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Um jovem Kennedy dá a réplica democrata a Trump

Congressista Joe Kennedy III, sobrinho-neto de JFK, acusa Trump de rachar o país

Joe Kennedy III
Joe Kennedy, congressista por Massachusetts, neto de Bob Kennedy AP

Como resposta, um Kennedy. Ainda convulsionados pela grande derrota eleitoral de 2016, e sem líderes de futuro definidos, os democratas confiaram a réplica ao discurso do estado da União ao jovem congressista Joe Kennedy III, neto de Bob Kennedy e sobrinho-neto de JFK: um homem de 37 anos que remete a uma era de esplendor do partido. O político de Massachusetts fez de seu discurso uma correção da paisagem de “sonho americano” desenhada por Donald Trump, a quem acusou de promover um “racha” social com um falso dilema entre os norte-americanos, como se o Governo tivesse que escolher entre defender o campo ou a cidade, mineradores ou mães solteiras, empresários ou trabalhadores.

“O mais fácil seria dizer que no ano passado tivemos caos, partidarismo e política, mas [o panorama] é mais grave”, destacou. “Somos bombardeados com falsas escolhas todos os dias, como se o pai que acorda aterrorizado com a ideia de que seu filho transgênero corre risco de sofrer assédio ou de apanhar fosse menos legítimo do que aquele que tem o coração partido porque sua filha está nas garras dos opiáceos”. “Eis aqui a resposta dos democratas: escolhemos os dois, lutamos pelos dois”, clamou. Nessa linha, defendeu os imigrantes como fundamental para o sucesso e para a história do país, e acusou a Administração Trump de ter estimulado o extremismo. “O ódio e a supremacia [racial] caminham orgulhosos por nossas ruas”, lamentou. “E isso não somos nós”.

Kennedy fez seu discurso de gravata mas sem paletó em um instituto de formação técnica em Fall River, vilarejo a menos de 100 quilômetros de Boston, antiga cidade de produção têxtil que se viu prejudicada pela desindustrialização. Foi uma maneira de se aproximar deste eleitor branco e trabalhador com quem os democratas querem se conectar novamente às vésperas das eleições legislativas, a serem realizadas este ano. Congressista em Washington desde 2012, dono de uma chamativa cabeleira ruiva, o político ganhou protagonismo no último ano com discursos muito progressistas. Para os democratas, ele permite mostrar que o partido, assim como os grandes clubes de futebol, tem jovens promessas e talentos prontos para renovar a equipe principal. Mas sua escolha como garoto-propaganda em uma noite como a de terça-feira – um enorme hit da liturgia política americana –, também gerou críticas entre analistas por causa de seu perfil dinástico.

os democratas confiaram a réplica ao discurso do estado da União de Trump ao jovem congressista, reeleito por Massachusetts em 2016 para seu terceiro mandato

Michael Steel, que foi chefe de imprensa do gabinete do líder da maioria republicana, Joen Boehner, advertiu, no The Washington Post, que “escolheram um branco filho do privilégio do Estado mais progressista do país. Hoje os eleitores mais insatisfeitos rejeitam as dinastias políticas (como meu antigo chefe, Jeb Bush, descobriu em 2016)”. Mas Steel se esquece de que esses eleitores deram a Casa Branca a um também branco magnata de Manhattan, já nascido milionário, que ainda assim teve que batalhar para se erguer como um opositor ao establishment.

Para os dreamers, em espanhol

Em um discurso genérico, que evitou citar dados concretos para atacar o primeiro ano de mandato de Trump, o jovem Kennedy defendeu melhoras trabalhistas. Afirmou que a Rússia “está metida até o pescoço” na democracia norte-americana e repassou as causas omitidas por Trump – o movimento contra o assédio sexual #MeToo ou a campanha anti-racista #BlackLivesMatter. Referiu-se ao muro que Trump quer construir na fronteira com o México para advertir que sua geração irá derrubá-lo. E se dirigiu, em espanhol, aos dreamers – os jovens migrantes que chegaram aos Estados Unidos ilegalmente quando crianças e de quem Trump tirou a cobertura legal. “Vocês são parte da nossa história, vamos lutar por vocês”, disse.

Joe Kennedy foi reeleito congressista por Massachusetts em 2016 para seu terceiro mandato. Primeiramente formado pela Universidade de Stanford, em 2009 também se licenciou em direito por Harvard, onde teve como professora a senadora democrata por Massachusetts Elizabeth Warren, e onde conheceu sua futura mulher, Lauren A. Birchfield. Quando estudante, foi apelidado de “leiteiro” porque não consumia bebidas alcóolicas. Fala espanhol porque entre uns estudos e outros foi voluntário do Peace Corps na República Dominicana. Antes de sua chegada a Washington, foi fiscal de distrito em Cape Cod. Sua trajetória no Congresso ganhou protagonismo no último ano, em paralelo ou talvez incentivada pela era Trump. Obteve momentos bastante famosos, como seu discurso na Câmara dos Representantes sobre a anulação da reforma da saúde feita por Obama, o que Kennedy qualificou como um ato de malícia. Teve 10 milhões de acessos no Facebook.

Mas o discurso da noite de terça-feira foi, sem dúvida, o que o colocou no centro da atenção nacional. A versão em espanhol foi feita por Elizabeth Gusman, representante da Virgínia. A convidada escolhida por Kennedy para representá-lo na Câmara foi a soldado transgênero Patricia King, membro de um dos coletivos prejudicados na era Trump. E deixou ao presidente um último recado: “Os valentões podem dar seus socos. Podem deixar uma marca. Mas nunca, nem uma só vez, na história dos Estados Unidos, conseguiram se igualar à força e ao espírito de um povo unido que defende seu futuro”.

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