Oscar 2018

‘Uma Mulher Fantástica’ leva o Oscar para o Chile

Sebastián Lelio recebe a estatueta de melhor filme de língua estrangeira

Sebastián Lelio com o Oscar. Atrás, a partir da esquerda, Juan de Dios Larraín, Daniela Vega, Francisco Reyes e Pablo Larraín
Sebastián Lelio com o Oscar. Atrás, a partir da esquerda, Juan de Dios Larraín, Daniela Vega, Francisco Reyes e Pablo Larraín

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Venceu o Fênix, o Goya, até o prêmio do cinema indie no dia anterior, o Independent Spirit. Ninguém parecia poder derrotar o chileno Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio, na categoria de filme de língua estrangeira. Desde sua estreia na Berlinale de 2017, onde ganhou o prêmio de melhor roteiro, o filme, que mostra o drama de uma mulher transexual cujo companheiro morre de repente e vê seu mundo abalado pela primeira esposa e os filhos do falecido, ganhou prêmio atrás de prêmio.

No palco, Lelio foi rápido no agradecimento, com seus atores Daniela Vega e Francisco Reyes, e os produtores, os irmãos Juan de Dios e Pablo Larraín. É o segundo Oscar do Chile, após o curta-metragem A História de Um Urso em 2016. É um filme com aroma a Almodóvar. “Tomo a comparação como um elogio, mas minha referência sempre foi A Bela da Tarde, de Buñuel”, disse em San Sebastián o diretor de Gloria. “Provavelmente há um grande nível canônico proveniente de Almodóvar nesses assuntos. Sendo muito honesto – e quem diz isso é alguém que há pouco voltou a ver Tudo Sobre Minha Mãe banhado em lágrimas – no panteão dos filmes que me inspiraram a fazer Uma Mulher Fantástica não estavam os de dom Pedro. Mas os espectadores sempre encontram pistas, pegadas, das que nós diretores a priori não estamos conscientes. Ainda que com o protagonismo de uma mulher transexual, mas com pitadas assumidas de melodrama, cruzado pelo thriller, em um filme que também é uma reflexão sobre o cinema... entendo a referência almodovariana. Eu pensava mais em Jeanne Moreau em Ascensor para o Cadafalso”. Ou Um Corpo Que Cai. “Obrigado, eu não me atrevia a dizê-lo”.

Moreau foi uma influência clara no personagem interpretado por Daniela Vega. Por sua elegância ao mover-se, evidentemente. “E também porque é um tipo de heroína com um espírito anterior correspondente às heroínas dos anos cinquenta, mais situadas no enigma do que... no genarowlandsdiano (referência à atriz norte-americana Gena Rowlands), outro registro que eu amo muito, mas que aqui não funciona, pelos jogos de imagens projetadas e paralelas. O enigma é o recipiente perfeito para nossas próprias fantasias, desejos, temores...”.

O filme não nasceu do personagem de Daniela Vega, mas de outro conceito: “O que acontece se a pessoa que você mais ama morre em seus braços, e esses braços são o pior lugar para que seu companheiro morra porque por alguma outra razão você é a indesejada? Essa pergunta foi o motor, e ao escrever demos voltas até que chegamos à mulher transexual”. Uma descoberta que acrescenta surpresas e poesia a um conceito já visto no cinema. “É um cavalo de Troia: o revestimento do clássico, mas com um coração hipermoderno, e nesses elementos surge uma questão estética e ética que faz do filme o que ele é”. Existem mais jogos: “Sim, como colocar de protagonista alguém a quem a sociedade diz que não merece um filme e filmá-lo como se fosse Jeanne Moreau, como um ato de amor”. Daniela Vega é o grande presente? “Ao decidir a transexualidade da protagonista, eu, que morava em Berlim, pesquisei no Chile como seria seu dia a dia. Duas pessoas diferentes nos falaram sobre Daniela, literalmente, que era fantástica. Após a primeira conversa, eu saí transformado. Minha cabeça explodiu. Soube que não faria o filme sem uma atriz transexual, e que Daniela seria nossa assessora. Ficamos amigos por Skype. Pouco a pouco sua presença foi entrando no roteiro. Na metade da escrita senti o segundo clique: Daniela era Marina. Ela também trouxe uma pergunta: O que é uma mulher?”.

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