as joias deste ano”, disse Emma Stone ao anunciar o prêmio de melhor direção.

Por uma vez todos tiveram o espaço que sempre mereceram

O difícil, é claro, é que tudo isso realmente mude. E que esta não acabe sendo apenas uma ocasião pontual, perdida. “Quero que as pessoas saibam que este não é um movimento que acaba hoje. Seguirá adiante até existir igualdade”, afirmaram no tapete vermelho Ashley Judd e Mira Sorvino, que estão entre as primeiras a denunciar os abusos de Weinstein. Conforme lembrou nos dias anteriores o jornal The Hollywood Reporter, a partir dos anos cinquenta cada década do Oscar teve cerimônias que atacaram a discriminação. Choviam belas palavras, boas intenções e pintava-se um futuro melhor. A cada vez, no entanto, a raiva evaporava tão rapidamente quanto tinha crescido. Havia barulho, mas nenhuma mudança. Que isso sirva de lição.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: