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Rachel Morrison, uma mulher chamada a fazer história no Oscar

Cineasta é a primeira cineasta a concorrer uma estatueta de Melhor Fotografia por seu trabalho em 'Mudbound'

Oscar 2018 Rachel Morrison fotografia
Rachel Morrison em 5 de fevereiro Invision/AP

Rachel Morrison está habituada a olhar através das câmeras, mas não a ficar no ponto de mira. Agora não tem mais jeito. Seu trabalho em Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi a tornou a primeira mulher que concorre ao Oscar como melhor diretora de fotografia. Isso levou 90 anos. “Espero que seja porque gostem do meu trabalho, e não por ser mulher”, se permite brincar com EL PAÍS. “Entendo a importância de minha candidatura entre as mulheres, a visibilidade que isto nos dá”, confessa em uma ladainha muitas vezes repetida desde o anúncio das indicações. “Mas está sendo uma loucura. E me sinto mais à vontade atrás das câmeras”, repete.

Em vez de pensar na história, Morrison prefere viver o momento como um encontro no qual está acompanhada de seus heróis. “Não conhecia pessoalmente Roger Deakins e agora nos vemos todos os dias”, comenta sobre o veterano fotógrafo de Um Sonho de Liberdade (1994), Kundun (1997) e Operação Skyfall (2012) que, depois de 14 candidaturas ao Oscar, provavelmente obterá a estatueta por seu trabalho em Blade Runner 2049. Para Morrison esse detalhe não importa. Sua melhor lembrança nessa profissão foi o dia em que a convidaram a fazer parte da sociedade norte-americana de diretores de fotografia: “Pela primeira vez senti que me levavam a sério”.

Nascida em Massachusetts (EUA) há 39 anos, Morrison soube desde que começou seus estudos que a especialização como diretora de fotografia não era um lugar onde as mulheres fossem bem-vindas. Ninguém lhe deu um motivo. Pelo contrário, em fotografia fixa, homens e mulheres se dividem nos postos de trabalho em 50%. No entanto, em Hollywood somente 5% dos filmes que estrearam em 2016 contaram com uma diretora de fotografia. Isso não a deteve. “Ao contrário, ficou mais atraente. Foi um desafio, fazer algo que não esperam de você.”

Tráiler de 'Mudbound'.

Não se trata de brigar por brigar, mas também de amar a profissão. Morrison gosta de ver o mundo através de suas lentes. Até mesmo quando não trabalha se entretém fotografando o filho de três anos, embora não possa utilizar suas Leicas favoritas porque o pequeno não para quieto. “Na fotografia gosto de tudo: da magia de caçar as imagens, de revelá-las, de capturar o movimento”, reflete. Léolo – Porque eu Sonho (1992) foi o primeiro filme que lhe abriu os olhos para a existência de algo chamado direção de fotografia. Delicatessen, Ladrão de Sonhos e os filmes de Emir Kusturica e de Wong Kar-wai viriam depois para lhe revelar “uma realidade mágica, imagens incríveis que alguém tinha de capturar”.

Isso é o que Morrison vem fazendo em uma dúzia de longas-metragens no mundo do cinema independente. Pouco a pouco, a rainha de Sundance foi vendo muitos de seus colegas darem o salto para grandes produções depois do primeiro trabalho. Eram homens. Ela diz isso às claras, ainda que sem rancor. Por exemplo: Mudbound teria sido o filme perfeito com mais tempo e dinheiro, diz. Mas Morrison e sua diretora, Dee Rees, tiveram de aceitar “o sacrilégio” de rodar Luisiana em suporte digital porque o valor equivalente a 32 milhões de reais de orçamento não dava para mais. Ainda assim, Mudbound concorre a quatro estatuetas. “O melhor elogio que recebo é quando dizem que parece fotografia tradicional”, comenta, com clara preferência pelo analógico.

A tecnologia lhe parece uma faca de dois gumes. “Todos se consideram fotógrafos com um iPhone no Instagram”, afirma. E em Hollywood mais ainda porque a tecnologia faz com que todos se permitam uma opinião. “Gostava mais quando somente o diretor de fotografia sabia o que ia capturar”, acrescenta com nostalgia sobre essa intimidade, o toque “mágico” que a fotografia tinha antes. Outra coisa que detesta da tecnologia: quando escuta que a evolução das câmeras permite um maior acesso das mulheres a sua profissão. “É um mito que haja mais mulheres porque as câmeras são mais leves”, espicaça. Nem há mais mulheres e “qualquer fotógrafo prefere o peso de uma câmera bem equipada”.

Nos últimos dias, Morrison tem mais coisas a festejar. Seu 13º filme é um fenômeno cultural e de massas: Pantera Negra. Tinha colaborado com Ryan Coogler em Fruitvale StationA Última Parada (2013) e o que mais esperança lhe dá em seu primeiro trabalho como diretora de fotografia em um filme de grande orçamento é a forma como foi recebida, fazendo a bilheteria dar um salto com um super-herói negro. “Posso ver a mudança.” Quer continuar fazendo superproduções? Não necessariamente. Busca variedade, diretores como Coogle, Rees e Rick Famuyiwa e, antes de tudo, histórias. Mas gostou de trabalhar com a Marvel e contar com o apoio de outra mulher, a produtora argentina Victoria Alonso, vice-presidente executiva da empresa, como sua aliada. “Victoria quis contar comigo desde o início e também me disse isso de “agora não estrague tudo, porque somos muitas as que estão olhando”, lembra. E assim fez.

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